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Quando se fala em cinema italiano, é quase impossível não citar Vittorio De Sica. O diretor é constantemente lembrado como um dos melhores, senão o melhor do país e também é considerado um dos pais do movimento Neorrealista italiano, que dominou o cinema da Itália durante e no pós-guerra, até o inicio dos anos 1950. Nascido na cidade de Sorateve uma infância bastante pobre e, desde pequeno, trabalhava para ajudar os pais. Durante a primeira guerra, começava a se interessar pelas artes e começou a atuar em shows amadores organizados pelos militares na época da Primeira Guerra. Mais velho, Sica iniciou os estudos na faculdade de Contabilidade e se formou em 1923, mas não chegou a exercer a profissão, pois já se encontrava apaixonado pela carreira de ator, e logo após se formar começou carreira no teatro, onde faria bastante sucesso.

Nos anos 30, após conseguir aclamação no teatro, decidiu começar a investir na carreira de ator de Cinema, e também conseguiu bastante êxito, atuando nas comédias do famoso diretor da época, Mario Camerini. Em 1939, iniciaria a sua carreira atrás da câmera dirigindo o filme Rosas Escarlates. Os primeiros filmes de Vittorio não eram nada diferentes do comum do Cinema italiano da época, optando por fazer comédias mais leves. Isso mudaria em 1943, quando ele lançou o filme  A Culpa dos Pais. Escrito junto com o roteirista Cesare Zavattini, que De Sica conheceu nas gravações do filme Darò un milione, o filme é considerado pelos historiadores italianos uma grande reviravolta no Cinema da época. As comédias alegres e graciosas seriam abandonadas, e agora o foco seria no dramas das pessoas comuns, o que serviria como uma base para o neorrealismo alguns anos depois.

A trama conta a história da uma família comum de classe média italiana, formada pelo jovem de cinco anos, Pricó (Luciano de Ambrosis), seu pai Andrea (Emilio Cigoli) e sua mãe Nina (Isa Pola). A rotina da família é extremamente normal, porém, em um certo dia, Nina acaba se cansando da rotina pesada dentro de casa e, também, de ser constantemente ignorada pelo marido, que não lhe dá o valor que merece. Decide, então, fugir no meio da noite com o amante. Isso acaba por dilacerar a família, e para que o filho não sofra muito, Andrea acaba se mudando com ele para o interior do país, para a casa da avó do jovem. Porém, Pricó adoece por sentir falta da mãe e devido ao ambiente hostil que encontra acaba retornando para a família. Eles decidem, então, viajar para a acertar as coisas. Porém, uma vez na viagem, os problemas de antes voltam à tona.

O filme não é considerado em sua essência parte do movimento neorrealista. As obras dessa fase do Cinema italiano, os personagens eram em sua maioria pessoas da classe trabalhadora, que viviam em um ambiente brutal e injusto, e que viviam em busca de um futuro melhor. Em A Culpa dos Pais, os problemas enfrentados são de cunho familiar, e não sociais. No neorrealismo, a maioria dos protagonistas eram atores iniciantes ou desconhecidos, já aqui, tirando Ambrosis, os dois atores que fazem os pais de Pricó já possuíam certa fama. Porém, é possível já notar características do movimento nesse filme. Podemos ver pessoas em situações reais da vida dentro de uma ficção, quase que lembrando a um documentário, e como já citado aqui no início, é um filme que aborda um drama forte e bastante sentimental, algo que não era comum naquela época.

O roteiro de De Sica e de Zavattini tem como intenção chocar a sociedade da época, pois teve como base um tema que era até mesmo proibido em alguns lugares (Estados Unidos por exemplo, devido ao Código Hays) que era o adultério. Se formos pensar, a Itália era, e até hoje é, um país extremamente religioso, então foi de extrema coragem do diretor fazer um filme onde uma mulher abandona a sua própria família para poder fugir com o amante. A ideia de um filme que fosse impactar aqueles que o vissem pode ser visto na cena em que o amante invade o apartamento da família para discutir com Nina, tudo isso na frente de Pricó. Ou quando a mãe abandona o filho pela segunda vez para poder realizar suas aventuras sexuais. Se até hoje situações como essas não são bem vistas, imaginemos elas sendo vistas nos anos 1940.

