SPOILERS

Vamos esclarecer desde já o que é fato: The Last of Us é uma inegável obra-prima! Um jogo que não só marcou o limiar de perfeição que jogos poderiam alcançar, tanto estilisticamente como tendo um dos melhores gráficos da rica era PS3, quanto narrativamente, onde pudemos ver o mundo dos jogos e o cinema colidindo em um roteiro bem escrito, desenvolvido ao longo da trajetória de seus personagens e do mundo em ruínas da morte em que viviam.

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E é aí que se apresenta a problemática que será discutida aqui, o que os personagens Ellie e Joel enfrentaram ao final de sua trajetória no jogo e que deixou um bom número de jogadores, eu incluso, um tanto frustrados na época. Não no sentido de frustração de um final mal escrito ou executado, mas sim exatamente por ter sido uma enorme quebra de convenções e paradigmas clichês quando comparado aos finais que “simples jogos” poderiam ter. O desfecho que conseguiu meter o dedo na ferida emocional que o jogador criara com os personagens ao longo das 12 horas de um prazeroso, tenso e doloroso gameplay, e que realmente te fazer refletir sobre suas ações finais.

Moral e Emoção

Antes de continuar, vamos para um breve resumo. A narrativa principal de The Last of Us segue a jornada de Joel e Ellie por um Estados Unidos após um apocalipse zumbi, rumo ao encontro da base secreta dos “Vaga-Lumes”, uma facção militar rebelde que enfrenta o governo e procura desesperadamente uma possível cura para o vírus que ocasionou a morte do mundo. Cura essa que Ellie pode estar carregando em seu sangue, já que fora mordida por um infectado e não desenvolveu a doença. A menina aparenta estar perfeitamente saudável, e eis que se encontra a missão de Joel, levar a jovem até os “Vaga-Lumes” e talvez salvar a humanidade.

A partir daí vem o problema. Pra quem já jogou até o fim, sabe que quando a dupla finalmente encontra os Vaga-Lumes depois de um intenso confronto com uma orda de zumbis e de quase se afogarem, Joel descobre que a única forma de extraírem o gene de cura presente no sangue de Ellie é por meio de um necessário sacrifício para retirada de sua medula. Ellie, desacordada, não sabe de nada. Joel não aceita isso de forma alguma e mata todos em seu caminho (ou pelo menos eu matei, não sou lá muito bom em modo stealth) até Ellie e a retira de lá. Mais tarde, quando a jovem acorda, Joel lhe conta que os Vaga-Lumes mentiram e que não procuravam mais cura alguma, visto que existiam outros imunes, tornando-a totalmente descartável para eles.

Mentindo, ele a faz crer que não havia esperança alguma de salvação para o vírus. Seu sangue não poderia ser usado para mais nada, restando apenas ir viver com Joel em algum lugar seguro tentando sobreviver ao resto do apocalipse.

É compreensível como um final como esse é capaz de causar certa revolta. É frio, inesperado, é o acaso das escolhas do personagem distorcendo a verdade, e a mentira agora se tornando a felicidade que Joel oferece a Ellie para ambos viverem em paz. Uma pura ação egoísta que queima toda a boa índole e humanidade que ainda restava em Joel, ou foi algo ainda mais profundo e complexo do que isso? Por que ele fez o que fez? Traiu Ellie por ele, ou o fez por amor?

Pai e Filha

Levemos em conta a relação de ambos os personagens. Joel e Ellie não possuem laços familiares como o marketing do jogo na época nos fazia pensar. São apenas dois estranhos cujo o acaso juntou. Um relacionamento que começou com um Joel, velho amargurado cheio de dores do passado e movido à violência que o ajudou a sobreviver esse tempo todo no apocalipse, em contrapartida a Ellie – uma jovem de espírito inocente e que possui pouca noção do limite da violência do ser humano, mas inteligente o bastante para saber sobreviver a ela.

Essa relação que começa com o sentimento de indiferença, que parte para lealdade na sobrevivência, para a amizade e no final, claro, para o amor fraterno. Isso se resume e desenvolve na forma como um encara o outro. Tanto Ellie para Joel que parte, novamente, da indiferença para o respeito e admiração afetiva; e Joel para Ellie, que se vê no início da missão apenas cumprindo um trabalho dificílimo em nome da recompensa final, e que se torna ao longo da jornada um instinto protetivo paternal que ele aprendeu, e se permitiu, a sentir novamente.

Joel começa a amar Ellie com o sentimento de pai pra filha que ele não vivia há muito tempo, após um trágico evento que marcou sua vida. É isso que o levou a fazer o que fez, friamente e sem pudor algum, tudo pela vida da última coisa boa que lhe restava. É como ele diz para Ellie perto da conclusão: “as vezes você encontra algo que vale a pena lutar” – esse algo que o ainda mantém vivo e lhe dá tanta força, seu amor por Ellie.

Mas as coisas não ficam tão sombrias como se ocasionava. Ellie não é nenhuma burra e cresceu muito em sua jornada ao ponto de compreender o que é moralmente certo ou errado em um mundo dominado pelo sentimento de sobrevivência. Ela claramente percebe que Joel está escondendo algo, e tanto a incrível performance gráfica da performance quanto a soberba atuação vocal de Ashley Johnson convencem essa dúvida lhe remoendo por dentro. E num passe de última pergunta e última chance ela questiona Joel se tudo que ele falara sobre os Vaga-Lumes era realmente verdade. Ele, ainda preso em sua convicção, responde que sim.

No último olhar e no suspiro fundo final de Ellie, como se ela tivesse aceitando aquelas palavras como verdade, e mesmo sabendo serem mentira, responde um simples: “ok”. Teria ela acreditado em Joel ou apenas, assim como ele, aceitou aquilo para não encarar a verdade sombria e que poderia separa-los?

O epílogo dessa longa história, como sempre, fica à nossa própria interpretação. Mas eis um prato cheio de embate moral e emocional que o próximo jogo pode vir a explorar nesse relacionamento que ainda tem muito a oferecer.

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