O novo e polêmico longa de Alex Garland, diretor do audacioso Ex Machina, acabou indo direto para a Netflix, o serviço de streaming mais famoso do mundo. Mesmo desagradando o realizador, a Paramount preferiu não assumir riscos com Aniquilação e vendeu a obra e seus direitos para a Netflix.

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Mesmo não sendo o formato ideal, ao menos é um motivo de celebração que o filme tenha chegado aqui no Brasil. E como toda boa ficção científica, há um final intrigante que pode suscitar algumas dúvidas na cabeça do espectador.

Aqui, acompanhamos a tragédia de Lena, uma bióloga que aceita adentrar uma zona misteriosa e possivelmente alienígena conhecida como o Brilho que surgiu na costa americana – acompanhada de mais outras quatro mulheres que nada tem a perder. Tudo é motivado por conta do retorno inesperado de seu marido, Kane, um militar também enviado ao Brilho em busca de respostas sobre o mistério assombroso que há dentro daquele lugar onde as leis mais básicas da natureza não se aplicam.

Após retornar sozinha do Brilho, um lugar do qual nunca retornaram, Lena é interrogada por diversos cientistas para contar de fato o que ocorreu durante sua peculiar expedição.

Spoilers adiante

É um fato concreto que Aniquilação não se trata de um poço profundo de complexidade, afinal o próprio roteiro gosta de se explicar com alguns diálogos repletos de exposição ou através de uma direção bastante firme por Alex Garland que oferece pistas que visam induzir o espectador tanto ao acerto quanto ao erro.

O clímax da obra é envolto por um grande mistério já que não acompanhamos a chegada de Dra. Ventress ao Farol, epicentro de todos os eventos do Brilho que se iniciam após a colisão de um asteroide/nave extraterrestre o lugar.

Após testemunhar Josie ter o DNA transmutado para um código genético de plantas e virar uma das árvores-humanas que o grupo estuda ao chegar em uma pequena vila abandonada, Lena chega finalmente ao Farol e admira árvores feitas de cristal até adentrar na misteriosa edificação na qual encontra uma câmera de vídeo apontada para um cadáver carbonizado.

Intrigada, Lena liga (convenientemente) a câmera de vídeo que ainda guarda um restante de bateria para mostrar uma terrível verdade. No vídeo, descobrimos que Kane conseguiu chegar ao farol, mas já totalmente insano pela alteração do DNA ocorrida ao longo da jornada. Em primeiro momento, ele parece apenas falar consigo mesmo, mas em questão de poucos minutos descobrimos que ele conversa com outro ser – esse, também visto de relance em um rápido plano que surge durante o segmento.

Após Kane pedir para o ser procurar Lena e se explodir com uma granada de fósforo branco, vemos que outro Kane surgir na cena para desligar o equipamento. Esse Kane é um extraterrestre mímico que consegue manipular seu DNA para apresentar as mesmíssimas características de um humano nos mínimos detalhes. Ele também é o mesmo Kane que surge misteriosamente na casa de Lena e que entra em um colapso físico após ingerir uma pequena dose de água oferecida pela protagonista.

Nisso, o espectador compreende que esse alienígena não suporta o contato com a água e que também está aprisionado na quarentena do laboratório secreto instalado nos arredores do limite do Brilho, mas ainda disfarçado como marido da bióloga.

Após essa chocante revelação, Lena resolve adentrar no estranho buraco que leva a um subsolo totalmente extraterrestre. Lá ela encontra a Dra. Ventress com mutações visíveis clamando profecias vazias enquanto aponta que um ser está dentro de si e que logo estará liberto para fazer o que quiser. Ao finalizar esse aviso, rapidamente a mulher começa a emanar uma intensa luz, libertando a criatura alienígena, se desintegrando durante o processo.

A criatura humanoide de aspecto metálico e amedrontador é rapidamente fuzilada por Lena, mas de nada adianta já que o ser possui um controle sobre seu corpo que permite até mesmo o teletransporte. Tentando sobreviver a investida do alien, Lena ataca novamente e logo é rendida pelo bicho que, então, começa a copiar seus movimentos nos mínimos detalhes, já indicando a possibilidade de uma substituição de identidade para se infiltrar em nossa sociedade.

