Não são apenas os fãs do gênero de terror que estão familiarizados com os nomes de EdLorraine Warren. O casal, que ganhou reconhecimento mundial na década de 1970 por resolverem inúmeros casos sobrenaturais – incluindo as famosas aparições de Amityville e Enfield -, realizavam suas “ações benéficas” com o puro gosto de livrarem o mundo em que vivemos de espíritos malignos, apesar de terem um retorno financeiro altíssimo com a publicação nove livros e inúmeras palestras.

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O nome do duo talvez tenha sido ainda mais imortalizado com a adaptação de suas histórias para os cinemas através das competentes mãos de James Wan, o qual idealizou a franquia Invocação do MalAnnabelle, todas derivadas de assombrosas narrativas envolvendo possessões, bonecas demoníacas e uma constante busca pelo mal original. Os filmes, protagonizados por Vera Farmiga Patrick Wilson, arrecadaram mais de 1,5 bilhão de dólares, e não entraram apenas para a lista dos longas-metragens mais bem-sucedidos da indústria hollywoodiana, mas tornaram-se memoráveis pelo retrato humanizado de seus protagonizados.

Mas até onde essa perspectiva dialoga com os verdadeiros acontecimentos?

Sabe-se que os filmes, adquiridos pelos estúdios Warner Bros., são baseado sim em fatos reais, ainda que nem todos acreditem piamente nas terríveis sequências além-vida que lidam com assuntos muito maiores aos que estamos acostumados. Entretanto, um recente artigo publicado pelo site The Hollywood Reporter pode ter refutado essa licença poética adquirida pela companhia – e garantimos que o buraco do poço é muito mais fundo do que se possa imaginar.

De acordo com a matéria, publicada primeiramente no dia 06 de dezembro de 2017 e repostada uma semana mais tarde, a felicidade do casal, transparecida com uma clareza inenarrável no filme, pode ser apenas mais uma máscara. Afinal, ao que tudo indica, o indestrutível amor entre Ed e Lorraine, reafirmado diversas vezes durante a narrativa principal, possuía um elemento a mais que permaneceu escondido por vários anos antes de finalmente insurgir como uma reviravolta: Judith Penney.

Aos 15 anos de idade, em meados da década de 1960, Penney era apenas uma jovem adolescente cuja vida mudou drasticamente ao conhecer o patriarca da família Warren, que, à época, trabalhava como motorista do ônibus da escola local de Monroe, Connecticut. E foi desse modo como os dois se conheceram e desenvolveram um “relacionamento amoroso” que levou Ed a convidá-la para morar com ele e com a esposa. Em uma declaração oficial feita em novembro de 2014, Penney falou abertamente que passou os próximos quarenta anos mantendo relações sexuais com ele e com a clara ciência de Lorraine. Inicialmente, a garota permaneceu num quarto à frente dos aposentos ocupados pelo casal, mas logo depois foi transferida para um pequeno apartamento acima da casa principal. “Uma noite ele dormia lá embaixo”, ela disse. “E outra, lá em cima”.

Ainda que sem uma declaração oficial, os estúdios Warner declararam não saber nada sobre isso. Ed faleceu em 2006, e Lorraine, que já enfrentava outras acusações juntamente a Gerald Brittle acerca da divisão dos lucros da franquia cinematográfica e dos direitos autorais não concedidos à companhia, está em meados de seus noventa anos, tornando-se incapaz de responder à emergência das notícias. Entretanto, documentos oficiais resgatados pelo THR mostram claramente que o acordo feito entre ela e a New Line Cinema, produtora dos filmes, foi bem mais sórdido que o imaginado.

Penney também ajudou a manter a reputação dos Warren como demonologistas, principalmente nos casos locais que ajudaram na disseminação de suas habilidades. Afinal, Ed era um estudioso do sobrenatural, enquanto Lorraine firmava-se como uma poderosa médium. Entretanto, a garota também poderia representar sua queda, visto que fazia parte de um passado e presente obscuros: dessa forma, a matriarca fechou um acordo com a produtora para manter o reconhecimento de Penney às escondidas, impedindo que qualquer apologia à pornografia infantil, prostituição, estupro e pedofilia manchasse o nome do marido.

Mesmo em 1963, ano oficial em que a jovem se mudou para a casa da dupla, o relacionamento entre um maior de idade e um menor era proibido – e os Warren quase foram expostos publicamente várias vezes. No mesmo ano, a garota foi presa após alguém reportar sobre o ocorrido para a polícia local. Ela passou a noite na delegacia e o detetive encarregado do caso tentou persuadi-la a assinar uma declaração admitindo o caso, mas Penney recusou-se a cooperar e foi reportada para uma instituição de delinquência juvenil no mês seguinte.

Em maio de 1978, beirando os trinta anos de idade, a jovem mulher acabou engravidando de Ed. Ainda no documento de 2014, Penney acrescentou que Lorraine conseguiu manipulá-la para abortar a criança, simplesmente porque a vinda do bebê iria arruinar toda a carreira que estavam construindo. Ela também disse que, apesar das devoções católicas e de sua fervura religiosa, os Warren prezavam pelo dinheiro muito mais que qualquer coisa – inclusive abandonando-a logo depois do procedimento em casa para continuar o trabalho. “Eles queriam que eu dissesse para todo mundo que alguém havia entrado em meu apartamento e me estuprado, e eu não faria isso. Eu estava muito assustada. Não sabia o que fazer, mas aborto. Naquela noite, eles me buscaram no hospital, me deixaram em casa sozinha e foram realizar uma palestra”. Mesmo assim, Ed constantemente afirmava que Penney era “o amor” da vida dele.

E isso não era tudo: Lorraine também sofria abuso doméstico nas mãos do marido. Logo após o lançamento do primeiro filme de Invocação do Mal, o produtor Tony DeRosa-Grund enviou um e-mail aos executivos tanto da Warner quanto da New Line avisando que a história estava muito longa da verdadeira. Também iniciando um confronto jurídico após ser demitido sem justa causa das sequências e dos spin-offs da franquia, ele declarou que estava “horrorizado com o retrato nem um pouco realista entre Ed e Lorraine Warren”. “Ed era um pedófilo, um predador sexual e um marido abusivo”, ele escreveu. “Lorraine permitiu que Ed fizesse isso, mesmo sabendo que era ilegal, e que continuasse por quarenta anos. Eles mentiram em público”.

A história pode ser uma mudança irreversível para nossa visão em relação ao casal Warren. Afinal, pelo que percebemos com todas as produções, sua química e sua paixão eram como uma fortaleza que inclusive os permitia seguir em frente perante os mais difíceis obstáculos. Agora, parece que a história tem uma lacuna, uma brecha obscura perscrutada com mentiras e atos horrendos.