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Lançada em 1986, escrita e desenhada por Frank Miller, esta que é considerada por muitos a melhor história do Homem Morcego – Batman: O Cavaleiro das Trevas, juntamente com a Graphic Novel Watchmen, de Alan Moore, representa um marco de uma nova era nos quadrinhos. Dividida em 4 capítulos, com uma narrativa difícil de se descrever os elogios que lhe cabem, trata-se, sem dúvida, da maior inspiração para o personagem atualmente, inclusive no cinema.

Em 2005 tivemos Batman Begins, de Christopher Nolan protagonizado por Christian Bale. O filme, diferente dos anteriores, apresentava uma proposta mais sombria e realista em cima deste universo buscando humanizar o protagonista. Três anos depois, é lançada a continuação irretocável, The Dark Knight, que elevou essas características a um novo patamar. Não é só no nome que essa última obra é influenciada pela HQ, mas também na profundidade da jornada.

“Enquanto isso, em minhas entranhas, uma criatura rosna e diz do que preciso.”

Bruce Wayne, então com 55 anos de idade, está aposentado há 10 anos de sua vida de vigilante noturno. Já mais maduro, o bilionário se encontra amargurado devido ao seu passado obscuro. Em sua Batcaverna, o uniforme colorido de Jason Todd fica encostado como uma moldura na parede.  O local, inutilizado, coberto de teias de aranhas e poeira, demonstra a falta de cuidado pelo proprietário junto com sua inatividade, e contrasta muito bem com a promessa de se aposentar.

No entanto, no fundo de sua alma, o seu alter-ego luta para se libertar. Através de um roteiro impecável, Miller apresenta uma bela sequência de quadros transmitindo essa guerra interior. A dor da morte de seus pais, a principal razão do almejo de Bruce por Justiça, volta à tona em seus pensamentos, enquanto é humilhado. Interessante notar como o autor associa de maneira clara a impotência infantil de Bruce junto a sua fragilidade adulta. Se ele buscou justiça após a morte de seus pais, por que agora esconder-se depois da morte de Robin?

Enquanto isso, uma ameaça surge na cidade de Gotham. A gangue Mutante comete uma série de atentados de violência e o líder do grupo promete tomar o controle de todo o espaço, representando a oportunidade ideal para Bruce voltar ao trabalho. Duas-Caras aparece de volta à mídia após 12 anos sendo tratado no Asilo Arkham. Aparentemente são, seu médico, Dr Bartholomew Wolper, lhe dá um atestado certificando que Harvey Dent está apto para retornar a sociedade. O Coringa também marca presença, em um caso parecido com o de Dent. Com o retorno do Homem Morcego, o palhaço desperta de sua neurose e começa a tramar mais uma vez. Apesar de ambos terem propósitos e caminhos diferentes dentro da trama, no final de suas participações, demonstram aquilo que realmente são. Loucos. Psicóticos. Monstros.

Os coadjuvantes na trama funcionam perfeitamente bem, não abrindo margem para críticas aqui. James Gordon está mais próximo de sua aposentadoria, porém esta é antecipada devido aos acontecimentos na cidade fazendo com que ele seja demitido do cargo de Comissário de Polícia. Obrigado a carregar todo o peso de culpa ao caos, é substituído pela jovem e comprometida Ellen Yindel. Entrando e já prometendo o que seu antecessor não conseguiu, Ellen em alguns momentos lembra muito o próprio Comissário. Em uma fala, até mesmo Batman admite que a policial remete aos tempos onde tudo começou e Jim o tinha como vilão. O resultado disso é gratificante. Mais desenvolvimento humano para Gordon, além de continuarmos a ter ótimos quadros de perseguição ao protagonista.

Selina Kyle também aparece, porém sem muita relevância, apenas dando motivo à caçada de Bruce ao Coringa. A novidade mais que especial e bem vinda é, sem dúvidas, Carrie Kelley, a primeira Robin feminina das histórias da DC. Após ser salva por Batman de um ataque da gangue Mutante, Carrie, inspirada pelo heroísmo do herói, decide incorporar o uniforme de Robin. Ela é um exemplo perfeito de sidekick: engraçada, carismática e fiel ao seu ‘mentor’. A química entre ambos funciona e o relacionamento é devidamente explorado.

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“Batman é uma ameça à sociedade!”

Diz o Dr. Bartholomew Wolper em mais uma de suas entrevistas. Ao decorrer da história, Miller impressiona-nos com uma reflexão, que soa bastante atual, sobre a sociedade em que vivemos. Entra-se aqui em um assunto mais social e polêmico, discutido sem nenhum temor, demonstrando de forma explícita a ignorância de terceiros. Wolper é um exemplo perfeito dos chamados ‘pensadores’ e ‘intelectuais’. Como já disse anteriormente, no final de cada participação do Coringa e Harvey Dent ambos demonstram aquilo que são e nunca deixaram de ser. E é assim que Miller faz cair por terra a teoria de que a culpa nunca é do agressor, mas, sim, de quem o combate. O terceiro capítulo é um espetáculo. Durante uma entrevista  com o palhaço criminoso, este usa sua aparente simpatia para parecer reeducado. Tudo, no fim, não passava de uma piada. A bomba no teatro matando todos, inclusive seu maior defensor, o Dr. Bartholomew, é a cutucada esperta na ferida, a genialidade da crítica que flerta com o absurdo mas não com o exagero.

