Muita gente acampou ou chegou por volta das 4 horas da manhã no São Paulo Expo para entrar no último dia de Comic Con Experience. Como a Disney havia dado um belo show no encerramento de sábado, a expectativa para ver como a Warner responderia em seu aguardado painel eram tremendas. Porém, o que se viu pode ser considerado um tanto decepcionante.

O choque de um deus

A abertura do painel foi dedicada inteiramente a Kong: A Ilha da Caveira e para a entrevista com Jordan Vogt-Roberts, diretor do filme. Vimos novamente o segundo trailer já disponível ao público e então foi iniciada a entrevista. Importante lembrar que Roberts é um diretor que entra no movimento dos estúdios recrutarem novos talentos de filmes indie, já os encaixando em blockbuster milionários: assim como foi com Trevorrow, Gareth Edwards e Duncan Jones.

“Queríamos fazer deste Kong, o maior de todos. Trabalhamos com o setor de efeitos visuais para que conseguíssemos criar uma criatura tão imponente que obrigaria o espectador olhar e compreender sua escala de tamanho a ponto de enganar a si mesmo para acreditar que Kong se trata de um deus, assim como creem os nativos da ilha. ”, começou Vogt-Roberts.

Já sobre o destaque que a narrativa possui a respeito da Ilha da Caveira, Roberts revelou que a produção do filme levou esse aspecto muito à sério. “Nós queríamos criar um bioma vivo e diversificado. Tanto que vocês verão diversos tipos de terreno e habitats na Ilha. Uma das ordens principais era a gravação em locações reais. Nós gravamos no Vietnã, Havaí e Austrália para conferir o look do lugar, uma mistura que deu muito certo aliás. Como o filme se passa pós-guerra do Vietnã, nos anos 1970, conseguimos simular e dar nossa identidade para o visual já fixado no imaginário popular com Platoon e Apocalypse Now.”, continuou.

Tentando revelar muito pouco do que era perguntado por Thiago Romariz, Roberts justificou que, com seu filme, queria emplacar novamente aquela sensação do desconhecido que permeava os lançamentos antes da popularização da internet. “Sobre Kong e os personagens, eu queria relacioná-los de forma mais complexa. Vocês vão ver que diversos dos protagonistas estão tentando se encontrar no mundo, assim como Kong que nessa versão é um macaco mais jovem. Ele é muito parecido comigo. É uma criança estúpida, mas com a personalidade de um velho ranzinza. ”, disse, arrancando risadas do público.

“Kong é um indivíduo mal compreendido. Ele é o último de sua espécie então tentei elaborar trechos de sua relação com os humanos baseado em Shadow of the Colossus. Algo que fosse tão belo e fúnebre ao mesmo tempo de atmosfera pessimista. Eu sou um gamer, aliás. Se fosse dividir minha personalidade seria 50% filmes, 50% games e 50% animes. Essa matemática não faz o menor sentido, mas afirma a minha preocupação em pegar influências de diversas artes para encaixar nessa obra. Aliás, eu tenho muita vontade de dirigir um jogo no futuro. “, continuou.

Roberts também afirmou categoricamente que não está fazendo um remake dos filmes anteriores de Kong, mas sim de uma visão bastante distinta sobre o macaco. Ele disse que ainda se trata de um filme de monstros e, portanto, teremos diversas criaturas no filme. Poucas são pacíficas, muitas são agressivas. Poucas lutam com Kong, muitas estarão no caminho dos humanos. Quando questionado sobre a possibilidade do crossover entre Godzilla e King Kong, Roberts disse que não há nada mais épico que isso e que não poderia dar mais detalhes sobre. “Fazer filmes é um enorme processo de saber firmar concessões. Mesmo com as vontades do estúdio, eu consegui emplacar a minha identidade sobre esse personagem. Espero muito que gostem. ”, e assim Roberts finalizou sua participação no painel.

Eu sou o Batman

Dando sequência ao painel, tivemos um vídeo divertido com o dublador nacional e o dublador original, Will Arnet, que emprestam suas vozes ao personagem Batman em Lego Batman que estreará em fevereiro do ano que vem, no qual discutiam sobre quem era o verdadeiro Lego Batman. Esse foi o único vídeo exclusivo do filme para a CCXP. Depois vimos o seguinte trailer:

Muitos recados, nada exclusivo

Logo depois, todo o conteúdo exclusivo estrangeiro acabou. Tivemos recados diversos de David Sandberg, Eddie Redmayne, Guy Ritchie, Gal Gadot, Zack e Deborah Snyder comunicando que gostariam de ter participado do evento, mas que não foi possível por conta de trabalhos diversos.

