» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Lançado em 2011, no Japão, e 2013, nos EUA, exclusivamente para o Playstation 3, Ni No Kuni: Wrath of the White Witch provou ser um dos melhores RPGs de sua geração. Em colaboração com o Studio Ghibli, responsável por animações como A Viagem de Chihiro e Castelo Animado, a Level-5 nos trouxe uma aventura que poderia facilmente ser um filme de Hayao Miyazaki, explorando temáticas importantes, como a depressão e o luto, através de uma abordagem fantasiosa. Tendo se tornado um dos games mais bem vendidos do PS3, o anúncio de sua sequência, Ni No Kuni II: Revenant Kingdom, portanto, não veio como grande surpresa.

A continuação, no entanto, não trouxe a parceria entre o estúdio de animação e a desenvolvedora de games de volta, o que acabou levantando as sobrancelhas dos fãs do primeiro jogo. É com grande satisfação que, ao jogar Revenant Kingdom, posso afirmar que o espírito de seu antecessor foi mantido, mesmo com substanciais diferenças tanto no gameplay quanto no storytelling. Assim sendo, antes de mais nada, é importante levar em conta que esse jogo não nasceu na intenção de meramente repetir acertos do passado e sim de inovar – inovação essa que faz falta em muitas outras franquias dos games por aí.

Dois mundos entrelaçados

A trama tem início com Roland, presidente de um país, testemunhando a queda de uma bomba atômica sobre sua cidade. Nesse momento, ele é transportado para um universo diferente e lá encontra o rei Evan Pettiwhisker Tildrum, um jovem garoto, com orelhas e rabo de gato, que está prestes a ter seu trono usurpado pelo seu conselheiro. Após o golpe de Estado, ambos se aliam para fugir da capital Ding Dong Dell e, após conhecer melhor Evan, Roland decide permanecer nesse diferente mundo, ajudando o rei a construir um novo reino e a unir todos através de seus ideais de paz.

De imediato fica bem claro que a temática central de Revenant Kingdom não é tão pesada quanto a de seu antecessor, tampouco tão intimista. Toda a história praticamente gira em torno da construção desse novo reino e Evan o faz para ajudar o mundo e não se tornar governante novamente. Há uma nítida inocência em suas ações, mas, de maneira impressionante, o texto constrói essa inocência sem que ela soe fantasiosa demais, sendo, portanto, mais utópico do que ingênuo. Evan é a representação do perfeito governante, alguém que se preocupa plenamente com seu povo e sua aliança/ amizade com Roland claramente delineia a típica jornada do herói, ainda que a figura do mentor seja distribuída por outros personagens.

O problema dessa falta de intimismo da história é que custa a sermos, de fato, fisgados por ela. Não conhecemos ou sequer entendemos Evan completamente para, de fato, nos importarmos com sua trajetória. Mesmo Roland é mantido na superficialidade por bastante tempo, gerando, inclusive, um estranhamento inicial, quando ele, sem mais nem menos, decide ficar naquele mundo. Claro que entendemos isso como reação ao seu país ter sido explodido, mas faltam diálogos que abordem essa questão. Somente com algumas horas de jogo que essa trama começa, enfim, a andar e permanecemos presos à construção do novo reino em si.

Não ajuda, também, o fato de muitos personagens jogáveis serem introduzidos logo cedo, sem que possamos, de fato, conhecer cada um deles. Logo nas primeiras horas de jogo mais três são adicionados à equipe, somente para serem pouco explorados logo após. O cenário vai se alterando conforme progredimos, mas, como dito antes, custa mais a mergulharmos na narrativa, o que pode tornar as horas iniciais de Ni No Kuni II um tanto arrastadas, fazendo pouco para prender o jogador, que, ao mesmo tempo, tem de se habituar com as muitas novas mecânicas.

Uma jornada com altos e baixos

Já entrando nessas mecânicas do game, é preciso salientar que, de início, tudo pode parecer bastante esmagador – muitas coisas são apresentadas de uma vez, de maneira não muito didática, apoiando-se demais em tutoriais em forma de texto que pulam na tela, ao invés de algo mais intuitivo. Assim como a história, portanto, requer uma certa dedicação por parte do jogador para podermos usufruir do game em sua plenitude. A falta de uma U.I. mais esclarecedora faz falta, especialmente aos e jogar no teclado e mouse, nos forçando a depender da tela de opções para nos lembrar o que cada botão faz. Felizmente, quando nos habituamos, tais problemas desaparecem, nos deixando com uma interface bem limpa e bonita de se ver em uma clara preocupação com a simplicidade.

