LADO B

por Leandro T. Konjedic

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Christian Bale não é o Batman

Escolha equivocada de cast, assim como a escrita que o guia. Batman não é e nunca foi um personagem melodramático e confuso. Trata-se de um homem torturado, frio, calculista, quase estoico liderado por sua raiva e desejo de querer fazer justiça, além de se configurar no posto do melhor detetive do mundo e ser uma das mentes mais estrategicamente brilhantes da humanidade e perito em diversas áreas científicas. Infelizmente, quase não vemos esses elementos no Batman de Bale, em prol de uma suposta “humanização” do herói. E não digo que a atuação do ator inglês foi ruim, muito pelo contrário, estamos falando de uma ótima performance, mas no filme errado.

Coadjuvantes de luxo

Problema recorrente nos filmes do diretor, Nolan limita seus coadjuvantes a personagens que se salvam graças aos atores mas são quase unidimensionais em essência. Em “O Cavaleiro das Trevas” essa situação é suavizada, mas em Begins, por exemplo, Alfred só aconselha o protagonista de forma repetitiva, Lucius Fox consegue os apetrechos, Rachel, igualmente repetitiva, é a dama em perigo da vez e os vilões estão lá com algum plano malvado. Em Ressurge, a Mulher-Gato é praticamente um fan service – mal feito – que tem sua ambiguidade moral pouco explorada e mal resolvida.

Gotham City

Não há Gotham City aqui, apenas a cidade de Chicago ou Nova York. Não só limitando a questões estéticas mas aos próprios cidadãos que pouco são vistos mostrando suas posições a respeito de seu vigilante ou permanecem ausentes em pontos chave da história. Tudo bem, Coringa envolve vários dos cidadãos em seus jogos maquinados em “Cavaleiro das Trevas” mas onde estão eles em “Begins” e na batalha final de “Ressurge“, por exemplo? Um ponto que exercia uma função de personagem nos quadrinhos, aqui é entregue de forma mecânica e sem inspiração para casar com o realismo. Apenas compare com a belíssima Gotham City expressionista e gótica de Tim Burton, essa sim, um personagem com personalidade.

Muitos plot points

Já parou para pensar quantos temas ou plot points são introduzidos em “O Cavaleiro das Trevas“? Temos os vigilantes fantasiados, o Espantalho, a máfia de Maroni, o Coringa, o triângulo amoroso entre Bruce, Rachel e Harvey, a jornada de Gordon, os policiais corruptos, a virada de Harvey para o outro lado, a mídia, a paranóia nos cidadãos de Gotham, a invasão da festa, o advogado chantagista de Bruce… agora me responda sinceramente, você lembra de todos esses pontos serem resolvidos de forma satisfatória e crível ou foram simplesmente esquecidos (os vigilantes, a invasão da festa e o advogado) ou mal costurados e forçados (a transformação de Harvey, sem estabelecimento prévio de distúrbio mental como nos quadrinhos, que, por ter perdido a amada, resolve matar pessoas de sua lista negra, não importando idade ou sexo, não tendo pudor nem com crianças)? A própria premissa de “Begins” – só o treinamento e a rivalidade com as ações de Ra’s poderia render um filme inteiro – também é inchada e tem de recorrer ao artifício barato de conectar os 3 principais vilões da trama no mesmo plano, e com o assassinato dos pais de Bruce, referido pelo personagem de Liam Neeson no terceiro ato. Em “Ressurge“, esse problema não é tão grave devido a uma trama mais direta e fechada, tendo como um de seus calcanhares de Aquiles, a falta de habilidade de Nolan para com elipses.

Realismo

Escolha estética característica das obras de Nolan mas inadequada para uma adaptação de um herói de quadrinhos. Traindo o objetivo das próprias páginas, que sempre foi o de retratar uma realidade aumentada – algo que Zack Snyder, Bryan Singer, Sam Raimi e, até recentemente, Jon Watts, entenderam, em tons diferentes – o diretor tira todo o charme e potencial de identidade de sua adaptação, com direito a vilões engravatados em “Batman Begins” e tendo de explicar tudo em detalhes, desde a motivação do protagonista até toda a concepção de seu uniforme e apetrechos militarizados. O problema é que não há como fugir de certas exigências da fonte, o que cria um enorme ruído entre tom e determinados pontos da história, como um plano vilanesco que envolve a eficiência de uma substância química nas águas de Gotham por evaporação – que teria de contar com a certeza de que qualquer cidadão normal de Gotham não iria ferver a água em casa durante uma preparação de refeição ou tomar simples banho quente – ou o fato do Coringa se infiltrar em qualquer lugar, implantar suas bombas onde der na telha – hospital, barcas – ou sobreviver a qualquer ofensiva – note que é o único restante após a explosão da delegacia.

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