Esse ano, dediquei boa parte do meu tempo livre para ler uma das maiores séries da literatura de ficção cientifica, Duna, do Frank Herbert, que possui 20 títulos no total (6 livros principais e 14 escritos pelo Brian Herbert, filho do falecido autor). Aqui, comentarei um pouco sobre os três primeiros livros: Duna, O Messias de Duna e Os Filhos de Duna, que são os que li até o momento e fecham o arco de Paul Atreides. Eles já estão disponíveis em uma nova edição da editora Aleph, caso não tenha lido, já adianto que são muito bons e que garanta suas cópias.

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Duna (1965)

Duna é com certeza um livro peculiar e tem um dos universos fantásticos mais ricos da literatura de ficção com toda certeza. Na época de seu lançamento muitos consideraram que Duna fez para a ficção científica o que Senhor dos Anéis fez pela fantasia e isso não seria nenhum exagero.

Duna é um dos primeiros livros da nova onda da ficção científica que ocorreu nos anos 1960, que criou o que hoje é conhecido como “soft sci fi”. Ao contrário do hard sci fi (2001, Eu Robô,  Caçador de Androides) que se concentrava em mostrar mundos que evoluíram a partir das ciências exatas, o soft sci fi é mais interessado em como o mundo evoluiu a partir das ciências humanas, sem se preocupar muito com questões tecnológicas e sim, com a filosofia, politica , religião, etc. assim se aproximando mais da fantasia.

A ideia inicial de Duna ocorreu a Frank Herbert quando ele escrevia um artigo sobre como controlar o avanço de dunas no deserto, dito isso, Herbert procura conscientizar as pessoas dos problemas ecológicos por meio de sua ficção, criando o planeta Arrakis.

Arrakis.

“Arrakis – Duna – Planeta Desértico” essas são as palavras com que Herbert inicialmente descreve o planeta Arrakis, também conhecido como Duna, um planeta completamente seco, mas ainda assim, muito importante para todo o universo onde todas as grandes casas e instituições brigam pelo seu controle, tudo isso devido a uma substância que existe somente nesse planeta, a especiaria melange.

Difícil não notar as semelhanças com o mundo real, Duna é uma clara referência ao Oriente Médio e a especiaria seria uma alusão ao petróleo, pois assim como em Duna, em que a civilização dificilmente poderia viver sem a especiaria, por todos seus benefícios geriátricos e por possibilitar viagens interestelares, nós também não podemos viver sem o petróleo, que é uma das principais fontes de energia que temos hoje.

Em Arrakis existe um povo, que logo se tornaria o foco da série, os fremen, que vivem em cavernas e são considerados selvagens, entretanto, quanto mais conhecemos os fremen, vamos percebendo o quão complexa é sua sociedade. Sua economia gira em  torno da  água, sendo o bem mais precioso para eles, e eles fazem de tudo para preservar qualquer umidade que seja, criaram roupas especiais para evitar sua perda, os trajes destiladores. E ainda desenvolveram tecnologias capazes de destilar a água em cada célula de cadáveres, assim cada pessoa contribui para a sobrevivência da tribo em sua morte.

Em Duna existem os gigantes e terríveis vermes de areia, os grandes vermes estão conectados de alguma forma a especiaria, apesar que nesse ponto da série não se sabe ao certo que relação é essa, mas onde há vermes, há especiaria e seus coletores têm sempre que tomar muito cuidado com essas terríveis criaturas quando vão extraí-los, pois eles são capazes de engolir uma fábrica inteira de tão grandes que são.

Os fremen veneram os vermes, um de seus deuses é o grande Shai Hulud, o grande verme. Eles também utilizam os vermes do deserto como montaria. Os fremen são os guerreiros mais formidáveis do universo, superando até mesmo os grandes sardaukar os soldados da guarda imperial. Tal ferocidade é devida às terríveis condições em que eles vivem, que endureceu seus corpos e suas mentes até os limites.

