Obs: sempre que houver aspas, são citações do Livro dos Símbolos, publicado pela Taschen.
Obs²: texto enorme carregado de spoilers.

Descascar elogios a Westworld, nova série da HBO que já teve sua 1ª temporada encerrada, é ser bastante redundante. Nosso amigo Lucas Nascimento conseguiu com extremo esforço analisar o seriado semanalmente com competência. Entretanto, diante de ter visto algo tão interessante, rico e divertido, não pude me conter e já parti para esmiuçar algumas simbologias visuais e simulacros históricos presentes no seriado.

Jonathan Nolan geralmente expõe muita coisa e adora explicar ao público do que está falando ou tentando retratar em tela. Seja com a escavadeira gigantesca durante um tenso bate-papo entre Ford e Theresa ou com as representações visuais, através da montagem, que mostram Dolores ganhando consciência própria ao clímax de seu arco – primeiro escutando a voz de Arnold que rapidamente se transforma na sua onde então passa a observar seu antigo “eu” sentado na cadeira defronte a ela.

Muitas vezes, Nolan deixa o diálogo mais poderoso do que as representações visuais. Isso tem um motivo claro: ele escreve todos os episódios enquanto dirige apenas dois dos dez. Então é uma forma de manter o poder, do insumo de exploração de símbolos apenas no poder de seu texto. Não são poucos os monólogos que marcam o seriado e cada um deles conseguem expor os sentimentos dos personagens sobre o que os cercam, misturando conceitos diversos de filosofia – com ênfase no existencialismo.

Prazeres violentos tem finais violentos, os diversos e encantadores monólogos de Ford – da Criação de Adão, sobre os pavões, poder, humanidade, ciclos ou até com seu discurso final, sobre os sonhos distantes de Dolores ou com as rápidas passagens de Alice no País das Maravilhas. Nolan praticamente não dá brechas para coisas que fujam do texto. Mas, felizmente, existem representações visuais que podem ser esmiuçadas – e, pasmem, muitas vêm do figurino.

São jogadas inteligentes e algumas podem ser óbvias para alguns leitores que podem se decepcionar com o artigo. Porém, não comentar um pouco mais de um seriado tão especial seria um belo desperdício.

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Pianola

A pianola é uma invenção do final do século XIX. Muito popularizada em saloons do Oeste ainda selvagem dos Estados Unidos em períodos pós-Guerra Civil, começo do século XX. A pianola é um piano automático, uma das primeiras invenções criadas para facilitar o prazer humano, eliminando a necessidade de um terceiro – o pianista, para ouvir música.

O instrumento é reforçado e enfatizado por inúmeras vezes no seriado – está presente até nos créditos iniciais, então é um tanto necessário interpretar seu significado imagético na obra. A associação entre a pianola e os robôs é clara, afinal, de certo modo, possuem os mesmos princípios para seu funcionamento.

Enquanto inconscientes de sua natureza, os robôs se comportam exatamente como a pianola. É Jonathan Nolan quem oferece o fio da meada para os outros diretores. Após o primeiro dia de narrativa, uma nova sequência é aberta com a pianola iniciando seu funcionamento. É muito legal notar que é um instrumento coerente com a época diegética da narrativa metalinguística de Westworld, mas que possui toque contemporâneos coerentes com o universo futurista extra-parque.

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No seriado, o mecanismo da partitura é interpretado por uma espécie de leitor óptico. No mecanismo original, a leitura é feita por buracos no papel da partitura. É simples, está a plena vista e reforça ainda mais que a pianola representa os robôs de Westworld, pois ambos são aparelhos tecnológicos, mas restritos a um espaço anacrônico e de futilidade. Detalhe que a pianola toca diversas músicas anacrônicas também como House of the Rising Sun Back to Black.

Quando Nolan e outros diretores iniciam a sequência justamente com a pianola lendo a partitura, somos levados para mais um dia de narrativa. Os robôs se comportam justamente como o instrumento: seguem o script, o roteiro pré-definido moldado por uma narrativa com diversas ramificações.

Não é por mero acaso que Maeve, no sétimo episódio, após ganhar seu boost em “autopercepção”, fecha a tampa, de modo violento, da pianola. A partir disso, ela ganha completo domínio para ser mestre de seu próprio destino. Ela não seguirá mais o roteiro e, portanto, ela cala justamente o instrumento que segue o script – no mesmo episódio, há uma escalada de violência da androide para fixar sua liberdade.

