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O diretor Frank Capra está definitivamente marcado na história do cinema como um dos profissionais mais influentes da sétima arte, com sua obra tendo grande importância e um legado que até hoje é muito presente. Nascido na Sicília, ganhador de cinco Oscars da Academia, foi responsável por grandes clássicos como Do Mundo Nada se Leva (1938) ,  A Mulher Faz o Homem (1939), Aconteceu Naquela Noite (1934), entre outros. O estilo de Capra era fazer filmes como se fossem fábulas. Na sua trama, o otimismo sempre reinava, ele idealizava uma América onde uma qualquer pessoa poderia vencer na vida e mesmo que enfrentasse alguma dor ou perda, conseguiria chegar ao topo. Em uma época em que os Estados Unidos estavam passando por uma forte depressão econômica, seus filmes conseguiram fazer sucesso devido a temática sempre positiva.

Em 1946, Capra lançou o filme que para muitos é seu magnum opus, A Felicidade Não Se Compra. Apesar de hoje esta obra ser um clássico, quando foi lançado o filme foi um fracasso de bilheteria, devido à grande concorrência que enfrentou no lançamento, recebendo criticas mistas. Enquanto muitos críticos achavam o filme uma obra de arte, outros consideravam a trama boba, e achavam a temática muito otimista como sendo fora da realidade. Porém, com o tempo, o filme começou a  ser reavaliado, e muitos perceberam que as mensagens neles contidas eram atemporais, que mostra o quão visionário era o seu diretor. De fato são mesmo. É difícil assistir A Felicidade Não Se Compra e não perceber que a obra não envelheceu e que mesmo com uma trama que ao primeiro momento pareça simples possui ensinamentos que, ainda  nos tempos atuais, são muito poderosos.

A trama começa mostrando várias pessoas fazendo orações em nome de um tal de George Bailey (James Stewart), que devido às dificuldades que se encontra, decide cometer suicídio. Isso acaba por chegar ao Céu, que decide enviar um espírito desencarnado chamado Clarence para ajudar esse tal rapaz, para que ele finalmente possa ganhar suas asas. Mas antes decidem mostrar a Clarence a história de vida daquele quem ele vai ajudar. Começamos a conhecer a vida de Bailey, que desde a sua infância se mostrou alguém que sempre ajudava ao próximo e cresceu sendo assim. Bailey era também um sonhador, desejava poder ir para a faculdade e viajar o mundo, mas que acabou por largar tudo isso para poder guiar o banco de seu pai após o falecimento deste.  George se casa com a bela Mary Hatch (Donna Reed), constitui família e mantém a filosofia de seu pai, que era emprestar dinheiro a necessitados sem cobrar juros. Porém aconteceu um fato não previsto e o negócio de George corre risco de falir. Desesperado, ele pensa em se matar e, então, aparece Clarence, que está determinado a impedir disso. O bancário confessa ao espírito que desejaria nunca ter nascido, e então este decide mostrar a Bailey como seria a vida sem sua existência.


Capra sempre foi muito habilidoso na hora de contar as suas histórias, algo que é confirmado por todos aqueles que estudaram a sua obra. Nesse filme ele mostra o porquê de ser tão bom. O diretor usa flashbacks (algo que lembra um pouco Cidadão Kane) para nos mostrar as partes mais importantes na vida de Bailey e vemos quais foram as ações que o levaram à situação em que ele está agora. Um recurso bastante criativo usado por Frank é que vemos a história sendo narrada através do supervisor do Céu, que deseja que o espírito Clarence conheça aquele vai salvar. Fazendo isso, o diretor permite que o público se envolva muito melhor com a história do personagem e a trama que, ao primeiro momento, parece ser bem simples, acaba se mostrando bastante profunda, mexendo com força em nossas emoções. De início a montagem parece bagunçada, com cenas jogadas, mas depois vemos que tudo se encaixa e percebemos como o diretor consegue conduzir a trama com bastante fluidez.

Pois bem, após nos mostrar a derrocada de Bailey, é Clarence quem toma seu lugar de vez na trama, mostrando a Bailey como seria a vida sem a sua existência. Esse momento é extremamente impactante, porque muitos aqui vão se identificar com o que está acontecendo. Quantas vezes já não desejamos nunca ter existido, devido ao fato de estar passando uma dificuldade extrema na nossa vida? O filme vai, então, nos fazer questionar se realmente reconhecemos a nossa importância e nos mostra que, talvez, mesmo que não seja do nosso conhecimento, sejamos importantes para alguém.

Porém, acredito que a mensagem mais importante do filme é sobre como a ganância não leva a lugar algum e que o dinheiro definitivamente não traz tudo. Não é à toa que esse filme se tornou, para muitos, um dos melhores sobre o Natal, algo que Capra nunca tinha em mente. Essa data é lembrada como uma época de ajudar, compartilhar, semear o bem e isso foi o que Bailey pregou durante sua vida toda. O dinheiro nunca foi algo importante, ele sempre pensou em ajudar. Uma cena que deixa claro isso é quando ele desiste de sua lua de mel com Mary para usar o capital de sua viagem a fim de compartilhá-lo com os seus clientes, visto que os cofres do banco estavam vazios. Ele nunca ficou rico, mas ganhou o respeito de todos e uma linda família. É falado no filme uma frase extremamente poderosa, que resume bem essa questão: “Aquele que tem amigos nunca será um homem falido”.


O filme possui diversas cenas icônicas. O primeiro encontro entre Mary e George em um baile, onde nos divertimos com eles dançando e depois caindo na piscina do colégio. O primeiro jantar do casal que acabara de casar na casa que ainda estava sendo construida por eles, ainda faltando diversas coisas, que nos desperta os mais variados sentimentos. Também tenho de falar das cenas de maior drama, por exemplo George em cima da ponte pensando em pular e também ele correndo na rua olhando o que aconteceu à sua cidade devido ao fato dele nunca ter nascido. Todas essas cenas acompanhadas pela bela fotografia de Joseph Walker, que conseguiu captar bem os sentimentos do personagem principal. Podemos perceber que, no inicio, ela é mais iluminada, para depois ser trocada por tons mais escuros.

James Stewart faz nesse filme o que foi comum em sua carreira, uma belíssima interpretação. Seu carisma ajuda e muito na construção do personagem, fazendo com que nos tornemos seus admiradores. Donna Reed também merece destaque, sua presença nas cenas é marcante e ela consegue transmitir muito bem o carinho e o amor de Mary pelo seu marido. A sincronia dos dois atores em cena é perfeita e contagiante. Lionel Barrymore não pode ser esquecido, pois sua atuação consegue fazer com que nós odiemos o banqueiro Potter com todas as nossas forças, tamanha sua ganância e falta de empatia do personagem.

Inocente, despretensioso, charmoso, lindo, histórico. Faltam argumentos para definir precisamente o que é A Felicidade Não Se Compra. Com belas interpretações, bela história e exaltação de valores que parecem que estão pouco a pouco se perdendo, é um filme que nunca terá data de validade, pois sempre vai nos lembrar do que realmente é importante em nossa vida.

A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life – EUA, 1946)

Direção: Frank Capra
Roteiro: Frank Capra

Fotografia: Joseph Walker
Estudio: Libety films ( produção), RKO ( distribuição)
Elenco: James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore,Henry Travers, Thomas Mitchell, Beulah Blondi, Frank Faylen,W ard Bond, Gloria Gahame, Todd Karns, Frank Albertson
Duração: 130 minutos

Texto escrito por Raphael Aristides

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