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Eu poderia colocar facilmente Guilhermo Del Toro no pódio dos diretores mais interessantes da atualidade. Saído dos ótimos Hellboy, Hellboy II: O Exército Dourado, Círculo de Fogo e do exemplar O Labirinto do Fauno, quando soube que o diretor iria conduzir um terror gótico, não era surpresa dizer que minhas expectativas definitivamente foram as mais altas possíveis. Tratando-se de um profissional que tem deslumbramento pelo fantástico e que entra a fundo no mundo de seus filmes, pensei: seria este a próxima obra-prima do gênero? A resposta é não.

Mas o problema maior não está no Del Toro diretor e sim no Del Toro roteirista que assina a escrita junto com Matthew Robbins. Na direção, Del Toro sabe manipular de forma competente a expectativa do público com planos e contra planos e utiliza alguns enquadramentos que parecem ser do ponto de vista do fantasma de forma insinuante. Uma pena que esses momentos são raros e distantes uns dos outros, perdendo muitas oportunidades.

Porém, ele aproveita ao máximo a atmosfera riquíssima criada e o excepcional design de produção para passear com a câmera diversas vezes na mansão, mostrando que ela é o foco principal. Aliado a trilha sonora de Fernando Velazquez, bem misteriosa e sugestiva e que sabe como colocar o espectador no clima certo quando necessário, del Toro se diverte como ninguém brincando com vários efeitos práticos no processo.

A cinematografia também merece aplausos por ter uma forte identidade nos dois pontos de localização da história. No primeiro ato, em Nova York, os tons de ouro e bronze são predominantes enquanto nos outros dois, na mansão inglesa, o visual assume um tom mais sombrio porém nunca abandonando a companhia fortíssima das cores, seja do figurino, do jogo de luzes ou de peças que compõem o cenário.
colina escarlate
 
Onde Del Toro verdadeiramente erra na direção é na questão do romance provando sua falta de competência e malevolência na condução do gênero. A química entre o casal principal não é sentida e soa forçada. Isso fica ainda mais evidenciado durante uma vergonhosa cena de sexo em que a imaginação do diretor se encontra ausente assim como qualquer tipo de cuidado com a estética. Não há qualquer tipo de sensualismo e erotismo investidos na cena, por consequência, arrancando risadas dos mais atentos tamanho desinteresse técnico.
 
Falemos agora do principal problema do longa: sua escrita banal, previsível, arrastada e sem inspiração.
 
A história é simples. Após uma tragédia familiar, a jovem Edith Cushing (Mia Wasikowska) vai morar na Inglaterra na mansão de seu par, o misterioso Thomas Sharpe (Tom Hiddleston). Eventos sobrenaturais passam a acontecer até a trama revelar segredos ocultos e obscuros sobre a família Sharp. Como já mencionei a falta de química entre o casal e a inabilidade do diretor de conduzir um romance, posso apontar a falha na escrita, pouco convencional, que une ambos os personagens de forma abrupta, simplesmente por necessidade de roteiro.
 
A partir daí, começa o show de clichês e sustos e revelações telegrafadas. Se Del Toro acerta na técnica e no visual das criaturas sobrenaturais, mais uma vez o texto peca tamanha previsibilidade de suas aparições e atos. É decepcionante também a utilidade de tais criaturas para a trama como um todo e as reações e atitudes da protagonista principal a suas aparições chegam a ser risíveis e sem grandes consequências.
 
 colina escarlate
 
Quando a personagem de Jessica Chastain, Lucille Sharp, a irmã de Thomas recebe um maior foco por parte do roteiro, o espectador a essa altura já adivinhou absolutamente todos os segredos que envolvem a backstory dos irmãos e a relação entre eles. Também sinto que, por mais que Chastain tenha a melhor atuação dentre todas no longa, essa personagem não lhe serviu bem por transmitir um par de emoções óbvias demais que são praxe nas interpretações da atriz. Por outro lado, Hiddleston convence na maioria das vezes mas por hora passa a impressão de indecisão no tom e imposição do personagem. Quem se sai melhor, inesperadamente, é Wasikowska, melhorando significativamente desde suas últimas aparições no cinema e convencendo quando passa tristeza, calmaria e confiança para o público.
No final, o que sobra ao espectador é passar pelo Déjà vu que se desenrola até a clássica perseguição da antagonista pela protagonista antes do embate definitivo com trocas de agressões físicas utilizando instrumentos pontiagudos e afiados com direito a cota de sangue sendo devidamente preenchida como manda a cartilha do gênero. Céus, até o personagem de Charlie Hunnam (adequado), que verdadeiramente só ganha relevância no final, faz parte de um remendo de convenções batidas.
 colina escarlate
 
É verdadeiramente triste acompanhar um diretor tão talentoso e dedicado com seus filmes errando dessa maneira apresentando desleixo no texto e narrativa enquanto toda parte técnica se sobressai. Espero sinceramente que ele tenha se afastado definitivamente dos dois gêneros que tentou emular aqui em seus próximos filmes, afinal precisamos de mais Jaegers e menos novelas quando o assunto posto a mesa é a nerdice e perspicácia de Del Toro. Vê-lo apelar da forma mais fácil possível para jump scares não foi algo bonito de se ver… Quem sabe o diretor não tenha aprendido com os erros e se redima em projetos futuros (talvez estando envolvido de alguma forma no Dark Universe do Universo Cinematográfico da DC?)? Enquanto isso terei que me contentar com o “botão da Espada” e com o “Pale Man” até o próximo passo de genialidade nerd ser dado.
A Colina Escarlate (Crimson Peak, EUA – 2015)
Direção: Guillermo Del Toro
Roteiro: Guillermo Del Toro e Matthew Robinson
Elenco: Mia Wasikowska, Tom Hiddleston, Jessica Chastain, Charlie Hunnam, Doug Jones, Javier Botet
Gênero: Terror
Duração: 120 min
 

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