Silêncio (2016)

Dirigido por Martin Scorsese

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Filmes cobiçados e desejados por um diretor conseguem ser muitas vezes os pontos mais altos de suas carreiras ou, até mesmo, derrapadas violentas das mesmas. E, discutivelmente, mas claramente, Silêncio talvez por definição se trate mesmo do mais ambicioso e cobiçado filme da carreira de Martin Scorsese até hoje. Scorsese sendo o católico fervoroso que é e o amante nato de cinema, é a perfeita força que permite o velho diretor aqui de construir aqui sua obra com um cuidado, um carinho, uma atenção minimalista à cada pequeno detalhe que compõe o espírito e estrutura desse filme que talvez mostre Scorsese fazendo o “cinema de verdade”. 

Enquanto Lobo de Wall Street, seu último filme, era uma jornada pelo mundo das finanças e os crimes lavados cometidos pelo seu desprezível protagonista, empacotado em uma energia pirada elevada à níveis de insanidade com um humor negro afiadíssimo que com certeza desagradou aos mais conservadores e fez um sucesso com o público, Silêncio é o absoluto inverso do mesmo e talvez de tudo que Scorsese seja prioritariamente conhecido em seus filmes.

Também se trata aqui de uma jornada, mas uma jornada de um homem aparentemente santo, rumo ao fundo do sofrimento físico e psicológico pela sua fé. E Scorsese não poupa na dor, não poupa no sofrimento e não poupa nas fortes emoções que seu filme promete transportar e sugar de seu público. Muitos vão sair desagradados, frustrados e abatidos, assim como o Rodrigo de Andrew Garfield em seu final. 

“Mas todos sabem que uma árvore que floresce em um tipo de terra pode decair e morrer em outra. É o mesmo com a árvore do cristianismo. As folhas se deterioram aqui. Os brotos morrem.”

Esse é o terceiro filme no qual Scorsese lida com a religião e a fé, pelo menos o de forma aberta e clara. Enquanto Kundun mostrava o poder da união e da fé frente à violência do mundo e A Última Tentação de Cristo era a humanização da figura santificada do Cristo Jesus. Agora, Silêncio se trata a jornada de um homem rumo à sobrevivência de sua fé, com este se colocando numa própria jornada Via Crucis pessoal, como o próprio Cristo, em ordem de manter sua fé sempre viva e forte, mas ao mesmo tempo em que começa a, constantemente, questioná-la. Como se o próprio Scorsese se questionasse e indagasse conosco o público essas dúvidas. 

Dúvidas e indagações que tomam formas de uma espécie de auto-santificação do homem, uma maneira talvez covarde e arrogante de se auto colocar no mesmo nível de sofrimento de Cristo. Um religioso falho, auto-indulgente, mas um ser humano acima de tudo, e mesmo aos não religiosos embarcarem e sentirem a dor da tortura psicológica que seu protagonista sofre quando sua fé é posta a prova. A fé de um homem sendo torturada por uma cultura supostamente superior, o berço da sabedoria humana, com o budismo que busca a auto-superação do homem, um lugar onde religiosos frívolos que rezam para um suposto “silêncio” não tem lugar ou decência. 

Poderia isso ser um retrato tão atual de como muitos hoje vêem a religião e a fé? Como caminhos de loucura e insanidade que deixam o homem cego em um mundo físico onde ele reza para o silêncio que o nunca responde. Numa realidade atual, onde cristãos ainda são perseguidos em lugares como Síria, Egito e Paquistão, Scorsese em sua fiel adaptação de sua obra literária sagrada, faz um retrato tão atual e relevante sobre como a fé ainda é perseguida. Ignorantes vão dizer que isso é um embelezamento dos cristãos contra os selvagens e pagãos asiáticos com certeza. O retrato histórico aqui presente é apenas fidedigno. E os questionamentos levantados que ressoam nessa jornada é que se ressoam tão atuais. 

“Sinto-me tão tentado. Sinto-me tão tentado a desesperar. Estou com medo. O peso do seu silêncio é terrível. Eu rezo, mas estou perdido. Ou apenas rezo para o nada? Nada. Porque você não está lá.”

O interessante é que Scorsese é parcialmente conhecido pelo seu uso de ‘voice-overs’, que foram empregados de forma humorada, satírica e cínica em vários de seus filmes de máfia entre outros. E aqui, eles também são usados, mas de forma quase espectral em cima da história, como se sim seu protagonista (e o diretor) estivesse se comunicando com nós o seu público, mas tentando talvez escapar daquela realidade em que se encontra e questiona a todo o tempo. Que, a certa altura, quase faz parecer que estamos perante um filme de Ingmar Bergman. Claro que não na mesma maestria de escrita, mas tão profundo e emocionalmente desafiador quanto.

E Scorsese nunca teve um estilo totalmente particular ao meu ver. Seu verdadeiro estilo é trazer, e homenagear sutilmente, grandes técnicas dos diretores que ele reverenciou por toda a sua vida. Os questionamentos religiosos com certeza soam do cinema de Robert Bresson e do já mencionado Bergman. O (RICO) palco asiático e a utilização quase fantasmagórica da fumaça, os cenários gigantescos e quase épicos que realçam a “pequenitude” de seus personagens e a vida própria da natureza vêm direto de seu mestre Akira Kurosawa. Com a aura pesada, sombria e contemplativa dignas de um filme de Andrei Tarkovsky

Certamente Deus ouviu as suas orações enquanto morriam. Mas ele ouviu seus gritos?”

Sem deixar de mencionar os (SOBERBOS) personagens de um cruel, vil e sórdido Issei Ogata; um charmoso e malicioso Tadanobu Asano e o pobre pecador cheio de arrependimentos, como todos nós, de um EXCELENTE Yôsuke Kubozuka, todos personagens parecido tirados de um filme do Kurosawa. Com o jovem Andrew Garfield em seu centro servindo como a personificação da pureza da fé, da dor e sofrimento da mesma. Dor e angústia que, graças a nada menos que extraordinária direção de seu diretor, se torna a dor e angústia do público. 

E sim, esse não é o típico filme de Martin Scorsese. Talvez há anos, talvez não até agora, o diretor não entrega um filme com uma profundidade emocional engajante tão profunda como aqui. Que te instiga a pensar, que te tortura emocionalmente e psicologicamente, que te puxa pelas vestes e expele as dúvidas que assolam até mesmo os sem fé sobre o mundo em que vivemos e o silêncio angustiante que nos rodeia. Mas há quem diga que Deus se comunica conosco no absoluto silêncio, assim como Scorsese se comunica com o seu público com pura, suja, naturalista, e emocionante poesia cinematográfica. Em um filme clássico, artístico e ao mesmo tempo tão moderno e atual. E inesquecível.