13 Reasons Why é ‘culpada’ por trazer um dos temas mais espinhosos da atualidade para o foco da cultura pop. Espinhoso porque, historicamente, o suicídio sempre foi um tabu na sociedade, e principalmente aqui no Brasil. Na trama da nova série da Netflix, Hannah Baker, uma estudante do Ensino Médio, decide tirar a própria vida. E isso não é um spoiler, faz parte da premissa do show. Entretanto, ela deixa uma espécie de testamento através de 13 fitas de vídeo K7 para responsabilizar cada um dos porquês que a levaram ao suicídio. A partir daí, a trama começa a girar em torno dos segredos e das motivações desse grupo de jovens.

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Algumas pessoas, inclusive você, podem ter achado estranho esse hype que tomou conta das pessoas nas redes sociais nestes últimos dias, principalmente por ser em cima de um tema com tom tão mórbido. Na semana passada recebi uma pergunta, de uma pessoa que ainda não havia visto a série, questionando esse alarde: Como o suicídio pode fascinar as pessoas?, ela dizia. A partir daí, comecei a notar quais os fatores responsáveis por alçar o suicídio de tema-tabu à um pseudo-fenômeno-pop.

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NÃO HÁ FANTASIA NO SUICÍDIO

São números que impressionam: 804 mil mortes causadas por suicídio no mundo, anualmente. Aqui no Brasil, oitavo país com o maior índice, temos uma média de 15 mil casos por ano. Por recomendação ética, o tema suicídio é evitado nas redações dos jornais ou das emissoras de televisão. Mas, em plena Era das redes sociais não dá mais para esconder nada. Nós convivemos com alterações diárias na nossa cultura que fazem com que isso venha a tona. E você pode notar pela quantidade de referências presentes na cultura pop. Esse é um tema sensível, mas que deve ser discutido por todos.

Em 2015, trabalhando em uma emissora de rádio, tive a oportunidade de entrevistar uma psicóloga sobre o tema durante a campanha de conscientização Setembro Amarelo, que tratava do assunto. Sobre a divulgação, ela disse algo que me chamou a atenção: “A veiculação desse comportamento precisa existir, principalmente para a prevenção. É muito fácil parar e refletir sobre a condição do outro, mas dificilmente paramos para refletir sobre a nossa condição.” Divulgar o tema, seja através dos noticiários ou de uma forma tão fácil e leve quanto a cultura pop possa transmitir, é essencial para criarmos diferentes formas de olhar subjetivamente para isso.

A sociedade secreta, então, acabou. Uma sociedade que, secretamente era povoada por Anas, Marias, Pedros, Joãos, Carolinas, Gustavos, Letícias, Gabrielas e tantos outros nomes que não aparecem tanto quanto o nome Hannah Baker esteve na mídia ultimamente. Não existe um encantamento obscuro acerca do tema, como a pergunta que fizeram a mim sugeria, mas apenas um tema pertinente a qualquer um: a morte. E com o suicídio temos apenas a ponta do iceberg que fez Os 13 Porquês (nome que a série recebeu no Brasil) ser maratonada a exaustão. As pessoas querem entender os sentimentos como solidão, tristeza, perda, inquietação. A série traz uma narrativa muito bem pensada para compreender o suicídio, até então vago e permeado por incertezas. De uma forma leve, isso significa lançar um ponto de vista ameno sobre esse tabu.

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A IDENTIFICAÇÃO ESTÁ NA CULPA

A subjetividade, como você pode perceber, é parte vital no entendimento dessa inserção do suicídio como tema na cultura pop. Como nos mostra 13 Reasons Why, aquilo que leva ou pode levar uma pessoa a idealizar o suicídio é muito subjetivo, mesmo quando alguns diagnósticos criam uma tendência maior para o ato. O suicídio de Hannah Baker veio do acúmulo de situações, que vão de bullying a violência sexual, para explicar essa sensação total de impotência e desespero.

No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma das instituições mais antigas que realizam apoio emocional e prevenção ao suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo. Eu tive a oportunidade de passar pela capacitação para atendimento e, posteriormente, trabalhar como voluntário. Há poucos meses, também trabalho com um grupo de voluntários que atendem casos onde uma ajuda mais pessoal e profissional é necessária. Digo isso porque, somente mergulhado nesse universo, você acaba percebendo como as pessoas são realmente sensíveis. Cada uma delas sabe o que passa em sua vida, mas dificilmente sabe como sua mente processa tudo isso. É difícil lidar com estados de espírito diante de uma traição, frente a uma perda ou perante o desestímulo, por exemplo. Não é como se eu pudesse chegar para você e perguntar seu nível de dor, como se fosse o seu colesterol.