Paul Atreides.

O principal personagem dessa primeira aventura é Paul Atreides, o personagem é complexo e multifacetado sempre sendo retratado de maneiras diferentes em cada um dos livros. A própria origem de Paul em si é interessante, ele é o resultado de uma pequena desobediência de Lady Jessica, sua mãe, uma Bene Gesserit.

As Bene Gesserit ascenderam em sua influência por todo o império após o jihad butleriano, com um evento que ocorreu dez mil anos antes do início de Duna, que levou a destruição e proibição de qualquer maquina pensante, as quais escravizaram a humanidade por um período, essas bene gesserit tem um plano de procriação, elas misturam os genes que lhes são convenientes para colocar a humanidade no caminho que elas querem. Seu principal objetivo com esse programa é fazer surgir o Kwisatz Haderach, um super humano do sexo masculino que poderia “olhar para onde nenhuma bene gesserit seria capaz”.

As bene gesserit possuem diversas habilidades especiais, entre elas o controle absoluto de seu corpo, podendo até mesmo escolher o sexo da criança que vão conceber, a Lady Jessica foi ordenado que ela tivesse somente meninas, mas ela desobedeceu a sua irmandade, pensando que ela mesma poderia ter o Kwisatz Haderach, assim Paul nasceu, no planeta rico em água, com vastos oceanos, Caladan.

Ele tem sido treinado por sua mãe desde sua infância nos modos bene gesserit, é instruído na arte da luta por Gurney Halleck, um dos principais soldados do exercito dos Atreides e tem sido treinado secretamente por Thufir Hawat para se tornar um mentat, um computador humano, que substitui as funções das máquinas após sua proibição, fazendo cálculos complexos em velocidades impressionantes.

Uma conspiração contra a casa Artreides coloca Paul no planeta desértico Arrakis, a antítese do ambiente que ele conhecia até então e sua jornada por lá se assemelha muito com a do famoso Lawrence da Arabia, um estrangeiro que é aceito pela tribo e os lidera contra seu inimigo em comum. Os fremen acreditam que Paul seja o Lisan-al-Gaib que em sua lenda faria com que Arrakis se tornasse um planeta rico em água e os levaria a terra prometida basicamente um messias.

Assim Paul se torna o grande Muad’Dib que logo viria a ser imperador de todo o universo conhecido. A figura do personagem é messiânica. Embora a palavra messias evoque na mente das pessoas a imagem de Jesus Cristo, Herbert baseou seu personagem em diversos outros além do próprio Jesus, como Zoroastro e principalmente Maomé.

Quando Paul se descobre como o Kwisatz Haderach, ele ganha a habilidade de ver eventos que ocorreram no passado, presente e futuro em uma intensidade e facilidade que nenhuma outra pessoa foi capaz no passado, isso cria um dilema para o personagem. Ele sabe que alguns futuros são mutáveis, enquanto outros são inevitáveis ele vê um destino terrível à frente, mas sabe que não pode mudá-lo e isso faz dele melancólico.

Veredito – Um excelente começo.

Daria para escrever um artigo gigante, somente sobre esse primeiro livro da série, de tão rico que é o universo que apresenta, Herbert escreve com tanta propriedade, que o livro pode ser lido de várias maneiras diferentes, explorando cada camada que o autor cuidadosamente coloca em sua escrita, seja na questão ecológica, política, religiosa ou filosófica.

O universo de Duna é habitado por personagens quase tão interessantes como Paul Atreides, o bondoso Duque Leto, a misteriosa Lady Jessica, o animado guerreiro Gurney Halleck,  o dedicado líder do sietch tabr, Stilgar e Alia, a pré nascida, que teria um papel ainda mais importante nas sequências, só para citar alguns personagens.

O Messias de Duna (1969).