Porém, como o alienígena é um recém-nascido, parece ser igualmente ingênuo. Quando Lena faz a aproximação final, com o bicho já tendo copiado todo seu DNA e completado a transformação, ela o faz pegar uma outra granada de fósforo branco conseguindo explodir todo o lugar bem a tempo de se salvar e retornar em segurança para a instalação laboratorial.

Bom, é realmente algo inacreditável, não? Apesar dos cientistas que interrogam Lena acreditarem nessa versão perfeita e improvável demais – e o diretor mostra-la bebendo um gole de água depois das perguntas indicando que esse Lena é realmente a protagonista que acompanhamos até então, a mulher é submetida também a uma quarentena, se reunindo novamente com seu “marido”.

Ao adentrar a câmara, ela pergunta a Kane se ele realmente não é Kane, tentando conseguir uma resposta que afirme o fato da morte do marido. Porém, não há resposta, mas apenas um abraço. Garland, utilizando um close eficaz, então revela o óbvio segredo: tanto Kane quanto Lena são os dois extraterrestres que conseguiram fugir do Brilho. Tudo isso é esclarecido através da mudança das cores dos olhos de ambos, cintilando tons prateados por um breve momento.

Ou será que não?

Como Aniquilação aborda constantemente a alteração de DNA, a busca pela autodestruição e o drama de cicatrizes profundas e ainda abertas, é bem possível interpretar a conclusão do longa de modo um pouco mais diferente que torna a obra ainda mais interessante.

No caso, é preciso que o espectador acredite no truque de Garland sobre a água de modo cego e inquestionável. O clone extraterrestre de Kane não consegue tolerar a água, então tudo leva a crer que esses seres realmente possuem uma grande fraqueza.

Desse modo, por conta de Lena conseguir beber água tranquilamente, é possível que a história contada sobre os acontecimentos dentro do farol sejam verdade. Ela de fato destruiu o alien e conseguiu acabar com o Brilho na Área X. Ao retornar para o laboratório, Lena já tem conhecimento da morte do marido e de seu casamento previamente arruinado por conta de traições cometidas por ela com um colega de trabalho.

O clone de Kane então passa a ser uma ideia atraente na qual Lena consegue enfim ter uma segunda chance para seu casamento e por si mesma, enterrando a vontade de autodestruição – afinal ela destrói a “si mesma” ao detonar o alienígena mímico e o farol com a granada. Porém, devido ao contato intenso com a atmosfera radioativa dentro do Brilho, seu DNA está também significativamente alterado. Em nível molecular, ela já não é mais a mesma pessoa permitindo o vislumbre dos olhos cor de prata exibidos na cena final do longa.

Sob o ponto narrativo, esse é o final mais esdrúxulo e menos cínico para Aniquilação, afinal ele é possibilitado por conta de diversas conveniências narrativas. Porém, ao mesmo tempo, ele é o mais rico para o desenvolvimento da personagem muito assombrada pela falência moral e amorosa de seu casamento – afinal não temos tantos flashbacks por acaso.

Esse novo reerguer para a protagonista renascida da aniquilação de seu passado, permite a criação de algo novo. Se levarmos em conta o outro final do qual Lena morreu e a clone sobreviveu, mais adequado ao tom pessimista de diversas ficções científicas, temos o início da provável aniquilação humana na qual esses novos Adão e Eva, expulsos do próprio paraíso, edificarão uma nova sociedade.

Aniquilados

Seja lá qual final decidir acreditar, é bem possível que conseguirá diversas discussões em rodas de amigos buscando evidências escondidas ao longo do filme que pode fortalecer uma teoria ou outra. Com Lena viva ou não, Aniquilação deve conseguir transmitir alguma mensagem interessante para o espectador, justificando perfeitamente uma recomendação para os amigos.

E você? No final de tudo, no que acredita? Humana tentando reconquistar seu casamento ou alienígena preparando o fim do mundo? 

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