Com a estreia de Atômica, vimos que as cenas de luta demonstradas no filme tem um cuidado muito grande com fatores importantes para qualquer cena de ação: além da coreografia há um cuidado com o espaço; compreensão de cada movimento; e a ação e a reação após um golpe. Parece o correto, certo? E é, mas durante o século XX as cenas de ação sempre seguiram um padrão do momento. No começo dos anos 2000, toda maldita cena de luta tinha que ser iguais as que foram feitas pelas irmãs Wachowski na trilogia Matrix. Lutas com cabos, saltos mirabolantes, todos os movimentos tinha o efeito em que deixavam os golpes mais rápidos, etc… Ok, vamos por partes.

» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Em Matrix é justificado o porquê as cenas de ação são dessa maneira. Não foi apenas uma homenagem das diretoras ao cinema de ação de Hong Kong, mas havia um conceito por trás. Dentro de Matrix você pode quebrar leis das física dependendo o quanto você liberta a sua mente, de acordo com Morpheus (Lawrence Fishburne). Ou seja, as Wachowskis deixaram claro que havia uma justificativa dentro do universo criado, mas certos diretores não entenderam isso e foram imitar essa técnica.

O que mais tentou foi o polonês Andrzej Bartkowiak, um renomado diretor de fotografia que havia feito filmes com Richard Donner e Sidney Lumet que virou um diretor de filmes de ação. Não a toa chamou Jet Li para protagonizar alguns dos seus filmes. Li é um excepcional artista marcial, mas Bartkowiak simplesmente tentava fazer uma cópia do que as Wachowski haviam feito. Todas as cenas de luta tinham as mesmas características, só que sem o contexto o que as tornam sem sentido. O exemplo abaixo, que é uma cena de luta do filme Contra o Tempo,  mostra como são exageradas e como o efeito sonoro irrita profundamente.

Esse estilo de luta ficou em volta por alguns anos, até que Paul Greengrass entrou para a trilogia Bourne e fez um estilo novo e coerente com a série. Cheio de cortes rápidos e com uma câmera nervosa que não para de tremer, Greengrass faz cenas impressionantes, porque faz com que o espectador seja parte da luta, sinta a brutalidade e entenda a geografia do local. E o estilo do cineasta é coerente com o da franquia por aumentar o sentido de urgência. A cena abaixo é um exemplo de como funciona o estilo de Greengrass dentro do contexto dado.

Claro que iriam copiar esse estilo, assim como fizeram com as Wachowskis. Mas não apenas imitavam, pioravam. Porque o estilo de Greengrass é arriscado porque com a câmera tremendo e os cortes rápidos deixam o espectador confuso sobre o que está acontecendo e o que está acontecendo em relação a quem. Essa cena de luta do péssimo remake de O Vingador do Futuro é um exemplo. Notem como o excesso de cortes não deixa claro quais são os golpes e não mostram a reação dos atores a cada golpe dado. Além de uma câmera esquizofrênica que não para de tremer.

Se fosse apenas esse filme, tudo bem. Mas a maioria segue essa maldita onda. Parecem que os diretores não planejam a cena com cuidado e acham que só imitando o estilo de Greengrass funciona. Como já falei: funcionava nas franquias Bourne e Matrix por seus diretores pensarem conceitualmente na gramática da cena e como os elementos escolhidos funcionariam. Um dos poucos diretores que emularam bem o estilo de Greengrass foram os Irmãos Russo em Capitão América: O Soldado Invernal. A cena abaixo demonstra como os diretores utilizaram bem os estilo.

Por mais que os Russos faça um bom trabalho, ainda são poucos que pensam no geral da cena de luta, mas há um em especial que pensa muito bem nesse quesito: o galês Gareth Ewans na sua franquia Operação: Invasão que irei chamar por seu nome original, The Raid.

São dois filmes dessa franquia protagonizada pelo lutador Ikwo Uwais até agora, que Ewans dirigiu, escreveu, montou e ajudou na coreografia de ambos os filmes. Foram feitos na Indonésia, por conta disso as lutas são feitas pelo estilo do país, o Pancat Silak. O trabalho de Ewans com as cenas de ação desses filmes é impressionante. Lembram quando falei de ação e reação do mesmo plano, utilização do espaço, entendimento da coreografia e utilização do espaço na hora da ação?  Ewans tira tudo isso de letra. Além de não picotar as cenas na montagem final, deixando compreensível o que acontece em cena. Segue abaixo duas cenas da franquia The Raid para mostrar como qualquer fã de ação pode se sentir seguro vendo um diretor desses.

Como o artigo começou com Atômica, que realmente tem boas cenas de luta, acho justo falar do anti herói que David Leitch trouxe há alguns anos que se tornou uma atual referência para o cinema de ação: o assassino John Wick (Keanu Reeves). Apesar de Leitch ter participado apenas do primeiro filme, dividindo a direção com Chad Stahelski, já se vê muita das influências que se vê no filme de Charlize Theron. As principais estão no cuidado visual, a coreografia realista e no uso do espaço. Além das cenas de luta corporal, como as pistolas são utilizadas também mostra uma forte influência do cinema de ação de Hong Kong, mas com um cuidado especial na contagem de balas. A cena abaixo mostra bem esse cuidado na decupagem milimetricamente cronometrada dos diretores.

Já na sua continuação, lançada esse ano, que contou apenas com Stahelski na direção, não tem o mesmo cuidado visual. Mas em compensação continua com uma ação inspirada se preocupando não só com a luta, mas o lugar aonde acontece e nas consequências de cada golpe. Essa cena já demonstra esse cuidado.

Enfim, esse foi um pequeno comentário sobre as cenas de luta dos últimos anos. Por mais que Staheski, Leitch e principalmente Ewans são nomes que fazem boas cenas de pancadaria, pensando mais do que na luta em si, na geografia e na utilização do espaço. Ainda a tendência é imitar o estilo de Greengrass, mas com o sucesso de Atômica e da franquia John Wick, um novo padrão de cenas de luta chegou ao mercado. Só espero que vejam no cuidado dos seus diretores ao invés de apenas imitar o estilo.

Para finalizar um caso que o diretor emulou razoavelmente bem o estilo de Ewans, mas exagerou nos cortes e um pouco na movimentação da câmera. Por incrível que pareça, James Wan em Velozes e Furiosos 7.

Até mais e boa pancadarias!

Comente!