Em 1969 é lançada a esperada continuação de Duna, O Messias de Duna, esse livro começa 12 anos após os eventos do primeiro, mostra um Paul Atreides mais velho, já consolidado como Imperador de todo o universo conhecido e agora forças misteriosas conspiram contra ele.

O novo imperador.

Muitos fãs não ficaram satisfeitos com o novo livro, principalmente porque é desconstruída a imagem que tínhamos de Paul Atreides, nesse livro vemos que Paul cometeu diversos atos abomináveis em seus anos como imperador, ele agora segue o ensinamento máximo de Maquiavel, que os fins justificam os meios e acredita que a morte de bilhões que seu jihad causou não é nem de longe o pior destino que poderia ocorrer a humanidade.

No meu ponto de vista, tal abordagem é interessante,  o próprio Frank Herbert tenta explicar o porquê de suas decisões em relação a escrita, um líder mesmo tendo as melhores intenções para com seu povo ainda pode errar, sendo assim o personagem fica ainda mais relacionável.

Claro que nem todos estão felizes com o  imperador e alguns conspiram contra ele. A casa Corrino, as bene gesserit, os bene tleilaxu e a corporação tem se reunido secretamente para tramar contra Paul.

A religião em Duna.

As religiões em Duna evoluíram ao longo desses vinte mil anos em relação às que temos no mundo real, por exemplo, uma das religiões mencionadas é o zen-suni, que é a religião budista combinada com o islamismo basicamente, além disso há a Bíblia laranja, cujo texto é similar com a bíblia que temos com algumas alterações.

Herbert percebe que ao longo da humanidade as religiões vão sendo formadas alicerçadas em outras e, algumas vezes, essas religiões são manipuladas por aqueles que estão no poder para exercer controle sobre a população, isso ocorre várias vezes em Duna, e Paul percebe que a religião é uma parte essencial de seu governo, sua irmã, Alia foi designada a ser a líder religiosa dessa nova fé, ela mesma algumas vezes durante a série usa a religião para seus próprios interesses.

Bene Tleilaxu.

Em O Messias de Duna somos apresentados a uma nova instituição, os bene tleilaxu, até aqui nesse livro não sabemos muito sobre eles, mas algumas coisas sobre eles chamam a atenção. Eles são capazes de criar novos seres a partir de uma carne morta, eles são chamados de gholas (que não por acaso lembra a palavra ghoul, espécie de morto vivo na mitologia árabe), esses seres possuem a memória da pessoa a quem o corpo pertencia, apesar de não o serem. Os tleilaxu dão a Paul como presente um ghola feito com a carne de Duncan Idaho, um velho servo e amigo dos Atreides.

A outra coisa que me chama atenção neles são os dançarinos faciais, a classe assassina dos bene tleilaxu, assim que eles matam uma vítima, podem tomar a sua aparência, assim facilitando futuras infiltrações. Como eles fazem, e até mesmo as regras, são muito parecidas com o que fazem assassinos de outra série literária popular, os homens sem face das Crônicas de Gelo e Fogo de George RR Martin, não me admiraria se ele tivesse se inspirado na saga do Frank Herbert, aliás  essa não é a única semelhança entre Duna e a saga de Westeros, muitos comparam Duna e Game of Thrones com Senhor dos Anéis, mas na verdade, eles têm mais semelhança entre si do que com os livros do Tolkien.

Veredito – Uma leitura mais “pesada”

Messias de Duna não recebeu uma recepção tão boa quanto o primeiro livro por alguns fatores, um deles eu citei anteriormente Paul passa por uma desconstrução que não agradou aos fãs e além disso, muitos dizem que o livro é muito mais “pesado” que seu anterior e isso é verdade.

O primeiro livro tinha um elemento essencial ao que todos estão familiarizados e quando executado bem, temos as melhores histórias possíveis: a clássica jornada do herói. Não que o Messias de Duna não possua uma história ou um arco para suas personagens, mas a posição em que a história se encontra exigiu uma abordagem diferente.

