Muito provavelmente, o público geral conhece o cineasta francês Laurent Cantet apenas pelo filme Entre os Muros da Escola, lançado em 2008. No entanto, ele já dirigiu oito longas-metragens e tem uma carreira internacional de sucesso, sendo sempre elogiado ou lareado com prêmios nos principais festivais do mundo. A sua mais nova produção se chama A Trama e esteve presente na programação da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em razão disso, ele veio ao Brasil para apresentar a obra e conversar com jornalistas. O site Bastidores pôde sentar ao seu lado e falar um pouco sobre o filme. O conteúdo da entrevista está logo abaixo: 

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O que o motivou a realizar A Trama? A ideia nasceu naturalmente ou a partir da constatação de um estado de coisas?

Eu tive a ideia depois do atentado no escritório do Charlie Hebdo. O meu desejo era saber como um jovem de vinte anos de idade pode viver em um mundo como o de hoje, onde há muita violência, e ver como os extremistas de qualquer lado político podem influenciar a juventude. Posteriormente, pensei em um filme que comecei a escrever vinte anos atras, o qual era baseado em uma história verídica e falava sobre um workshop de escritores em uma cidade francesa. Nessa época, o dispositivo de as pessoas estarem juntas para confrontarem os seus pensamentos já era algo que me interessava.

Assistindo aos filmes Entre os Muros da Escola A Trama percebe-se que essa dinâmica de grupos lhe interessa muito. Você acha que isso é uma via efetiva para a compreensão e aceitação de pessoas e culturas distintas?

Sim, é por isso que considero A Trama o meu filme mais otimista, porque procura uma solução. No final, todos os personagens saem transformados da experiência, inclusive a Olivia (a professora interpretada por Marina Foïs), que não só transmite conhecimento, mas também interage. Há um intercâmbio entre ela e os outros. 

A crise dos refugiados e o drama dos imigrantes talvez sejam os assuntos mais importantes da atualidade. Aliás, muitos filmes na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo abordaram esses temas, mas A Trama, de todos aos quais pude assistir, foi o único que buscou olhar para essa questão não da perspectiva do imigrante, mas da do europeu que pode reagir negativamente a essa situação. O objetivo era exatamente esse?

O que interessa é a confrontação de comunidades, as diferenças entre elas. Isso endurece cada vez mais por causa dos atentados e a crise econômica. Na Europa, os árabes são automaticamente ligados a isso, as pessoas os consideram imediatamente jihadistas. Em suma, eles são estigmatizados. Assim, as dificuldades de comunicação aumentam muito.

O filme não me parece ser assertivo sobre a origem da raiva que o protagonista sente. A impressão é que o personagem busca nos discursos extremistas algo que legitime a sua violência. Essa impressão é válida ou a intenção foi outra?

Eu desejei mostrar como os extremistas podem seduzir facilmente os jovens, uma vez que eles usam, em seus discursos, a violência característica da juventude e o desespero. Quando o protagonista está sozinho e sem saber aonde ir, a extrema-direita lhe propõe uma solução mágica. O personagem também poderia ser um jihadista ou seguido a extrema-esquerda – embora esta não seja tão sedutora atualmente. O fato é que esses tipos de movimentos criam uma perspectiva para as pessoas.

Uma das principais características de A Trama é a sua humanidade de sentar, tentar entender o que passa na cabeça das pessoas e ajudá-las. Atualmente, os filmes políticos sempre enxergam o outro lado de uma maneira simplista. O seu longa é uma resposta a isso?

Eu dou uma oportunidade para o protagonista e não tento julgá-lo. Me deparo com esses jovens todos os dias e isso faz com que sinta ainda mais a minha impotência, pois não tenho como ajudá-los. Outra coisa que faço é ver o olhar que os adultos têm sobre os jovens. Antoine (o protagonista) não sabe aonde vai e isso é inerente à idade em que se encontra. Nós, adultos, queremos ser ouvidos, como se nós tivéssemos a razão e a juventude devesse seguir aquilo que achamos correto ou parecer conosco. No entanto, o mundo, os instrumentos que temos para olhá-lo e a maneira de pensar mudaram muito. Não quero julgar essas coisas, desejo saber apenas como podemos viver com isso. A mesma coisa vale para as imagens de videogame que aparecem no filme. Para Antoine, por exemplo, isso é importante para o seu imaginário. Por isso, não quero considerá-las bobas. Elas estão aí e precisamos compreendê-las.

 

 

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