Por falar de simplicidade, o sistema de combate, que adota algumas características do primeiro game, mas segue por um caminho bastante diferente, tenta justamente criar uma experiência simples, porém tática. Funcionando completamente em tempo real, os personagens (controlamos apenas um por vez) seguem nossos comandos imediatamente. Podemos realizar ataques fracos, fortes, esquivar, defender ou usar uma das quatro habilidades especiais de cada personagem. Como todo bom RPG, cada oponente pede uma estratégia diferente e devemos levar isso em conta em cada encontro, tornando os combates de Revenant Kingdom bastante dinâmicos e surpreendentemente fáceis de se entender, por mais que muitos elementos estejam em nosso campo de visão.

E quais elementos são esses? Para começar, os outros dois membros da equipe (sempre três por vez) também lutam, em tempo real, ao nosso lado, fazendo uso de suas habilidades e ataques normais como se fossem outros jogadores. Além disso, pequenas criaturas, conhecidas como Higgledies, adquiridas ao longo do game, nos ajudam, seja através de curas ou outras magias. Por fim, temos os inimigos em si e, na maior parte dos casos, muitos deles preenchem a tela, nos forçando a prestar atenção em tudo que ocorre ao nosso redor.

Trata-se de uma mecânica bastante fluida e prazerosa, cujo único defeito é a exagerada facilidade da esmagadora maioria das lutas. Ainda que certos oponentes representem desafios maiores (em especial algumas criaturas com uma aura roxa em volta delas), a maior parte deles pode ser derrotada apenas clicando o botão do ataque normal, jogando pela janela todo o cuidado em se desenvolver esse excelente sistema de batalha. Essa falta de dificuldade acaba tornando o jogo mais monótono nas lutas, fazendo com que procuremos evitá-las, o que certamente pesa dentro de um RPG, considerando que é preciso subir em níveis para conseguirmos acessar certos desafios.

Ao menos, cada encontro traz suas devidas recompensas, incluindo um bom sistema de loot, com peças de equipamento caindo de cada inimigo derrotado, o que garante a necessária motivação para continuarmos batalhando, por mais que elas nos enjoem momentaneamente. Permanecemos, pois, em um eterno vai-e-vem, com o jogo praticamente nos forçando a tirar certas pausas a fim de renovar nosso interesse. Assim sendo, foi particularmente difícil para mim dedicar horas e mais horas seguidas, de maneira ininterrupta, a Ni No Kuni II, exatamente o contrário de seu antecessor, que nos fazia mergulhar de cabeça.

Criando um reino

Felizmente há muito mais a se fazer em Revenant Kingdom do que apenas partir de luta em luta. Passadas algumas horas de jogo somos introduzidos à mecânica de construção de reino, que nos permite construir lojas, locais de pesquisa e mais no novo reino de Evan, nos garantindo mais recursos, habilidades, itens melhorados e mais. Alguns desses locais permitem que pesquisemos melhorias aos personagens ou que melhores equipamentos sejam forjados, pesquisas essas que ocorrem ao longo de horas ou minutos de jogo (similarmente a Clash of Clans) – com esse elemento ‘extra’, que dialoga diretamente com a trama do game, sentimos como se mais que apenas nossos personagens cresçam, aumentando aquele envolvimento tão necessário e ausente nas horas iniciais. Devo dizer que é bastante recompensador ver o reino tomando forma e se tornando uma nação grande e cheia de pessoas.

Por sinal, essas pessoas são convidadas ao local pelo próprio jogador e devem ser colocadas em lojas, fazendas ou afins de acordo com suas habilidades. Para conseguí-las, precisamos realizar as muitas missões secundárias do jogo. Infelizmente, muitas dessas se resumem a coletar um item específico ou matar um monstro, não contando com a profundidade de outras obras da geração atual, que servem como divisores de água (vide The Witcher 3). Assim sendo, por mais que a recompensa seja atrativa, pode se tornar um tanto quanto cansativo realizar o mesmo tipo de missão repetidas vezes.