Essa continuação apresenta mais conteúdo filosófico do que o primeiro e isso realmente pesa na história, mas não vejo isso como um demérito tão grande, vejo cada capitulo na saga como um livro diferente, cada um com diferentes abordagens.

Dito isso, O Messias de Duna, apesar de ser inferior ao primeiro, ainda tem seus atrativos. Ele expande o universo, com a excelente adição dos Bene Tleilaxu e dos navegadores da guilda, há a construção do mito do Muad’dib e explora melhor os poderes de Paul e Alia. Aliás, nesse livro, Alia é uma personagem mais interessante do que Paul, ela já tinha chamado minha atenção no livro anterior, agora no segundo ela está em uma situação interessante, ela é uma menina que está se tornando uma mulher e, ao mesmo tempo nasceu sendo algo que transcende as duas definições.

Filhos de Duna (1976)

Mais um livro de Duna e outra vez a história é diferente. A história segue 9 anos após os acontecimentos de O Messias de Duna, Paul foi exilado para o deserto e Alia segue na regência do Império, esperando que os filhos do imperador anterior venham a atingir idade necessária para governar, mas dentro da família surgem conflitos e enquanto isso os Corrino mais uma vez conspiram contra os Atreides…

A Herança de Duna.

No primeiro livro fomos apresentados a esse mundo desértico, que apesar  de sua escassez de água, é o único planeta que possui outro elemento essencial para a raça humana, a especiaria melange. Agora até mesmo a produção de especiaria está ameaçada, por uma coisa paradoxal: a reversão da desertificação do planeta e o restabelecimento da água, eventos que outrora eram tão almejados pelos fremen.

Este livro tem como um de seus temas o conflito entre o velho e o novo, Duna já não é mais como antes, nem mesmo os fremen permanecem iguais, com a repentina abundancia de recursos em seu planeta, a nova geração tornou-se mais relaxada, não sendo mais os valentes guerreiros quase invencíveis que costumavam ser na era do deserto.

O conflito central deste livro é que, devido ao descontrolado surgimento de água no planeta, a melange pode desaparecer, pois os vermes e as trutas de areia, criaturas ligada a produção da substancia são envenenados pelo liquido. Os novos protagonistas, Leto II e Ghanima Atreides, filhos de Paul trabalham para que isso não ocorra.

A possessão.

O livro apresenta um novo conceito dos perigos de se usar os poderes dos pré nascidos, Alia despertou ainda no ventre da mãe, enquanto ela, já viciada na especiaria, passou pelo ritual para se tornar uma reverenda madre, que transfere toda a memória e conhecimento das reverendas anteriores, para a nova eleita, Alia estando no ventre de sua mãe recebeu também as informações e ainda o acesso às memorias de seus ancestrais a partir do DNA.

Algumas dessas personalidades são benignas, outras brigam pelo controle da mente e do corpo do pré nascido, em Filhos de Duna, Alia está atormentada pelas vozes de seus ancestrais, se deixando possuir, se tornando literalmente uma aberração. A personalidade que a possui é o barão Vladimir Harkonnen, que finalmente vê a sua oportunidade de se vingar dos Atreides.

Veredito – Os ventos da mudança.

Apesar de eu não ter desgostado desse livro, esse é o que mais tenho problemas, alguns personagens estão um pouco diferentes e a extensão dos poderes de alguns personagens é um tanto exagerada (em minha opinião), entretanto o livro abre caminho para uma nova fase em Duna de uma maneira interessante.

Paul Atreides volta nesse livro em uma nova encarnação, agora ele é o pregador, que se ergue contra o corrupto governo de Alia e as mudanças que pouco a pouco dominam as tribos dos fremen. É interessante perceber que em cada capitulo, Paul volta diferente de alguma forma.

O fim do livro promete e eu mal posso esperar para ler os próximos.