(Este texto contém spoilers de Alien, O Oitavo Passageiro e Alien: Covenant)

Filmes diferentes, direções diferentes

É muito difícil comparar o trabalho de um diretor analisando filmes diferentes. Cada obra cinematográfica possui objetivos distintos, e, para atingi-los, um cineasta precisa empregar técnicas narrativas que coadunem com a intenção de uma cena ou o propósito de criar uma atmosfera própria. Um diretor dispõe quase sempre das mesmas ferramentas, mas o uso que faz delas em cada um dos seus filmes vai de encontro com o seu momento biográfico e aquilo que é necessário para que a história escrita nas páginas ganhe vida na forma de uma obra audiovisual.

Até quando se fala em estilo, ou seja, de um grupo de características que tornam a obra de um cineasta um corpo de trabalho reconhecível e particular, não tem como escapar do fato de que, apesar de todos os filmes de um determinado diretor girarem em torno de um único assunto ou uma única preocupação, ainda assim, devem ser considerados variações de um mesmo tema, nos quais tramas, paisagens, personagens e época histórica são sempre diferentes. As obras podem convergir para um mesmo ponto, mas as suas aparências não serão iguais. E, quando se trata de Cinema, a roupagem visual e sonora é quase tudo.

A  evolução ou regressão artística de um diretor

Entretanto, feitas essas ressalvas, é possível, sim, analisar diferentes obras de um diretor e perceber as maneiras com que a técnica cinematográfica é empregada em cenas e histórias similares. Geralmente, isso também serve para ver se ele evoluiu ou regrediu como artista. Pode parecer estranho o que acabei de escrever, mas, se pensarmos bem, veremos que, em vez de soar contraditória, a aparente dubiedade desse comentário revela uma sutileza argumentativa que se confirma perfeitamente quando usamos exemplos concretos e os separamos para um exercício interpretativo.

Tomemos Alien, O Oitavo Passageiro e Alien: Covenant, do diretor Ridley Scott, por exemplo. O primeiro foi lançado em 1979, e o segundo, em 2017. Embora não sejam idênticas, as tramas dos dois filmes contam histórias muito parecidas: viajando pelo espaço, um grupo de humanos entra em contato com uma raça alienígena assassina. Além disso, ambas as obras possuem abordagens e objetivos semelhantes, estes últimos sendo o de causar apreensão, medo e reflexão. Sendo assim, eles formam o material perfeito para ver como Scott, ao longo dos seus mais de 30 anos de carreira, dos pontos de vista técnico e artístico, regrediu consideravelmente.

Alien, O Oitavo Passageiro e Alien: Covenant

Se pegarmos os minutos iniciais das duas obras, veremos, timidamente, como Scott já começa o longa atual equivocadamente. Em ambos os filmes, a impressão que se tem é a de que o diretor deseja abrir a história de uma forma impactante. No longa de 1979, entramos no filme através de uma sequência de movimentos de câmera sinuosos e lentos. No de 2017, somos introduzidos à história através de uma cena em que há uma montagem e um design de produção precisos, além de um diálogo filosófico entre um androide e o seu criador.

No entanto, ao passo que, no filme original, as escolhas de Scott funcionam não somente como um foreshadowing dos locais em que a trama se desenrolará, mas também como a apresentação da nave Nostromo, que é uma espécie de nona personagem na história, no filme atual, apesar de terem sido bem pensadas, as escolhas do diretor servem apenas para compor uma cena cujo objetivo é extremamente ordinário: fazer as pessoas que assistiram a Prometheus relembrarem quais são as motivações internas e a psicologia de David (Michael Fassbender), o androide vingativo que será essencial no desenrolar da trama.