Por fim, intrinsecamente ligado à mecânica de construção de reinos, temos os combates entre exércitos, que tira algumas páginas de Total War, fazendo que controlemos até quatro unidades, unidas, com Evan no centro, e batalhemos contra outros pequenos exércitos inimigos. Essa parte do game funciona praticamente como um minigame, mas as recompensas diretamente afetam o restante do game e ajuda a passar a sensação de que realmente existe muita coisa a se fazer em Ni No Kuni II. O mais impressionante é como, mesmo sendo diferente de praticamente todo o resto do jogo, isso funciona, ainda que passe mais a impressão de ser um passatempo divertido do que algo efetivamente importante para o desenvolvimento dos personagens.

Ghibli sem ser Ghibli

Voltamos, então, à questão do jogo não contar mais com a participação do Studio Ghibli em sua concepção, o que quer dizer que não mais temos as fantásticas cutscenes em animação tradicional, sendo tudo substituído pelos gráficos em cel-shading que aparecem nas horas de gameplay em si. Claro que isso pode ser visto como um passo para trás, quando comparado ao original, mas o design de personagens de Yoshiyuki Momose mais que dá conta do recado, mantendo aquele visual típico do estúdio japonês de animação. De fato, esse é um game que parece ser feito pelo Ghibli.

Os já citados gráficos em cel-shading, claro, permanecem como um grande acerto e nos passam a impressão de estarmos diante de um anime, não muito diferente do que foi feito em The Legend of Zelda: The Wind Waker há tantos anos atrás. Infelizmente, esse cuidado com o design dos personagens é desperdiçado no mundo aberto, fora de cidades, canyons ou florestas, no qual a câmera se distancia e vemos uma versão “chibi” dos personagens. Em uma época que já testemunhamos games como Final Fantasy XV, isso soa como um grande retrocesso, ainda que traga de volta memórias dos velhos e saudosos JRPGs do NES, SNES ou Playstation.

Quando a câmera se aproxima, no entanto, o resultado não poderia ser melhor, com cenários bem detalhados e movimentação fluida dos personagens, com muitos elementos se mexendo ao mesmo tempo, fazendo bom uso das capacidades do hardware da geração atual. Assim sendo, na maior parte dos casos, Revenant Kingdom é um game belo de se ver, por mais que pudesse ter ousado mais na perspectiva do overworld, que, por sinal, nos traz de volta aos velhos cortes para cenários de batalha, mais um resquício de suas origens JRPG.

Ao menos, independente de qual imagem está diante de nós, podemos contemplar as belas composições de Joe Hisaishi, que também trabalhou no primeiro game e criou inúmeras das trilhas do Studio Ghibli, incluindo os memoráveis temas de Castelo Animado. Não há, portanto, como não acreditar nessa construção da Level-5, que soube muito bem contornar a ausência da colaboração do estúdio japonês de animação.

Os Riscos da Inovação

Após muitas horas nesse mundo de Ni No Kuni II: Revenant Kingdom fica bastante claro que todos os seus deslizes foram fruto da tentativa de inovação por parte dos desenvolvedores, que não queriam entregar apenas mais do mesmo – o que, por si só, já é algo louvável. Mesmo com esses tropeços, temos aqui uma obra que merece nossa atenção – ela está longe de ser perfeita, mas sabe recobrar o espírito dos velhos JRPGs, enquanto caminha por uma nova direção, nos oferecendo um sólido sistema de combate, ainda que muito fácil, acompanhado de inúmeras mecânicas novas que garantem horas e mais horas de diversão.

Mesmo com um início mais lento e sendo particularmente difícil mergulhar no jogo por horas a fio, ele sempre nos deixa com aquela vontade de retornar a ele, seja graças à suas mecânicas de construção de reino ou pela sua história propriamente dita, que claramente se torna mais atrativa após algumas horas. Pode não estar no mesmo patamar de seu antecessor, mas definitivamente conta com identidade própria e, no fim, nos deixa ansiando por mais Ni No Kuni.

Prós: Sólido sistema de combate, boa história, ótimos gráficos, muito a se fazer, ótima trilha sonora.

Contras: demora a nos atrair de verdade, confuso no início, muito fácil.

Agradecemos pela cópia gentilmente cedida pela Bandai Namco para a realização dessa análise

Ni No Kuni II: Revenant Kingdom (Ni No Kuni II – Revenant Kingdom, Japão – 2018)
Desenvolvedora:
Level-5

Distribuidora: Bandai Namco
Gênero: RPG de ação
Plataformas: PS4, Xbox One, PC

Comente!