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Figurino

As cores do figurino dos personagens do seriado simbolizam intrinsicamente que eles são de verdade. Vou me restringir a apenas cinco personagens. Começaremos por Robert Ford, interpretado magistralmente por Anthony Hopkins.

Ford tem um estilo muito peculiar, pois é totalmente anacrônico ao seu tempo. Suas vestes entram em contraste direto com outros personagens da administração de Westworld como Theresa, Charlotte ou Elsie. Ford se veste como um magnata da expansão ferroviária do velho oeste – um pioneiro de seu próprio tempo. Ele é um homem, em essência, fissurado pela própria criação, um deus, o senhor de seu tempo – o relógio de bolso está presente muitas vezes na constituição de seu figurino de terninhos e coletes levemente ornamentados.

Clementine e Maeve são figuras “gêmeas” e muito distintas. Compartilham do mesmo ofício social, porém uma se veste de azul e outra de púrpura. Se há algo que aprendemos quando estudamos semiótica e arte, é justamente que essas escolhas nunca são ao mero acaso. Que dirá em um núcleo tão importante como o das cortesãs.

Vejamos Maeve, portanto, a robô insurgente e astuta que veste cores púrpuras. A cor púrpura é uma das mais antigas já registradas pelo homem e é comumente associada à religião devido a diversos trajes católicos que continham a pigmentação. Como se sabe, qualquer tom avermelhado é extremamente caro e, portanto, muito relacionada com vestes de pessoas que estão em camadas sociais muito elevadas: clero e realeza.

De certa forma, escolher Maeve, uma prostituta, para vestir tal cor é sim uma subversão do conceito nobre que ela carrega. Mas isso é algo presunçoso de julgar como verdade. A cor da vestimenta não está conectada única e exclusivamente com a função social, mas sim como um reflexo intrínseco de sua personalidade, de sua alma.

A citação fala por si: “O simbolismo cristão relaciona a púrpura ao processo espiritual e ao crescimento. Ele significa martírio (…) em estações de penitência (…). Ao mesmo tempo, a arte cristã retrata Jesus com vestimentas púrpura na altura da Paixão, em uma união paradoxal: o mistério da natureza divina e humana combinada com um único ser. Os valores mais altos e sagrados são representados pela púrpura. ”.

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Interessante, não? Não é por menos que Maeve caminha para cumprir exatamente a mesma função libertadora que Jesus Cristo – ou até mesmo Moisés, teve para um povo ou humanidade segundo a Bíblia. Maeve é sim uma libertadora e buscará seu martírio, provavelmente, ao decorrer das próximas temporadas quando conseguir o contato com sua filha – pela primeira vez, a robô sai de sua narrativa ao tomar essa decisão crucial.

“A cor púrpura é uma mistura das cores primárias vermelha e azul. (…) muito do seu significado tem origem no fato de juntar opostos. (…) pode representar o vermelho da paixão equilibrado pelo azul da razão, ou o real pelo ideal, ou o amor pela sabedoria (…). ”. Se a cor púrpura for mesmo tão interligada com a função narrativa de Maeve como imagino que seja, o futuro do seriado reserva um papel enorme para a personagem tomada pelo ódio agora. Enquanto crescimento narrativo, é bem plausível que Maeve cresça a esse ponto de figura conciliadora, embora seja um corpo tomado por desejos extremos.

E o azul vestido por Clementine? Novamente, uma simbologia de subversão (ou não) do sagrado reaparece. Enquanto Maeve tem o papel majoritário no arco da libertação, Clementine possui papel mais passivo, mas de vital importância para o crescimento da personagem.

Clementine por si quase é uma figura superficial e sem graça. Encanta pela beleza, mas até certo ponto, não tinha motivação clara ou backstory decente. Porém, a personagem tem o diálogo primordial pouco antes de encontrar seu fim. Ela trabalha por um ideal: ajudar a família monetariamente. “O azul está ligado à eternidade, ao além, ao espiritual e mental em contraste com o emocional e o físico. (…) quando ele surge linguagem cotidiana, o simbolismo é menos claro, mas muitas vezes aponta para o especial, elevado e valorizado. (…) Ao mesmo tempo, o azul transmite melancolia e isolamento. (…) pode ser visto como um meio caminho entre o desespero preto e o branco da esperança e da clareza. ”. Nota-se que muito dessa citação também serve para representar o espírito de Dolores antes da chegada de William.

E é impressionante como a função narrativa de Maeve consegue conversar com praticamente todas as simbologias ligadas ao azul. Mesmo sem ter consciência, ela é parte vital para o caminho da elevação de outra personagem que foge da margem da ignorância. Ela também é o ideal puro de altruísmo e sacrifício, ignorando os horrores terrenos que se submete diariamente enquanto sua realidade é de tristeza e isolamento. Aliás, o destino da personagem é justamente o confinamento completo na escuridão.

