Com uma retrospectiva parcial da carreira e tendo recebido o Prêmio Leon Cakoff na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São PauloPaul Vecchiali esteve na cidade para ser laureado por sua carreira versátil, célebre e repleta de filmes memoráveis. Surpreendentemente disposto para um senhor de 87 anos, ele conversou com muitos veículos de imprensa. O site Bastidores foi um deles. Na conversa, foram abordados assuntos como crítica cinematográfica, história do cinema, filmes atuais, novas tecnologias etc.

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Os críticos de cinema vivem em uma época na qual a escrita está perdendo espaço no debate cinematográfico. Atualmente, há muitos vídeos e podcasts fazendo esse trabalho. Além disso, os textos estão versando muito sobre conteúdo e pouco sobre técnica. Há uma relação entre isso e a decadência da crítica escrita?

Na França, principalmente, quando se lê uma crítica, não dá para saber se é de um filme, uma pintura ou um romance. Há um tempo, inventei o termo “escrita fílmica”. Sinto que esse conceito ainda não é plenamente compreendido. Aliás, poucas pessoas o entendem. Muitas costumam me perguntar do que se trata. (Neste momento, Vecchiali posiciona alguns objetos que estavam à mesa para explicar a essência do famoso termo). Cinema é isto: a junção das ferramentas cinematográficas para contar uma história. Os objetos na mesa são os planos. Estes são muito bonitos, mas feitos de maneira heterogênea. Há uma continuidade, como se fosse um rio. Eis uma metáfora ilustrativa: a montanha é a preparação de um filme. É dela que o rio começa até chegar ao mar, que é o espectador. O que as pessoas não entendem é que o rio não pode ser homogêneo, ele tem muitas coisas diferentes. Quanto mais vigoroso, mais coisas existem nele. A maioria dos cineastas querem entregar um filme homogêneo, mas a vida não é assim. É por isso que faço obras heterogêneas. 

Uma das principais críticas que o senhor escreveu é a de Corrida Sem Fimdo Monte Hellman. No texto, há o seguinte trecho: “Filme sem a menor propaganda, filme de pura informação, Corrida Sem Fim me parece o mais perfeito exemplo daquilo que deveria ser o filme político” (tradução de Bruno Andrade, da Revista Foco). Hoje em dia, muitos filmes fazem questão de ter uma postura política e ideológica. Como o senhor enxerga essa situação?

Não gosto dos filmes que têm uma militância política. São os filmes que têm compromisso político que me agradam. As obras do Monte Hellman se encaixam nessa segunda categoria. Já as obras de Costa-Gravas, as quais considero horríveis, estão no primeiro caso. Isso não quer dizer que ele não tenha talento. A verdade é que a linha que separa o cinema militante do politicamente engajado não é tênue. Inclusive, é muito visível. Os filmes militantes mostram um lado apenas. Os politicamente engajados, por sua vez, partem de um problema específico e apresentam ao espectador todos os elementos da situação, para que ele possa pensar. O público inteligente e perspicaz consegue captar qual é a posição do diretor. No entanto, essa posição não está imposta. O meu filme La Machine, por exemplo, cuja história é sobre a pena de morte, é o exemplo de um obra politicamente engajada. Eu sou uma pessoa engajada, em todos os aspectos: política, estética e moralmente. 

Partindo das perspectivas da “escrita fílmica” e dessa diferença entre cinema militante e politicamente engajado, o que o senhor acha dos filmes realizados atualmente?

Os filmes feitos atualmente se afastam muito da “escrita fílmica” e do cinema politicamente engajado. Eu adoro cinema. Até hoje, vejo três filmes por dia. É extremamente raro que saia contente dessas sessões. Às vezes, digo que as pessoas que fizerem alguns desses filmes não têm relação alguma com o cinema. Para ser mais específico, quando você vai assistir a uma obra, ocorre uma sensação e isso tem a ver com o espetáculo cinematográfico. Se você quer pensar sobre o que viu, é preciso ver mais de uma vez. Não tenho vergonha de admitir que alguns filmes me geraram um enorme prazer, apesar de serem muito ruins. Eu reivindico um pouco do meu mau gosto (risos), pois não quero negar o meu prazer. Agora, falando sobre qualidade, quando vemos os filmes de Robert Bresson, sofremos, mas isso é cinema de verdade.  Porém, todas essas coisas não querem dizer que eu esteja correto. É apenas a minha opinião.

O que senhor acha das novas tecnologias, como as câmeras digitais, as câmeras dos celulares, as plataformas de streaming etc? Elas estão ocasionando uma decadência do cinema ou ele continuará forte?

O cinema é imortal. Atualmente, há uma série de pegadinhas ameaçando-o, mas a estrutura do cinema permanecerá forte. No entanto, depois de trabalhar muitos anos com a película, passei a filmar apenas com câmeras digitais. Em Noites Brancas no Píertrabalhei até com um celular. Os resultados nunca me desagradaram.

O amor do senhor pelo cinema francês da década de 1930 já foi devidamente documentado no livro L’Encinéclopédie : Cinéastes français des années 1930 et leur œuvre. Após tantos anos e movimentos cinematográficos, ainda temos muito a aprender com cineastas como Jean Grémillon, Marcel Pagnol, René Clement e outros?

Jean Grémillon é o máximo. Já o Marcel Pagnol nunca foi um diretor de cinema. Fez ótimos filmes, mas não foi um cineasta de verdade. Inclusive, eu detestava a maioria dos seus longas, embora ache Angéle uma obra-prima. A força do textos e dos atores é muito grande. Em oposição, há o supracitado Robert Bresson, cujos filmes contêm a “escrita fílmica” perfeitamente. Max Öphuls Grémillon são o mesmo caso. Inclusive, estou fazendo um filme sobre este último. Julien Duvivier fez filmes horríveis, mas quando acertava, saíam obras muito poderosas. Nomes como esses ainda têm muito a ensinar.

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