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13 Reasons Why mostrou-se uma série problemática desde a época de sua pré-produção – e um dos grandes motivos foi a sua “boa intenção”. Para aqueles acostumados a adotarem ditados populares ao mais comum dos cotidianos, sabemos que de boas intenções, o Inferno está cheio. E levando em consideração que o romance assinado por Jay Asher em 2007 tornou-se uma importante obra para compreendermos as consequências do constante bullying, quebrando tabus endossados pelo conservadorismo excessivo de nossa sociedade – como as discussões sobre maus-tratos em escola, depressão e suicídio -, Selena Gomez parece ter-se respaldado de forma equivocada quanto ao tratamento desses assuntos para um meio muito mais acessível e utilizado pelas novas gerações: as plataformas de streaming.

A série, composta de treze episódios, mostrou-se dotada de pontos positivos – mas os negativos infelizmente falaram mais altos: ao que podemos depreender do resultado final, inúmeros gatilhos além dos anunciados antes do início dos episódios foram jogados através das múltiplas subtramas e trouxeram vários vícios para as telinhas, incluindo tratar o suicídio da protagonista Hannah Baker (Katherine Langford) de forma estilizada e romantizada (e aqui menciono a romantização no momento em que a personagem resolve realizar as fitas para se vingar. É claro que há muita discussão em jogo aqui, mas não podemos deixar de lado que isso acontece, e mais de uma vez, ao longo do show).

Quando a Netflix finalmente tomou a decisão de renová-la para a segunda temporada, confesso que fiquei com um pé atrás. Não havia nenhum motivo concreto para manter mais treze episódios em continuidade – ainda mais porque a obra de Asher se encerra com o season finale anterior. Talvez o time de roteiristas coordenado pelo showrunner Brian Yorkey ganhasse um espaço maior de criação e possibilidade de acertar alguns erros estruturais cometidos na temporada predecessora, como a falta de ritmo. Mas como se poderia continuar a história de Hannah? Felizmente, as previões foram cumpridas e Yorkey conseguiu nos fornecer um lado que até então havia sido esquecido e que tornou-se foco da nova iteração: as consequências para Olivia Baker (Kate Walsh) e uma perspectiva oculta dos participantes desse trágico acontecimento.

Primeiramente, devo dizer que mudar o foco da narrativa e transformá-lo em um importante julgamento entre a família Baker e a Liberty High School foi uma saída de interessante. O deslize, ao contrário do ano anterior, não foi desenvolver apenas uma longa linha narrativa de forma monótona e quase desistiva, mas sim delinear inúmeras subtramas que, em grande parte, não conseguem ter o desenvolvimeto necessário mesmo com treze novos episódios de quase uma hora de duração cada. Temos as subtramas mais importantes, como a de Olivia e a de Clay (Dylan Minnette), que luta para conseguir que a justiça seja feita para Hannah e para um dos principais culpados de toda a história, Bryce (Justin Prenticen), mas também há inúmeros envolvimentos românticos, a manutenção de quase todos os personagens e a adição de coadjuvantes que uma vez ou outra trazem algo de necessário para a série.

Yorkey preza pela tentativa de prosseguimento dos envolvidos no suicídio de Hannah e como cada núcleo mais intimista segue uma linha progressiva de puro declínio e ruína. Jessica (Alisha Boe) enfrenta seus demônios interiores e luta para conseguir se reestabelecer em um microcosmos – a escola – extremamente opressora e passiva em relação a seus alunos; Alex (Miles Heizer), após sair de seu coma, passa os dias vivendo com uma grande lacuna em suas memórias e se vê incapacitado de poder ajudar no julgamento; o “fugitivo” Justin (Brandon Flynn) retorna de modo triunfal para a série em um dos melhores arcos de redenção para a nova temporada – e não, ao contrário do que podemos pensar, ele não se torna uma vítima das circunstâncias, e sim enfrenta as consequências de sua cumplicidade criminosa.

Se por um lado 13 Reasons Why faz um belíssimo trabalho expandindo o núcleo de seus protagonistas e inclusive colocando inúmeros críticas para as falhas do sistema judiciário e punitivo da sociedade em que vivemos – não é à toa que o desfecho da narrativa principal mantém-se fora dos clichês –, ela peca no quesito equilíbrio. A mudança atmosférica entre as construções cênicas é brusca e sem qualquer preparação, e isso também se estende para os novos coadjuvantes; o roteiro não faz bom uso do potencial dessas adições pelo fato de elas existirem em uma saturação além do necessário. No final das contas, parece que o próprio universo faz questão de eliminá-los sumariamente para destituir de pesos mortos, mantendo aquilo que se mostra pertinente e depois retornando ao acaso com os “excessos”.

A falta de estruturação é, de certa forma, compensada com uma estética bem pensada. Seguindo uma fórmula mais ou menos parecida com o ano anterior, temos dois momentos distintos: aqueles no tempo presente e aqueles que trazem a viva memória de Hannah – e gostaria desse momento para mencionar que a ainda protagonista retorna também como fantasma pessoal de Clay -, mas de uma perspectiva verdadeira e que não nos havia sendo apresentada.

A direção de arte e de fotografia conversam entre si para construir uma identidade imagética própria para o antes e o depois, prezando por uma paleta mais dinâmica e mais quente para os momentos em que a personagem de Langford estava viva e contrastando-a com uma neutralidade angustiante e doentia da cronologia atual. Essas escolhas também auxiliam nas incríveis performances dos atores e atrizes, que valem-se de uma entrega soberba e emocionante – e aqui também tiro momento para mencionar a performance de Flynn e Boe, cuja química quase transcendente os limites da tela.

Mesmo com os despontes, os equívocos parecem falar mais alto e, ainda que a explicitez desnecessária e os gatilhos não informados deixem de existir em uma completude quase total, algumas sequências de flashbacks ou para a resolução de arcos são depressivas, para não dizer mórbidas. O foco desliza gradativamente para algo que poderia ser mostrado de outra forma, mas que segue um padrão de inúmeras outras obras que já se utilizaram do mesmo convencionalismo explicativo – em diversos momentos, a série faz referência ao incrível documentário Tiros em Columbine, mas não do modo aplaudível como deveria ser apresentado.

13 Reasons Why ainda se mostra como um produto maçante. A quantidade de episódios e de subtramas serve mais como tapa-buracos que qualquer outra coisa – e detalhe: se a primeira temporada trouxe temas importantes para colocar em pauta dentro da nossa sociedade, essa preocupação, ainda que distorcida, deixa de existir no novo ano, dando lugar a construções melodramáticas e desinteressantes.

13 Reasons Why – 2ª Temporada (Idem, Estados Unidos – 2018)

Criado por: Brian Yorkey
Direção: Gregg Araki, Karen Moncrieff, Eliza Hittman, Michael Morris, Kat Candler, Jessica Yu, Kyle Patrick Alvarez
Roteiro: Brian Yorkey, Thomas Higgins, Marissa Jo Cerar, Hayley Tyler, Nic Sheff, Julia Bicknell, Felischa Marye, Rohit Kumar, Kirk Moore
Elenco: Dylan Minnette, Katherine Langford, Christian Navarro, Brandon Flynn, Justin Prentice, Miles Heizer, Alisha Boe, Ross Butler, Devin Druid, Amy Hargreaves, Derek Luke, Kate Walsh
Emissora: Netflix
Episódios: 13
Gênero: Drama
Duração: aprox. 59 min.