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Da simplicidade, se cria objetos narrativos tão poderosos quanto a dupla de prostitutas. Conforme estudei um pouco mais dessas simbologias, é impossível se livrar da catarse provocada por um trabalho tão minucioso a ponto de se pensar de modo complexo até a mais simples das personagens.

Se o trabalho com essas duas personagens é significativamente tão complexo, imagine com William e o Homem de Preto. Pela montagem graciosa, o espectador mal consegue perceber que os dois personagens se tratam da mesma pessoa em períodos diferentes. Um é o completo oposto do outro, é uma transformação muito bem construída ao longo da temporada conseguindo tornar uma das figuras mais detestáveis e fascinantes da série em um personagem com potencial de tirar empatia.

O Homem de Preto, obviamente, se veste todo de preto, inclusive seu chapéu. A figura magérrima de Ed Harris confere todo o espectro sinistro que ele possui – um simulacro da morte. “O preto envolve e engole (…), é a representação de autoridade, obscenidade, decomposição (…) da paciência e capacidade de esperar, alcançadas pelo indivíduo amadurecido. ”.

O Homem de Preto é completa antítese do homem que ele já foi, William. É sim um homem paciente (até mesmo em seu passado) que está em plena decomposição moral e ética, uma sombra dos valores que ele já havia defendido.

Já William geralmente usa tons brancos ou beges, o contraste mais óbvio com o preto – que, inclusive, é vestido por seu cunhado insano, Logan, um dos responsáveis pela transformação do personagem. “O branco evoca paisagens imaculadas e monótonas. (…) uma cor de novidade, começo e abrigo. (…). No outro extremo, o branco conota doença e desencarnação, falta de vigor ou coragem. ”. Um retrato fidelíssimo ao de William.

O curioso é que o personagem usa vestes de cores castanhas, refletindo um lado sombrio suprimido por seu intelecto, coberto pelo chapéu branco que em alguns episódios é abandonado até assumir o chapéu preto. O castanho é justamente a cor associada com o outono, também de função de conectar o indivíduo junto com o grupo. Simboliza a transformação que na verdade era sempre foi a verdadeira natureza de William: ele é só mais um perverso entre os demais visitantes. Uma transição inteligente para mostrar as verdadeiras cores do personagem.

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Nudez e pássaros

Sempre que os anfitriões são recolhidos para ajustes e manutenção, o processo demanda que eles estejam completamente nus. De modo inteligente, Nolan explica o porquê dessa escolha tão vital para os funcionários da Delos. Na sociedade ocidental e na própria história do ocidente, nós nunca vimos a nudez como regra, mas sim como exceção. Muitas vezes ela é associada a culturas e estágios rudimentares de civilização.

Em geral, a nudez possui diversos significados, desde eróticos, religiosos, sociais e artísticos. Não é considerada tabu por mero acaso. Mas em Westworld se trata de outra simbologia. Sua função é evitar a humanização dos robôs, removendo quaisquer sinais de empatia com terceiros – embora alimente perversões que remetam à necrofilia e estupro.

Uma das cenas mais icônicas da série é quando um funcionário leva uma tremenda bronca de Ford. Segue a cena:

Nolan basicamente explica a razão de todos eles estarem nus. Não são humanos, simplesmente, não sentem a menos que sejam ordenados. Portanto, para que tratá-los como pessoas se são meros produtos?

Porém com Maeve há outro significado, em seu primeiro despertar:

A cena basicamente é uma ótima simbologia para um nascimento. Mas no caso, renascimento. Felix, um “açougueiro” de reparos, finalmente cria vida pela primeira vez. E Maeve também se liberta da Carverna de Platão nessa mesma cena. Viemos ao mundo nus e a personagem acorda para o mundo real do mesmo modo. O pássaro vem como um instrumento para injetar potência na força simbológica desta cena.

Os pássaros quebram uma das ordens naturais do mundo terreno. Eles podem voar, desafiando uma das principais leis da física. Eles também refletem um dos sonhos mais antigos do homem: voar.

Se livrar dos ordenamentos terrestres e quebrar regras é a tradução máxima de liberdade. Por isso são figuras tão romanceadas em diversas mitologias. “Os pássaros formam um elo entre céu e terra, entre consciente e inconsciente e é quase universalmente considerado um símbolo da alma. (…) os pássaros são animais de sangue quente, o que lhes permite sobreviver em todas as estações do ano. ”. “No nosso desejo de liberdade ilimitada, identificamo-nos com o voo dos pássaros. Na nossa imaginação, transcendemos o mundo dos comuns abandonando a terra e o peso do corpo. ”.

