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A década de 1970 seria marcada por acontecimentos importantes na História do Cinema. Mimetizando uma histeria hollywoodiana de completo descontrole dos estúdios sobre os realizadores, Bernardo Bertolucci, saído do enorme sucesso ocorrido em Último Tango em Paris e com o ego já muito inflamado, decidiu exercer a maior extravagância possível na forma de um dos maiores épicos já realizados na sétima arte: 1900.

Embora Hollywood tenha experimentado o caos com Michael Cimino e William Friedkin ao abraçar a ambição absurda de projetos como Portal do Paraíso e Comboio do Medo, nada se compararia a audácia de Bertolucci ao realizar uma experiência esgotante que dura mais de cinco horas, se tornando uma das ficções mais longas da História.

Quem já é familiarizado com Bertolucci, sabe que o diretor é um dos mais ideológicos a ponto de modelar cenários surreais para emplacar sua mensagem. Uma das maiores preocupações de sua vida, foi abordar a questão das cicatrizes que o fascismo deixou ao ser eliminado da Itália depois do término da Segunda Guerra Mundial. Em 1900, o cineasta foi além e decidiu contar como o movimento nasceu e conquistou o psicológico do simples povo italiano.

A Verdade Manipulada

É muito curioso que 1900 seja um filme tão regular dada a sua duração gigantesca. Em suma, acompanhamos a vida de três indivíduos: Olmo (Gérard Depardieu), Alfredo (Robert De Niro) e Attila (Donald Sutherland). Olmo e Alfredo nasceram no mesmo dia, mas em situações totalmente opostas no começo do século XX.

Olmo é filho de um camponês que trabalha por anos na propriedade da família de Alfredo. Apesar da divisão de classes entre empregado e patrão, uma grande amizade surge entre os dois meninos. Porém os anos passam, as guerras acontecem e o mundo moderno passa a se expandir, polarizando ainda mais o cenário político conturbado da Itália.

Porém, nesse contexto, o novo capataz da fazenda de Alfredo, Átila, logo de revela um dos principais apoiadores dos camisas negras que dariam surgimento ao movimento fascista italiano. Como Olmo é declaradamente comunista, um conflito violento se instala na propriedade.

O problema de 1900 é um só e seu nome está estampado em todos os cantos: Bernardo Bertolucci. Muito embora o cineasta seja um maestro na condução de sua câmera e da encenação bem feita para momentos cruciais da história, o roteiro é um verdadeiro desastre capaz de tirar qualquer cidadão que tenha o mínimo bom senso da experiência cinematográfica que ele propõe.

A começar, Bertolucci praticamente realiza o checklist completo para fazer uma narrativa cinematográfica de viés ideológico de esquerda perpetuando uma infinidade de clichês e maniqueísmos já muito bem explorados na década que Charles Chaplin fazia sucesso. O primeiro ato inteiro elabora os alicerces clássicos do modo mais prolixo e burocrático possível para justificar essa duração absurda que o longa possui.

Tentando gerar mistério com a abordagem da narrativa em flashback, Bertolucci nos apresenta a infância de Olmo e Alfredo – interpretados por alguns dos piores atores mirins que já tive o desprazer de ver. Como a carga ideológica do longa é ferrenha, não é de ficar espantado que haja discursos políticos na boca das crianças que já apresentam os ressentimentos de seus pais em um clássico entrave entre patrão vs. empregado. O roteirista aborda toda essa questão do modo mais simplista e superficial do mundo ao tratar os patrões capitalistas como verdadeiros canalhas inescrupulosos – com direito as vestes apropriadas, em contraste com a santidade dos camponeses comunistas explorados.

O discurso de Bertolucci não ousa sair do básico durante todo o ato e também não aprimora posteriormente. O que oferece energia ao longa é a interação de Olmo e Alfredo com seus respectivos avôs interpretados pelas lendas Sterling Hayden e Burt Lancaster – que mais parece reprisar seu papel como Conde de Salinas em O Leopardo. A presença dos dois atores realmente oferece um grande impacto, além de delinear os contrastes de modos menos abrasivos.

Por exemplo, em uma das melhores sequências do filme, Bertolucci elabora duas cenas gigantescas com os jantares tanto dos camponeses e dos patrões. Agora sintetizando muito pela imagem e pouco pelo discurso, vemos como os camponeses são todos unidos, se divertindo com o pouco e convivendo em uma harmonia caótica italiana típica iluminada com luzes quentes e cores alegres.

