Um dos maiores diretores da história do cinema, o iraniano Abbas Kiarostami faleceu no dia 24 de Julho de 2016, aos 76 anos. Vítima de um câncer diagnosticado tardiamente, ele dedicou os últimos meses de vida à realização do seu longa derradeiro. Intitulado 24 Frames, o filme teve uma estreia de gala no Festival de Cannes e, após passar por outros festivais, entrou na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste ano. Ahmad Kiarostami, o filho do cineasta, foi quem esteve no Brasil para divulgar a produção. O site Bastidores teve a a honra de entrevistá-lo e o conteúdo da conversa pode ser conferida abaixo:

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Como surgiu a ideia de 24 Frames?

O meu pai começou a fazer o filme em 2011. A primeira ideia que lhe veio à cabeça tinha a ver com pinturas. Aliás, o frame inicial é de um quadro. O que o interessava era imaginar os elementos que o artista tinha decidido deixar de fora e o que podia ter acontecido antes e depois da cena ilustrada pelo pintor. Como uma pintura pode mudar e a diferença entre o que você vê e a realidade foram as coisas que o moveram.

Como o projeto se desenvolveu?

No início, ele trabalhou com algumas pinturas, mas, depois, mudou para as suas próprias fotografias. Esse projeto foi desenvolvido por cinco anos. Foram produzidos quarenta frames. Destes, ele não gostou de uns dez, os quais decidiu não colocar no filme. Assim, lhe restaram trinte frames. Eventualmente, acabaram sendo usados vinte e quatro. Quando ele faleceu, o longa estava quase pronto, com as exceções de alguns aspectos técnicos e o desenho de som. Ele escolheu as canções, mas fomos nós – eu e uma equipe – que finalizamos a produção. Eu moro em San Francisco e trabalhei com pessoas que moram em Toronto, no Teerã e na França. Levou cinco meses e foi uma colaboração internacional (risos). Ficou pronto antes do Festival de Cannes e foi o primeiro filme experimental exibido no palácio principal.

Assistindo ao frame final do filme, me pareceu que a presença da última cena de Os Melhores Anos de Nossas Vidas e a canção “Love Never Dies”, de Andrew Lloyd Webber, eram um adeus do seu pai à vida e ao cinema. A intenção era justamente essa?

Eu sei que muitas pessoas gostam de pensar assim e acho que pode ser uma despedida do cinema ou de várias coisas. Porém, quando o meu pai foi ao hospital, ele estava muito saudável. Ele tinha um problema pequeno, com o qual poderia viver por muito tempo. A cirurgia não era necessária, mas disseram que, se ele a fizesse, melhoraria. Supostamente, era para ser um procedimento simples. Algo como cinco ou seis dias de recuperação. Ele até viajaria para a China na semana seguinte. Além disso, o filme já estava quase finalizado. Portanto, não acho que tenha sido uma despedida consciente da vida. Mas é uma cena belíssima. Em verdade, tudo contribuiu para a realização de 24 Frames. Sinto que a obra é um pináculo de sua carreira, pois reúne tudo o que ele fazia: fotografia, cinema, poesia, instalações de arte.

 

Como se iniciou a sua relação com o cinema? Foi uma “imposição” do seu pai ou algo que surgiu naturalmente?

Definitivamente, começou com ele. Quando eu tinha três anos de idade, o meu pai foi laureado por um festival iraniano e lhe chamaram de “Querido Abbas Kiarostami”. Por causa disso, eu o chamava assim também. O nome completo (risos). A minha relação com o cinema foi difícil porque a minha relação com ele, enquanto eu crescia, também era difícil, assim como todas as relações entre pais e filhos. Trabalhei com cinema durante muito tempo, mas, depois, decidi fazer coisas completamente diferentes, como ciências da computação. O meu trabalho principal é com computadores. No entanto, paralelamente, eu tiro fotos, faço vídeos musicais e dirigi curtas-metragens. Depois que ele faleceu, esse projeto tinha de ser finalizado. Então, eu aceitei a responsabilidade. 

Existia uma relação muito especial entre o seu pai e Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Era uma questão de honra exibir 24 Frames na Mostra?

Ele amava São Paulo. Eu vim para cá com ele em 2005. Como eu me mudei para os Estados Unidos no começo de 2001, eu só conseguia vê-lo em festivais de cinema, pois eram épocas em que ele ficava livre, o que nunca acontecia quando estava em casa, uma vez que sempre tinha algo a fazer. Ele sempre elogiava muito a cidade. Quando cheguei aqui, descobri o porquê. Já fui em muito festivais, mas o daqui é o meu favorito. Quando ele faleceu, tive de participar de muitos eventos. Dei oito voltas no mundo em quatro meses.  Viajei bastante, mas um dos festivas do qual eu quis muito participar era a Mostra de São Paulo. 

Além dos trabalhos já mencionados, você foi o co-fundador de uma plataforma digital que providenciava ferramentas tecnológicas para fotógrafos. Atualmente, quais são os seus projetos?

Eu tenho uma filha de sete anos de idade. Quando ela tinha três, eu comecei a estudar sobre o sistema educacional na América, o qual é muito, muito ruim. Eles começam a ensinar ciências para as crianças apenas na quarta série, não antes disso! Essa empresa que você mencionou foi vendida em 2015. Portanto, eu estava à procura de um próximo projeto, pensando no que deveria fazer. Atualmente, eu tenho uma empresa que ensina ciências para crianças da escola fundamental. Além disso, estou finalizando uma sequência de fotos tiradas por meu pai e inaugurei a Fundação Abbas Kiarostami, a qual foi foi importante nas negociações entre uma produtora francesa e outra iraniana pelos direitos autorais dos filmes. Agora, eles estão sendo restaurados. No ano que vem, serão todos lançados e com legendas em inglês e francês. Isso me deixa muito feliz. 

O seu pai pôs o cinema iraniano no cenário. Hoje em dia, é um dos melhores da atualidade. Como você os filmes feitos no país atualmente?

Eu vivo longe do Irã há alguns anos. Não sei muito dos detalhes. Pude conferir apenas algumas das obras atuais, mas uma coisa que está se tornando clara pra mim é que, depois que o meu pai ficou internacionalmente famoso, muitos filmes lançados posteriormente eram parecidos com os seus. Tinham o mesmo estilo. É por isso que hoje em dia fico muito feliz ao ver o surgimento de cineastas que têm um estilo próprio, como Asghar Farhadi. Antes, os filmes eram similares. Agora, temos diferentes tipos de cinema. Isso é ótimo.