Então, o público viu alguns trailers em sequência que já estavam disponíveis para o público geral como o teaser de Annabelle 2 e os trailers de Rei Arthur: A Lenda da Espada, Mulher-Maravilha e Liga da Justiça:

 

O rei das manhãs

Tivemos então a presença do montador e agora diretor, Daniel Rezende no palco para conversar sobre Bingo: O Rei das Manhãs seu filme que ficcionaliza a vida do ator Arlindo Barreto, célebre interprete do palhaço Bozo. Vladimir Brichta, ator protagonista, também estava presente.

“Eu queria muito falar sobre os bastidores da televisão dos anos 1980, pois era algo absolutamente surreal. Era tudo muito bonito diante das câmeras, mas atrás dos cenários, muitas coisas eram resolvidas com gambiarras impressionantes. Porém o filme é mais do que uma história de bastidores. Eu tentei contar a história desse ator vivido por Brichta que só queria encontrar seu lugar sob o holofote, dinheiro e fama. Porém, após uma vida de dificuldades, quando finalmente encontra a oportunidade ideal, ele não pode revelar sua identidade real por conta do contrato fechado com a emissora. Então mesmo muito famoso por seu papel como apresentador do programa infantil Bingo, o cara ainda é um completo desconhecido e sofre com essa dualidade. Também quisemos dar outra profundidade a respeito da história desse homem com seu filho que acaba incrédulo pelo pouco relacionamento com o pai devido o trabalho que consome todo seu tempo. É uma história pessoal que mexe com esses paradoxos a todo instante, afinal ele é um palhaço que brinca com diversas crianças, menos com o filho. ”, contou Daniel Rezende.

“De todos os diretores com quem já trabalhei, sem merecer o trabalho de outros colegas, afirmo que Rezende é um dos mais detalhistas e atenciosos com todas as áreas de produção do filme, especialmente com os atores. ”, disse Brichta que foi indicado por Wagner Moura para o papel, já que o mesmo estava ocupado com as gravações de Narcos, impossibilitando sua participação no longa.

Rezende disse que consumiu muito dos produtos televisivos dos anos 1980 como os programas da Xuxa e Gretchen, além da vontade enorme de dirigir um Opala. Ao fazer o filme, queria imprimir todo o exagero e falta de senso ao ridículo que dominava a televisão naquela época. “Dirigir sempre é escolher o projeto certo. Como tive a oportunidade de trabalhar com muitos mestres como Malick, Meirelles, Salles e Padilha, aprendi lições valiosas. A maior delas certamente é escutar a equipe para criar esse incrível filme que possui diversas dicas do elenco e produção para ser o que será. ”, finalizou o diretor. Bingo, O Rei das Manhãs estreia somente em agosto do ano que vem.

Fechando em pouco estilo

Para finalizar o painel da Warner, tivemos o bate papo com Brian Azzarello e Yanick Paquette sobre os 75 anos da Mulher-Maravilha. Não houve uma exposição de algum conteúdo exclusivo e, estranhamente, os dois entrevistados, roteirista e desenhista dos quadrinhos da fase Novos 52, não estavam com a menor vontade de estar ali.

Apesar dos esforços de Marcelo Hessel em conduzir bem a entrevista com perguntas interessantes, Azzarello se limitava a dar respostas monossilábicas ao jornalista expondo pouco ou nada para o público. Já com Paquette, as perguntas sem carga ideológica, rapidamente se transformavam em algo enviesado. Por exemplo: Hessel perguntou sobre os vilões clássicos e seus desenvolvimentos conforme o quadrinho evoluiu ao decorrer dos anos. Azzarello não respondeu e Paquette já lembro que a heroína não luta contra vilões, mas sim contra valores e paradigmas machistas, afinal a Mulher-Maravilha é o símbolo máximo do feminismo. Paquette também expos que era feminista, tirando aplausos dos poucos que ainda estavam acordados ou ainda atentos ao painel.

Também não falaram muito sobre o seriado clássico e o seriado animado da personagem. Paquette tentava se justificar que não via nada disso, pois não eram obras dubladas em francês no Canadá. Também disse que sempre tenta colocar os valores progressistas do Canadá em suas obras.

O clima horroroso ressoava em todo o auditório. A entrevista simplesmente não rendeu e então Hessel tentou fazer perguntas um pouco mais ideológicas para ver se agradava os entrevistados e mesmo assim continuou recebendo respostas cada vez mais curtas.

E essa foi a conclusão do painel da Warner que começou muito bem com a interessante entrevista de Roberts para então acabar com o terrível “entusiasmo” da dupla dos quadrinhos, justo na seção que poderia ter sido a melhor do dia. O problema mais evidente foi a falta de conteúdo exclusivo, apresentando apenas vídeos que boa parte do público já havia visto.

 

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