Setenta e oito diferentes posicionamentos de câmera e 52 cortes. Eis o que Hitchock precisou para filmar a cena mais popular do seu cinema. Isso e uma sabedoria absurda sobre o Cinema, o suspense e o público: o assassinato na banheira em Psicose. Não bastasse ser uma cena valorosa pela quebra na história e no paradigma do protagonismo, o assassinato em si é uma obra à parte. Fascinado pelos bastidores, pelo estudo das minúcias da produção cinematográfica, o diretor Alexandre O. Philippe reuniu em 78/52, seu novo documentário, uma gama muito matizada de profissionais para comentar, em preto e branco, o episódio. Nem que seja só para elogiar em termos genéricos. (O IMDb registra “apenas” 42 entrevistados, mas não me surpreenderia se o total de falantes seja, na verdade, de pelo menos 52, para fazer um brincadeira com o título)

A velocidade e a quantidade levam, apesar das qualidades do filme, maior atenção. Bem diferente da famosa instalação de Douglas Gordon, 24 Hour Psycho, em que o artista decidiu expandir Psicose para que durasse precisamente um dia inteiro. Já não fosse Hitchcock o gênio celebrado que é, o diretor optou por inserir entrevistas com profissionais do cinema, de áreas menos prestigiadas, para que a cena em questão – ou melhor, em reafirmação – possa ser sublimada por todos os 90 minutos.

Entre depoimentos em que exala a história do cinema, de gente como Peter Bogdanovich, Danny Elfman, Guillermo Del Toro, Mick Gravis, Walter Murch; entram também comentários mais jocosos, ligados à recepção, às reações do espectador que (re)assiste Psicose para ver além do ralo da banheira. Nesses momentos, não faltam referências mais pop: figuras como Elijah Wood, Leigh Whannell, Jamie Lee Curtis (filha de Janet Leigh); e os reflexos da cena em produções audiovisuais variadas ao longo desses 57 anos do filme.

Muitas informações e análises vão sendo costuradas nas falas dos entrevistados, depois entremeadas com cenas não só de Psicose, mas de toda a obra de Hitchcock, seja para traçar paralelos, ressaltar a importância do filme para o contexto cultural norte-americano ou evidenciar coerências de auteur; da produção do filme, mostram-se storyboards e roteiros (apesar do livro, e da relação de Hitchocock com adaptações literárias, nunca ser citada); do seu lançamento, as regras que o diretor passava para as salas de cinema e seus espectadores, a reação do público frente à morte da até então protagonista.

É um movimento que em certos momentos até parece sem foco por ir e voltar no tempo e na linha narrativa: passamos de uma leitura crítica do quadro que Bates tira da parede (“Suzana e os Velhos”, do holandês Frans Van Mieris, o Velho) para se tornar voyeur de sua futura vítima (uma das melhores e mais comunicativas análises do documentário), e passamos para um mero falatório de impressões menos valiosas.

O movimento de altos e baixos é desgastante, e essa tendência didática que quer também agradar cinéfilos mais bem embasados acaba alongando o filme. Quem por si só já é convencional, e percebe que tem seus limites, deveria sair de cena um pouco antes. Pelo menos, a abertura do filme respeita a sinceridade hitchcockiana: coloca a dublê de Janet Leigh (Marli Renfro) na cena do banho para reencenar, na atualidade, a entrada no Bates Motel. 78/52 sabe que não chega aos pés de aprofundar Hitchcock como ele merece. Apesar de imperfeito, tenta se legitimar pelo fator homenagem, reverência.

Um brinde à Hitchcock dos colegas do cinema.

78/52 (EUA – 2017)

Direção: Alexandre O. Philippe
Gênero: Documentário
Duração: 91 min

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