Não apenas para chocar os seus conterrâneos, De Sica fez um filme com a intenção de desmoralizar toda a visão idealizadora que o Fascismo havia construído da sociedade italiana da época. Quando subiu ao poder, Mussolini usava de todos os meios para controlar a população, e vender a imagem de que como o país era perfeito sobre o seu controle. Um dos motivos era devido as instituições familiares sólidas, que eram a base da sociedade. Em A Culpa dos Pais, existe a desmistificação de toda essa propaganda, pois vemos que as famílias não eram tão perfeitas, e que existiam casos de traição e abandono. Outro ataque do diretor direcionado ao governo totalitário. Na sociedade italiana, o pai de família é visto como forte e como o pilar de tudo. No filme, Andrea é fraco e não consegue lidar com a perda da esposa.

O foco do diretor é mostrar o público a visão que o jovem Pricó está tendo disso tudo, e como ele está reagindo a toda essa mudança, como estão seus sentimentos em relação a isso tudo. Para fazer isso, ele usa constantemente close ups para evidenciar os sentimentos da criança, mas sem abusar muito e deixar tudo melodramático. Pelo contrario, é tudo palpável para quem assiste, e até os momentos mais simples se tornam fortes, como por exemplo quando a mãe retorna para ver o filho doente, e ele pede para que ela fique. De Sica também deseja nos mostrar o quanto o psicológico da criança está afetado por tudo aquilo que está acontecendo, e ele nos mostra isso numa cena dentro de um trem, onde várias imagens são passadas como se estivessem dentro da cabeça do jovem, para que vejamos o quanto que seu inconsciente sofre.

Vittorio de Sica, nesse filme, mostra-se um mestre no uso da câmera, sabendo muito bem contar a história a partir dos seus enquadramentos e usando de até rimas visuais. Quando Pricó e Andrea descobrem que Nina os abandonou, na próxima cena eles vão parar numa loja de costura da cunhada do pai do jovem. Com um plano mais aberto, o diretor mostra um cenário com vários manequins quebrados, um simbolismo para o que estava acontecendo com a família naquele momento. Quando Pricó esta na casa de sua avó, ele pede para que sua prima lhe dê um beijo de boa noite, e a posição da câmera é igual a cena da mãe se despedindo do filho, deixando a mostra o quanto a criança sente sua falta. Um dos principais momentos do filme, é depois que é deixado pela mãe, ele corre em uma praia, com uma sombra correndo toda a sua silhueta, mostrando seu abandono e que ele estava perdido. O filme não tem apenas um bom roteiro, possuindo também uma ótima estética em seu visual.

Possuindo uma grande importância histórica, A Culpa dos Pais abalou as estruturas do Cinema italiano da época, e que foi o pontapé de um dos movimentos mais importantes da história da nona arte. Foi também uma grande mudança na carreira do diretor De Sica, pois foi a partir daquele momento que ele iniciaria as produções que colocariam o seu nome da na história.

A Culpa Dos Pais (I bambini ci guardano – Itália, 1943)

Direção: Vittorio De Sica
Roteiro: Cesare Zavattini, Vittorio De Sica, Cesare Giulio Viola, Margherita Maglione, Adolfo Franci, Gherardo Gheraci
Elenco: Luciano de Ambrosis, Emilio Cigoli, Isa Pola, Adriano Rimoldi, Giovanna Cigoldi, Jone Frigerio, Maria Gardena, Ernesto Galindri, Nicoletta Parodi
Gênero: Drama
Duração: 85 min

Texto escrito por Raphael Aristides

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