Já nas cenas seguintes, em que somos apresentados aos cientistas que compõem a tripulação da nave Covenant, Scott prova ainda mais que regrediu como diretor. Se em Alien, O Oitavo Passageiro, Ripley e companhia são mostrados pela primeira vez de uma maneira lenta, compassada e enervante, em Alien: Covenant, já somos jogados de uma maneira catártica no drama de Daniels (Katherine Waterston), não existindo tempo para que ele ressoe emocionalmente em nós. Além do mais, em questão de minutos, somos obrigados a acompanhar as inseguranças do capitão Oram (Billy Crudup), como se elas bastassem para que passemos a nos importar com ele.

Ainda refletindo sobre a apresentação dos personagens, também é interessante perceber como o mistério que é construído no filme original sobre quem são aquelas pessoas e a forma como o roteiro e a direção brincam com a identidade do verdadeiro protagonista dão lugar a uma introdução banal, na qual os tripulantes pouco chamam atenção e cujas personalidades precisam ser expostas verbalmente a todo momento. Ao menos no longa de 1979 havia uma aura enigmática sobre os cientistas e o roteiro não tinha medo de abraçar a unidimensionalidade de alguns deles (sei que alguns comentários que estou fazendo dizem respeito ao trabalho dos roteiristas, porém, como Scott tem total controle sobre os seus filmes nos dias de hoje, parte dessa culpa cai sobre ele).

Essa mesma pobreza na construção cinematográfica pode ser vista nos ataques dos xenomorfos. Lembrem que, em Alien, O Oitavo Passageiro, na primeira vez em que presenciamos o nascimento do alienígena, Scott inicia a cena com um plano geral, para, depois, decupa-la precisamente em um jogo de olhares entre Ash, o androide interpretado por Ian Holm, e o objeto de sua atenção, o cientista Kane (John Hurt). Ao mesmo tempo, através do design de som, batidas de coração começam a tocar e são progressivamente aumentadas até o momento chocante no qual o alien estoura do peito do personagem (os instantes que antecipam a explosão são feitos de cortes frenéticos que dão lugar a planos mais estáticos quando os cientistas tentam compreender o que acabou de acontecer, recriando, assim, a sensação sentida pelo público durante a cena).

Já em Alien: Covenant, todo esse minimalismo e cuidado na composição visual e sonora é substituído por elementos empregados em qualquer filme de ação genérico: o primeiro grande ataque dos alienígenas é construído através de cortes rápidos que tentam dar uma urgência que não existe, além de não refletirem a apreensão do espectador – como no filme de 1979. O desenho de som, por sua vez, é banal e não apresenta nada de especial ou único como na obra original.

Finalmente, no que concerne ao terceiro ato, a presença de mais do que um clímax se repete nos dois filmes. Porém, notem como, no longa da década de 1970, Scott se apropria da trilha de Jerry Goldsmith para indicar ao espectador que o xenomorfo ainda não foi eliminado definitivamente. No momento em que achamos que Ripley se livrou dele, a música que ouvimos tocar não é tão edificante quanto suporíamos ser em um instante como aquele. É só depois que ele aparece mais uma vez e, agora, temos a certeza de que foi morto, que os acordes do compositor explodem com toda a sua exuberância. No longa que foi lançado recentemente, porém, os clímax se atropelam e têm apenas um propósito em comum: criar ação e estabelecer um chão para possíveis sequências.

Ponderações simples, mas relevantes

É claro que as ponderações acima não têm o objetivo de abranger a totalidade do trabalho de Scott em ambos os filmes. Mas, apesar de serem breves, elas são suficientes para apontar como o diretor, na sua juventude, era muito mais criativo e ambicioso do que é atualmente. Como um todo, é quase impossível comparar as duas obras. Contudo, como elas possuem momentos similares, fica evidente que, nesses instantes específicos, o trabalho do cineasta em 1979 foi imensamente superior. Aliás, a simples análise dessas cenas basta para compreender o porquê do primeiro filme ser uma obra-prima, e o segundo, um desastre. Que não se repetisse, mas que encontrasse formas novas e ricas de se contar uma história parecida é que pedíamos para Scott. É uma pena que ele não tenha escutado.

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