Nesse ponto está a riqueza da série, que não busca tentar explicar efetivamente o suicídio. Afinal, Hannah não era perfeita e o suicídio nunca é uma boa opção. Ela poderia ter tentado mais, poderia não ter afastado aqueles que poderiam ter lhe ajudado de alguma forma, mas não fez isso. Fazendo um parâmetro da realidade com a série: em uma das cenas mais comoventes, a mãe de Hannah lamenta a ausência de um bilhete que justifique a decisão da filha. Entretanto, durante uma experiência minha nesses casos em que a resposta vem através de algo deixado, as dúvidas não desaparecem. Mesmo com justificativas, o que levou meu ente querido a fazer isso? O que o levou a desistir da ajuda?, essas pessoas se questionam.

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Mais do que uma série sobre suicidio, 13 Reasons Why é sobre essa culpa. Quem nos leva durante a narrativa das fitas de Hannah é o jovem chamado Clay Jensen, por quem a menina mantinha um interesse platônico. Uma das perguntas com que eu me deparei durante a série, e que talvez algumas pessoas também tenham se deparado, foi: Eu sou o porquê de alguém?. Não conhecendo o íntimo das pessoas, nos cercamos de dúvidas a respeito do que elas sentem em relação a nós. E isso se acentua ainda mais na adolescência, uma fase que nunca deveria ser tratada com banalidade. O modo como agimos com o outro ou o que deixamos de falar para alguém são pontos muito fortes da narrativa da série e da vida real.

ESSA INTENSIDADE NO MUNDO REAL

As redes sociais podem ser boas ou ruins, depende de quem você encontra por lá. Hannah fala sobre elas durante a narrativa de uma fita: “Facebook, Twitter e Instagram nos transformaram em uma sociedade de stalkers [assediadores]”. Se a intensidade dos sentimentos causa o efeito que comentamos no tópico anterior nas pessoas, isso se acentuou com a chegada das redes, que aumentaram nosso contato diário. A internet é palco de ofensas que proliferam a insegurança, a tristeza e os defeitos alheios. Isso fica bem evidente na série.

Aqui no ‘mundo real’, por outro lado, a repercussão de 13 Reasons Why foi intensa e efetiva, de acordo com o próprio CVV. A organização estima que, desde a estreia na sexta-feira passada (31/03), os pedidos de ajuda ou conversa praticamente dobraram, com diversas mensagens mencionando a série. Os fãs também criaram uma campanha espontânea no twitter com a hashtag #NaoSejaUmPorque, mostrando exemplos para não contribuir com a depressão ou até mesmo com o suicídio de quem quer que seja. Então, mais do que buscar um público que se identifique com Hannah, a ideia da série é buscar pessoas que se identifiquem com os porquês. Isso mesmo! Com os opressores. Afinal, é por aí mesmo que começa a conscientização sobre os efeitos que isso pode causar em alguém.

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Vale destacar que nada do que a série entrega sobre os temas é sutil. As cenas funcionam como um grito que marca quem está assistindo e tudo é forte, principalmente a fotografia e o modo como os detalhes são tratados. Confesso que na cena em que o suicídio está ali em cena e você percebe o que vai acontecer, fiquei esperando uma virada de câmera ou um corte de cena. Mas ele não veio e mais uma vez a série mandou o seu recado: é preciso encarar o problema de frente pois ele está ali em toda a sua finitude, em toda a sua dor. É preciso falar sobre isso.

Para encerrar o texto, é preciso falar do ótimo timing que a Netflix Brasil possui: junto ao lançamento da série, o serviço de streaming disponibilizou um site com informações atualizadas para quem precisa de ajuda, o reasonswhy.com.br. O contato divulgado é justamente o do Centro de Valorização da Vida, que oferece apoio 24 horas por telefone (141), email, chat ou skype. Acesse aqui.

Por fim, aproveitando a campanha #NaoSejaUmPorque, ontem (7) a Netflix lançou em suas redes sociais uma série de vídeos levantando novamente a bandeira contra o bullying. Você pode conferir a seguir.

Texto escrito por Evandro Claudio

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