Já o jantar dos patrões envolve a desunião e desarmonia com conflitos intensos entre os integrantes e o desrespeito aos mais velhos. É um ambiente tóxico que só permite refugio na singela amizade entre o avô Alfredo e o pequeno neto que logo busca o amparo de seu amigo Olmo. Obviamente que a abordagem fotográfica é totalmente oposta, apostando em sombras e cores monocromáticas.

De resto, com algumas poucas críticas válidas, o primeiro ato se arrasta já revelando muitas deficiências do texto de Bertolucci. A primeira delas é a diferença de tratamento e desenvolvimento dado a diversos personagens importantes. Por exemplo, com o vô Alfredo, se não fosse o desempenho fantástico de Lancaster, sua morte seria risível envolvendo o amargor da velhice com a impotência sexual até apelar para uma tentativa fracassada de pedofilia. Já com Leo, o avô de Olmo, não vemos sequer alguma consequência de sua morte.

Outros acontecimentos chocantes permeiam esse primeiro ato e muitos deles parecem irrelevantes como o fato de um camponês, em protesto, cortar a própria orelha e logo depois sumir da obra. Apesar disto, o cineasta oferece um bom ponto de transição, se valendo de um dos raccords visuais mais poéticos de sua carreira, para apresentar o segundo ato que concentra o núcleo de perversidades do longa e também do diretor.

Apenas um detalhe que é preciso mencionar desde já, Bertolucci é particularmente ingênuo em concentrar os atos do longa conforme as estações do ano. Mesmo sendo coerente indicar a ascensão do fascismo com o outono e o inverno, o emprego do verão para a era dos patrões é consideravelmente paradoxal, já que a atmosfera de verão, repleta de cores quentes e paisagens maravilhosas não refletem a opressão dita via diálogos pelos camponeses. Tudo parece perfeitamente bem.

1900 apelações

É bem provável que 1900 marque o apogeu do cinema caótico de Bertolucci e seu tremendo mau gosto. Já percebendo que sua estrutura narrativa era uma verdadeira bagunça, com uma infinidade de acontecimentos aleatórios que diziam pouco ou nada para a história em geral, temos o segundo ato que marca o gigante miolo da obra.

Dessa vez, com Olmo e Alfredo já crescidos, há uma boa introdução para apresentar essas novas versões dos personagens. Olmo foi transformado pelas trincheiras da Primeira Guerra enquanto Alfredo viveu protegido no terreno idílico de sua família, mas apostando na popularização da mecanização do trabalho manual, visto como uma ameaça para a força camponesa – assim como outros pontos interessantes de desenvolvimento, isso é logo abandonado.

Apesar dos esforços de Depardieu e De Niro, não há muito estofo para trabalhar com os personagens. Logo, não é nenhuma surpresa que haja problemas nítidos de interpretação com cada cena apresentando uma faceta pouco condizente com a anterior, além dos atores sofrerem bastante com uma das piores dublagens já presenciadas no Cinema Italiano. Como são caóticos e superficiais, é praticamente impossível ter alguma empatia pela luta abstrata daquelas figuras.

Mas nada pode superar a vergonha completa que Donald Sutherland se sujeita ao encarnar Attila, o capataz camisa negra fascista. Bertolucci torna o personagem totalmente caricato, como se fosse um vilão absurdo de uma novela ruim. Por exemplo, de modo didático, Attila pega um gatinho e avisa aos seus compatriotas que o gatinho fofo é o comunismo. Logo, clama para que a população tenha coragem para destruir o filhote. Pendurando o animal indefeso na parede, o vilão esmaga o bicho até a morte com cabeçadas – é sabido que esse gato não morreu durante as filmagens como acontece com o porco poucas cenas depois.

É absolutamente bizarro e maniqueísta. Uma apelação visual desnecessária para mostrar que os fascistas eram uma força terrível e opressora – até mesmo Roman Polanski não usou imagens tão nojentas para exibir seus pontos de vista no ótimo O Pianista. O cineasta utiliza esse reducionismo irritante para tratar todos os conflitos do filme. Em suma, Olmo é o comunista forte e injustiçado, Alfredo representa o liberalismo fraco e acovardado de uma classe média que apoiou a ascensão dos camisas negras e Attila se torna a força implacável maledicente do fascismo.  

Já falhando totalmente com personagens redundantes, o cineasta falha com a retratação do período histórico ao trabalhar muito mal com os fatos. 1900 era para mostrar como o fascismo nasceu na Itália durante o pós-Guerra, mas Bertolucci chega em um nível de desinformação absurdo, falhando em exibir pontos importantíssimos para compreender como a força de Mussolini ascendeu do modo que aconteceu.