Ou como disse Platão: “A função da asa é levar aquilo que é pesado elevando-o à região acima, onde habitam os deuses”.

Novamente, vemos outra simbologia poderosíssima com Maeve por conta da encenação brilhante. Naquele momento, é o pontapé inicial de seu livramento da narrativa, ela deixa de ser prisioneira dos “deuses” e se coloca como igual ou superior em seu trato com os humanos. Ela transcende suas limitações, se prontifica para viver em outra sociedade, ela adquire, batalha, por sua alma.

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Deserto

Essa simbologia vem da obra original do excelente autor Michael Crichton que foi mantida na adaptação televisiva. Todo o cenário desta narrativa de revolução, libertação e existencialismo tem uma razão de ser justamente no “deserto montanhoso”,  que simula o velho oeste.

“Como paisagem psíquica, o deserto exemplifica, prolongados períodos de alienação, sede espiritual, desorientação, esgotamento, bem como mortificação, redenção e iniciação. (…) o deserto era um espaço de exílio, tentação e espera para a promessa. (…) mas se é um lugar de provação, também é de encontro – com anjos ou com demônios e abismos. ”.

Isso dialoga com diversos westerns e com a própria história sangrenta da conquista do Oeste dos Estados Unidos. Porém, com Westworld, é impressionante o tanto que o discurso da narrativa consegue abraçar essas simbologias de modo muito coeso com as mensagens que nos transmite. Os trechos falam por si sós, seria redundância pontuar algo tão evidente e intrínseco ao universo do seriado.

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Espelhamentos e “rimas” visuais

A coesão interna do discurso de Westword é sem a menor dúvida de extrema competência. Os diferentes diálogos conversam entre si, temos pistas e diversos pontos premonitórios de episódios de conclusão. É mais um ponto divertido do roteiro e da criatividade de Nolan do que algo de enorme potencial simbólico.

São muitos exemplos que buscam similaridades de encenação ou contrastes narrativos. A mais afetada por essa técnica certamente é o arco de Dolores em sua conquista da consciência através da superação de sua narrativa de Romeu & Julieta tonificada em violência.

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Repare na semelhança entre o aparato que “colore” os robôs com todo o desenho do labirinto. Destaque para a figura em seu centro.

Labirinto

E para fechar o artigo, nada mais importante do que comentar sobre o labirinto. Mesmo que Nolan também exponha e explore com alguns diálogos elaborados a própria simbologia de seu propósito narrativo, vale a pena comentar um pouquinho mais sobre essa peça.

O que é brilhante neste universo do seriado é que o labirinto tem seu conceito revertido. A recompensa não está concentrada na libertação de seu espaço, mas sim ao adentrar de modo mais profundo possível, ganhando assim, o prêmio: a consciência.

 “O encontro do labirinto é considerado pelos gnósticos como um símbolo de iniciação. Em seu percurso haveria um centro espiritual oculto, uma dissipação de trevas pela luz e o renascimento pessoal. Nesse sentido, a superação seria encontro da verdade ou opus. ” “Para os esotéricos, o labirinto significa o nascimento e a morte, tendo como seu maior significado a purificação para o sagrado.”

Novamente, a representação do labirinto conversa diretamente com a narrativa da série. Ao dominar o trajeto do labirinto, após tantas tentativas, Dolores conquista sua iniciação da consciência, seu nascimento e sua jornada para o divino – aqui dito como o mundo dos humanos.

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Esse é um dos planos mais carregados de simbologia de toda a série. A cruz praticamente declara o plano de Ford em implodir seu império. Lembrando que Ford sempre proclama que não é do tipo sentimental. Um ótimo foreshadowing.

Não é somente pela força das simbologias que Westworld é esse fenômeno todo. A conjunção de maestria das diversas áreas aliadas ao rigor temático conquistou o interesse do público. Aliás, com certeza existem muito mais simbologias que não couberam no texto nesse momento.

Westworld merece ser celebrado, pois traduz os conceitos mais complexos de modos simples, democráticos. Nolan e companhia entendem que a arte deve ser compartilhada, fugindo dos conceitos elitistas de diversos outros artistas que permeiam as diversas camadas desse mercado.

Bravo, Westworld. Bravo, HBO. Bravo, Jonathan Nolan.

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