Gangues de Nova York (2002)

Dirigido por Martin Scorsese

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Quando se trata de Martin Scorsese e alguém vem (tentar) mencionar seus filmes mais fracos, a resposta quase unânime para muitos é Gangues de Nova York, seu ambicioso e brutal drama de época sobre o nascer e criação da cidade de Nova York e as gangues étnicas que a formavam.

Mas porque o filme possui tal reação tão negativa por muitos de seus fãs e no público geral? Seria por sua extrema violência? Mas o mesmo se perpetua por quase todos os filmes de Scorsese. Seria seu retrato histórico revestido por um racismo e xenofobia escrutáveis e banalizadores dentro e fora do filme? Retratar um período histórico e acompanhar personagens sim preconceituosos e repugnantes não torna o filme de caráter racista.

Talvez seja pela abordagem quase alucinógena e dopada que Scorsese toma frente em sua direção, usando a montagem de sua antiga colega Thelma Schomaker de forma quase “picotada”; onde cada corte parece ser uma visão de ótica diferente da última ou uma facada de sentidos na perspectiva do público, nos fazendo quase se perder ou até se sentir mal assistindo o desenrolar da jornada de vingança supostamente ultrapassada e clichê de Amsterdam, personagem de Leo DiCaprio contra o monstruoso Bill the Butcher de Daniel Day Lewis dentro de uma Nova York em plena época da guerra civil prestes a implodir em caos e violência!

“Você vê essa faca? Eu vou ensinar você a falar inglês com essa faca!”

É sim um retrato histórico, bem fidedigno diga-se de passagem, que o bom roteiro do trio Jay Cocks, Steve Zaillian e Kenneth Lonergan, se propõe a dar do caos social e político da cidade de Nova York (e da própria América), e seu meio social étnico nascendo das cinzas da violência. Que Scorsese molda e dirige tudo como uma verdadeira ópera do caos e morte, condensada numa jornada de vingança de um jovem, ao mesmo tempo em que é uma história de seu amadurecimento, e da própria cidade!

Onde tudo é conduzido como se o caos que se instala no desenrolar da trama tomasse conta do próprio ritmo do filme em sua montagem quase picotada e alucinógena. Com o sentimento de antecipação de algo em grande, como uma violência em massa e o caos estão prestes a se instalar, sempre à espreita a todo o tempo.

Com seus personagens possuindo mais camadas do que aparentam a primeira vista, tanto desprezíveis como honradas, e nenhum escapa do julgamento de Deus que Scorsese instala de forma sutil mas altamente reativa! Onde o diretor ao mesmo tempo realiza uma devida prequela de toda a base de sua filmografia do urbano violento novaiorquino que ele explorou em seus grandes clássicos como Caminhos Perigosos, Taxi Driver e Depois de Horas. E aqui, como em seu também excelente e subestimado Época da Inocência, desmembra suas origens histórias e sócio-políticas de forma realista e fiel.

“Quando você mata um rei, você não o apunhala no escuro. Você o mata onde toda a corte possa vê-lo morrer.”

Até encontrando um perfeito espaço para seus monólogos descritivos e seu humor negro em vários momentos, sem nunca destoar do drama central que é o brutal embate entre Biil de Daniel Day Lewis e Amsterdan de DiCaprio, que toma um tratamento bem Shakesperano com a história de vingança, amor e respeito entre dois homens se desenrolam no palco de uma cidade desunida pelo ódio e a pobreza está prestes a implodir em violência, e a história e a ficção se tornam uma só no final!

Com seu diretor, como sempre, criando tudo com um esmero técnico e visual criando um verdadeiro drama de época, mas com a escala de um digno épico cinematográfico sendo feito em nosso pleno cinema moderno com todo o seu louvor! E em níveis de atuações aqui o show pertence claro a Daniel Day Lewis, seu ódio racial revestido de uma honra patriótica que quase o tornam um personagem no melhor estio Rastros de Ódio de John Ford, mas que consegue ter um brilho de honra e pureza debaixo de sua vilania, que o tornam facilmente um dos melhores e mais complexos personagens que Scorsese já teve em seus filmes.

“A Terra gira, mas não a sentimos mais. E uma noite você olha para cima; uma faísca e todo o céu está em chamas.”

Mas que ainda se encontra dentro de um rico elenco com breves, mas ótimas, presenças de: Liam Neeson, John C. Reilly, Brendan Gleeson, Jim Broadbent, e Cameron Diaz; esta última recebendo o tratamento Scorseseriano e sua estupenda direção de atores e mostra a ótima atriz que ela pode ser!  Mas DiCaprio também merecia melhor reconhecimento por seu papel aqui. Não uma de suas melhores performances obviamente, mas um dos seus primeiros papéis onde ele teve a chance de mostrar o quão versátil e maduro como ator ele podia ser. Spielberg já tinha o mostrado em Prenda-me se for Capaz e Scorsese o faz aqui em seu primeiro de outros excelentes filmes juntos. 

E sim, Gangues de Nova York pode ter mesmo suas pequenas falhas de ritmo quebrado, mas que tem uma balança que pesa fortes qualidades em cima o bastante para fazer este um dos mais peculiares e especiais trabalhos que Martin Scorsese já fez e o fez com total esmero do excelente diretor que é. Que não faz só uma mera translação de seus filmes de crime para um filme de época, e sim cria um retrato histórico bem fiel sem perder por um momento sua rica essência cinematográfica!

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