O roteirista nem aborda propriamente a figura do ex-socialista Mussolini – algo que seria pouco conveniente ao seu filme pró-Comunismo, mas projeta parte da figura do líder em Attila que, ironicamente, busca financiamento para o movimento na Igreja Católica – o fascismo era um movimento laico, com a ajuda financeira completa e integral dos “patrões” que temiam a revolução comunista, além de ser uma válvula de escape para matar todos os camponeses.

Chegando a esse ponto, nos aproximamos da metade do longa e praticamente nada de relevante aconteceu com os personagens, além da completa deturpação do cenário histórico dos acontecimentos. É curioso que ao encerrar essa primeira parte do filme, Bertolucci percebe que todo o ritmo da obra caminha mal e corre risco de colapsar. Porém isso não é evitado pela estratégia traçada na segunda parte.

A Derrocada

A primeira parte de 1900 consegue, relativamente, segurar a atenção do espectador por conta da mudança temporal e das novidades vindas com Attila. Mas como os problemas já se tornam um peso irremediável aqui, Bertolucci então aposta na força do choque e do romance para segurar a segunda metade dessa obra colossal.

O romance, assim como todos os outros núcleos, é terrivelmente desenvolvido, apesar de charmoso em primeiro momento já que vemos Alfredo se aproximar da rica Ada, uma mulher pró-modernização pertencente a uma alta sociedade moralmente corrompida – sim, o cineasta adora repetir as mesmas críticas em diferentes cenas. Apesar de ser conduzido com pressa, o romance entre Ada e Alfredo funciona, além de apresentar outra vilã, Regina, prima do protagonista que é apaixonada por ele.

Em questão de poucos minutos, o segmento começa a desandar de modo ainda mais acentuado que o anterior. Muito por conta, novamente, da apelação. Sutherland se torna ainda mais caricato e, obviamente, começa a se envolver com Regina, uma mulher tão vil e superficial quanto ele. As atrocidades que ambos cometem passam longe do limiar do absurdo envolvendo até mesmo o assassinato de crianças e pedofilia – nesse ponto, o espectador já está exausto do grafismo do longa e do discurso plástico de Bertolucci.

O esgotamento leva a um estado de negligência com a própria narrativa que também se torna mais fragmentada e repleta de buracos, como o surgimento inexplicável do alcoolismo de Ada, dos conflitos constantes de poder entre Attila e Alfredo ou de uma sequência envolvendo a matança de um porco, estripação e, por fim, algum comentário político pró-socialismo.

Olmo perde importância e suas aparições acabam resumidas a alguns romances estranhos, clichês sobre injustiça e um confronto com Attila no qual os camponeses despejam estrume no fascista – Bertolucci enquadra o ânus de uma égua defecando enquanto um velho aguarda pacientemente para receber o “presente” e jogar no vilão.

O ciclo de escatologias, brutalidade, militância, romances fracassados, clichês e a eterna demora em trazer boas novas características só cessam durante o clímax que resgata o ponto inicial do filme, da Itália em processo de liberação – a esse ponto, o espectador até já esqueceu do segmento.

A retomada de conclusão narrativa é igualmente ruim e confusa, envolvendo uma revolução socialista bizarra na fazenda que rapidamente é diluída frustrando Olmo e sua vingança (?) contra Alfredo. Ao menos há uma boa sacada em resgatar um dos momentos mais marcantes do primeiro ato para encerrar a obra em uma inesperada linha pessimista.

Fogueira das Vaidades

Em geral, 1900 é um exercício das vaidades de um cineasta que havia provado por diversas vezes não buscar quaisquer margens de equilíbrio. Com uma narrativa verdadeiramente insuportável, discurso clichê, completa falta de acuidade histórica, personagens insossos e vilões caricatos que fogem de qualquer linha da realidade, não há a menor justificativa para encontrar prazer em dedicar mais de cinco horas em uma obra tão esgotante.

A técnica de Bertolucci impressiona em primeiro momento, mas logo, inevitavelmente, se torna repetitiva com diversos planos abertos, jogos de iluminação pouco distintos, o uso constante e enfadonho da trilha musical e da total falta de noção em ritmo cênico para a montagem que permite inúmeras cenas se alongarem.

É simplesmente uma enorme perda de tempo.

1900 (Novecento, Itália, França, Berlim Ocidental – 1976)

Direção: Bernardo Bertolucci
Roteiro: Bernarndo Bertolucci, Franco Arcalli, Giuseppe Bertolucci
Elenco: Robert De Niro, Gérard Depardieu, Dominique Sanda, Laura Betti, Donald Sutherland, Sterling Hayden, Burt Lancaster
Gênero: Drama, Romance
Duração: 317 minutos.

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