Os Interesses Financeiros de Hollywood

Desde a sua mítica origem, Hollywood sempre esteve interessada no retorno financeiro dos seus filmes. Levando em conta o fato de que foi e continua sendo uma indústria poderosíssima, faz sentido que assim o seja. No entanto, como os padrões estéticos entre as décadas de 1930 e 1970 eram altos, para que as pessoas saíssem de casa e fossem aos cinemas, havia a necessidade dos estúdios apresentarem obras de qualidade. Para isso, apesar de trabalharem com gêneros e algumas concepções artísticas prévias, os produtores da época recorriam à roteiristas e diretores que conseguiam imprimir o seu estilo e talento até nos projetos mais banais e aparentemente impossíveis de serem melhorados.

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Infelizmente, da década de 1980 até os dias de hoje, em simultaneidade com a queda vertiginosa dos valores objetivos de avaliação estética (muito em decorrência das revoluções comportamentais que assolaram o Ocidente), a indústria buscou se adaptar às baixas exigências da contemporaneidade. Mas, ainda assim, nos anos 80 e 90, persistiu em existir nos filmes um pouco de personalidade, um pouco de autenticidade. Foi só a partir da metade da década 00 e do sucesso indiscutível de fórmulas como as dos filmes de ação e super-heróis que Hollywood iniciou um processo devastador de uniformização, em que profissionais sem muito talento se apagavam ainda mais ao recriar incessantemente o padrão responsável pela criação de inúmeras obras genéricas e em tudo similares.

Power Rangers 1995 x Power Rangers 2017

Dois filmes que exemplificam perfeitamente esse declínio são as adaptações feitas para os cinemas da série de televisão Power Rangers. A primeira delas foi lançada em 1995, a outra, há quase uma semana. Ambas contam histórias parecidas. Obviamente, existem distinções nas tramas (os vilões principais são diferentes e, na primeira versão, além de ter a presença do ranger branco, os responsáveis pelo projeto se beneficiaram do fato de que a história de origem dos personagens já tinha sido contada na primeira temporada da série), porém, em linhas gerais, os dois filmes narram tramas parecidas.

Mas, técnica e visualmente, eles não poderiam ser mais diferentes. O filme de 1995, feito com um orçamento muito menor e numa época em que os efeitos especiais e digitais não tinham a mesma excelência vista nos dias de hoje, era, ao contrário do filme deste ano, interessante e genuíno. Contrariando a lógica dos espetáculos visuais e sonoros empregada por Hollywood atualmente, essa diferença de qualidade entre as duas produções é vital para nos mostrar como, do ponto de vista artístico, por mais precárias que possam parecer, obras com personalidade tendem a ser mais bem-sucedidas.

Embora as adaptações da série de televisão e do primeiro filme já tenham solapados elementos característicos da produção japonesa original, ainda assim, os realizadores souberam manter componentes técnicos e particulares que transformaram a versão norte americana num produto estranhamente original.  Coisas como a centralização dos personagens principais num plano americano enquanto morfavam falando e olhando diretamente para a câmera, o belíssimo emprego do plano contra-plongée para mostrar as cambalhotas no ar dos Rangers e os gestos corporais feitos como uma espécie de rito preparatório antes de uma batalha são alguns dos elementos técnicos que davam à série e ao filme um frescor de originalidade e estranheza.

O longa atual, por sua vez, ao abandonar todas essas características – talvez por um medo infundado de soar saudosista ou parecer uma cópia – e tentar se inserir num mercado tomado por filmes de super-heróis e produções milionárias como a franquia Transformers (aliás, até há uma referência ao personagem Bumblebee), se despiu de todas as características que poderiam torná-lo um oásis no deserto contemporâneo da criatividade e adotou a totalidade das convenções modernas: as lutas são filmadas em câmera lenta, a montagem abusa dos cortes frenéticos e confusos para dar mais urgência à narrativa e o clímax da história investe nas batalhas, explosões e destruições em massa anestesiantes tão comuns aos blockbusters de hoje.

Já no que se refere ao visual, o filme de 1995 também não tinha medo de abraçar o seu aspecto infantil. Até mesmo a precariedade dos efeitos eram usados na criação de uma atmosfera mais descompromissada, não temendo em nenhum momento o deliberadamente ridículo e risível. O humor também era um outro elemento que rodeava a narrativa em sua totalidade, não se restringindo apenas a instantes determinados. Isso sem falar na fotografia ensolarada, as paisagens naturalmente exuberantes e a paleta de cores repleta de tons fortes e chamativos, que iam desde os uniformes dos Rangers até às vestimentas e maquiagens dos vilões, passando pela composição dos sets e a presença de objetos de cena.

O novo filme, por seu turno, negligencia toda essa lógica visual e conceitual. Indo na onda das produções modernas, o longa, perceptivelmente, se importa em demasia com a qualidade dos seus efeitos, sem perceber que falhas nesse departamento poderiam trazer uma prazerosa sensação de nostalgia. Já o humor se reduz à piadas e gags inseridas inoportunamente no meio de batalhas e situações perigosas, repetindo uma característica irritante e típica das produções atuais. E, por fim, a fotografia ensolarada dá lugar à iluminação escura e pouco contrastada, as paisagens naturais cedem espaço aos ambiente recriados através de CGI e as cores fortes e chamativas são substituídas por tons cinzentos e enegrecidos.

O fim da criatividade em Hollywood

Se essa diferença de autenticidade se restringisse apenas às duas versões de Power Rangers, não estaríamos frente a um problema sério de criatividade dentro da indústria cinematográfica. No entanto, numa época em que tudo o que parece existir são reboots, remakes e sequências, essa tendência de uniformizar, fazendo com que todos os projetos tenham a mesma aparência, pelo jeito, se estenderá pelos próximos anos. Para aqueles que acham que estou exagerando, sugiro o seguinte exercício: assista aos filmes de ação e de super-heróis lançados nos últimos anos e pergunte a si mesmo se há alguma diferença fundamental entre eles. A resposta, sem sombra de dúvidas, será negativa. E não deixa de ser lamentável que obras com potencial para se destacar, como o último exemplar dos Power Rangers, tenham se acovardado sobremaneira, preferindo trilhar o caminho conhecido ao invés da estrada menos percorrida.

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