Além das questões sociais e éticas discutidas, temos as questões políticas da época. Lembre-se que em 1986 a Guerra Fria ainda era presente e nesta década, a corrida armamentista foi reativada. O pânico de uma guerra nuclear era constante. A ilha de Corto Maltese sofre um estado de rebelião: enquanto os Estados Unidos defendem o governo local, a URSS apoia os rebeldes soviéticos.  É nesse cenário que o Homem de Aço surge. Encarregado de proteger o Ocidente, Superman vai até o pequeno país e elimina qualquer presença soviética no local. Em contrapartida, do oriente é enviado uma ogiva nuclear de destruição em massa.

O míssil se aproxima, as pessoas entram em pânico. Caos.  Superman consegue desviar a arma, fazendo com que seja explodida em um deserto, gerando um pulso eletromagnético que causa um blecaute em todo o continente. A última vez que fiquei tão boquiaberto em um cenário apocalíptico, foi lendo A Guerra dos Mundos, de H.G Wells. Além da visão mostrada nos noticiários, Miller nos coloca dentro da situação, usando o olhar de James Gordon na cena. Batman, usando de sua inteligência, aproveita a situação e une o que sobrou da Gangue Mutante junto com os Filhos do Batman, criando um grupo com o propósito de organizar a cidade. Com isso, Gotham torna-se a cidade mais segura do país. Genial. E é aqui que temos a gota d’água para o confronto mais épico das histórias em quadrinhos. Constrangido com o fato de Gotham estar segura, o presidente dos Estados Unidos decide prender de vez Batman. Superman tenta dialogar com Bruce, sabendo que uma luta entre eles culminaria em morte. Oliver Queen surge em cena, sem um dos braços, dando conselhos ao velho amigo – e pedindo um pedaço de Clark.

Antes de comentar o embate épico, não posso deixar de mencionar a maravilhosa reflexão de Miller a respeito do planeta, a qual complementa o quadro caótico. Uma poesia  com desenhos profundos interpretativos, que não temo em dizer, já valem a HQ inteira. O amor pelo Superman ao nosso planeta, sua tristeza representada através  de uma aparência física decrépita devido o poder da explosão nuclear. As palavras cuidadosamente escolhidas trazem mais um ataque social exposto por Miller: Seres humanos, os peritos em estragar aquilo que não lhes pertence.

O Beco do Crime. Onde Batman nasceu, onde Batman morrerá. Usando suas invenções tecnológicas, Bruce vai de encontro a Clark sem medo algum. Logo no início, a diferença entre ambos é clara. O primeiro, um homem cheio de artifícios para enfrentar o segundo, um deus capaz de carregar tanques de guerra com os próprios braços sem o mínimo esforço. Esse é o ponto. Batman é calculista, inteligente… A força bruta não é capaz de derrotá-lo facilmente, assim a batalha dura por um bom tempo, sem deixar de ser justa. Oliver Queen tira sua casca ao atirar uma flecha de kryptonita no Homem de Aço, dando uma vantagem ótima ao aliado. É aqui o auge do confronto. O monólogo incessante de Bruce é interrompido devido a um ataque cardíaco. Uma cena linda é desenhada, o amor de Clark por seu amigo, aparentemente morto, é presente.

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“O relógio deu meia-noite”

A respeito da arte de Miller, em colaboração com Klaus Janson, o letrista John Costanza e o colorista Lynn Varley, trata-se talvez do ponto mais controverso de minha experiência lendo esta HQ.  Os traços exibidos chegam a parecer rabiscos inacabados, como se não tivesse um certo profissionalismo por parte do autor. Mas é preciso entender: não há problema algum nisso. Para ser mais claro,  tudo não passa de proposta. Somos apresentados a uma cidade completamente auto-destrutiva. As questões políticas, a crescente onda de crime e corrupção alinham-se muito bem com as cores escuras e o visual sujo da HQ. Esse diálogo artístico também se manifesta na briga psicológica interior de Bruce. Possuindo quadros verdadeiramente icônicos, a arte, que foge do convencional, oferece uma versão única do ambiente e de cada personagem.

Novamente, sou obrigado a mencionar outra adaptação cinematográfica: Batman Vs Superman, filme lançado em março deste ano. Quem assistiu a película posteriormente a leitura de The Dark Knight Returns, certamente lembrou-se instantaneamente dos desenhos de Miller nos minutos iniciais. A cena da morte dos Wayne é perfeita em sua fidelidade: as cores escuras no cenário, posicionamento dos personagens em cena, a câmera focada no colar de Martha, a reação de Bruce com os acontecimentos… Miller contribuindo para a 7ª Arte e a mesma retribuindo com um lindo “obrigado”. O Batman do filme de Snyder também tem forte inspiração na HQ: mais bruto, emotivo e violento mas sem perder o estigma de detetive. A luta contra Superman também é alvo de adaptação de Snyder, com alguns enquadramentos idênticos aos traços de Miller.

Com uma arte simbólica, uma escrita ácida genial e extremamente relevante que exibe uma forte crítica social e não tem medo de se aprofundar em questões ousadas e em seus personagens e suas trajetórias, a HQ perpetuará eternamente como um clássico. Além de revolucionar os quadrinhos, dando início a uma nova era, teve indiscutível importância no recente aflorar do Universo DC nos cinemas. No final, a característica mais marcante do Cavaleiro das Trevas prevalece: o preparo. E desta vez, com roteiro e sem roteirismo.

“Anos… pra treinar, estudar e planejar… Aqui, na interminável caverna, longe dos despojos de um justiceiro cujo tempo já passou. Aqui tem início… um exército… pra trazer sentido ao mundo infectado por algo pior do que ladrões e assassinos. Vai ser uma boa vida. Boa mesmo. “

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