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É curioso como muitos não acompanham a carreira repleta de sucessos e filmes épicos de David Lean depois do razoável Doutor Jivago. Há uma razão histórica para o nítido desinteresse com A Filha de Ryan, o penúltimo filme da vida profissional do britânico que trazia uma história relativamente simples, mas sob um escopo de duração tão monumental quanto Lawrence da Arábia. Esse esquecimento que recai neste romance com ares épicos ocorre por conta uma forte injustiça histórica pela crítica americana que simplesmente rechaçou a obra a tal ponto que Lean, deprimido, se afastou do mundo cinematográfico por quatorze anos.

Embora Lean tenha cometido diversos equívocos na condução desse longa, é muito difícil não ficar mesmerizado pela beleza das imagens naturalistas e a inerente criatividade do britânico que está consideravelmente mais livre a ponto de até arriscar com inusitados tons cômicos. Mesmo assim, as nítidas qualidades da obra são eclipsadas com facilidades pela extravagância típica do diretor que simplesmente não soube medir corretamente o quanto que esse espetáculo soturno renderia.

Efusivos Julgamentos

O texto de Robert Bolt certamente é mais aprimorado do que o apresentado em Doutor Jivago. Apesar de ainda falhar em estabelecer coisas muito simples para espectadores como o tempo diegético situado em meio a Primeira Guerra Mundial, temos uma história repleta de potencial por trazer uma releitura do clássico Madame Bovary de Gustav Flaubert encaixando ao contexto muito específico do ressentimento irlandês contra os britânicos.

A jovem Rose Ryan (Sarah Miles), filha do taberneiro local de uma afastada ilha da península irlandesa, passa seus dias sempre insatisfeita pelo ritmo pacato e condenado do lugar. Na vã esperança de salvar daquela sociedade medíocre e cruel que convive, acaba se apaixonando pelo viúvo professor Charles (Robert Mitchum), um homem de meia-idade não muito expressivo. Rapidamente, os dois se casam e inicial sua rotina pacata de vida simples. Entretanto, tudo isso é desestruturado quando o Major Doryan (Christopher Jones) entra em cena enviado para a ilha a fim de cuidar do batalhão britânico lá instalado.

Em um encontro de acaso, Doryan e Rose instantaneamente se apaixonam e iniciam um affair. Porém, esse caso logo se torna público trazendo inúmeros problemas para Rose e Charles que também se encontram em meio a uma conspiração para armar agentes do IRA contra os soldados ingleses indesejados pela população local.

Já pela sinopse é muito fácil apontar onde está o excesso de A Filha de Ryan: o núcleo do IRA é simplesmente intrusivo e nada orgânico custando muitos minutos de exibição de um filme já muito longo e de ritmo inconstante. Como essa narrativa sempre interrompe o conflito principal do triângulo amoroso repleto de traições repulsivas, é muito difícil alinhar alguma importância verdadeira para o retrato histórico que Bolt pretende traçar.

Também não colabora o fato dos militantes do IRA serem apoiados pelos cidadãos da aldeia que são estupidamente perversos e malignos em uma clara relação maniqueísta, já que todos são postos como violentos insolentes com sede de sangue a todo custo. Para equiparar a estupidez da violência e dos pensamentos odiosos destes personagens, Bolt insere um deficiente mental e físico em jogo, Michael (John Mills), que serve para mostrar um velho clichê do “idiota ser mais sábio que os ‘normais’”.

Infelizmente, a presença de Michael também se torna uma penúria pela fascinação bizarra de David Lean pela ótima performance de John Mills recorrendo diversas vezes ao bobo para inserir pífias tentativas de alívios cômicos que consomem também uma enorme parcela da duração do filme – sua presença se torna mais irritante por causa da inserção repetitiva de um tema circense de gosto duvidoso que Maurice Jarre escreveu pra obra. Limando esses luxos desnecessários, finalmente temos o miolo central que realmente vale a pena ao longo da obra: o triângulo amoroso.

Rose é a personificação perfeita de Bovary sendo uma mulher mimada e privilegiada que sempre se encontra insatisfeita com tudo e querendo algo que nem mesmo ela sabe o que é. Para suprir sua necessidade de aventura, se casa com um homem inocente que realmente nutre sentimentos verdadeiros por sua personalidade apaixonante, mas logo que se depara pela realidade do casamento, foge para os braços de um amante “perigoso”.

A situação repleta de animosidade entre os irlandeses e os britânicos é explanada de modo superficial, mas já oferece um pano de fundo satisfatório para inserir Rose em um jogo muito perigoso ao resolver dormir justamente com o inimigo de seus conterrâneos. Mesmo sendo bastante apressado e esquisito, toda a atmosfera que cerca a motivação de Rose é de completo desejo. A dedicação em estabelecer a personagem por boa parte do primeiro ato torna tudo bastante crível mesmo que nada mais seja desenvolvido além disso, encerrando a personagem em um impasse completo.

O mesmo acontece com seu simpático marido Charles que, ao contrário dos outros aldeões, tenta racionalizar ao máximo as escolhas de Rose se mantendo fiel. Por conta dessa abordagem contrastante tão permissiva de Charles, é fácil o espectador ter grande empatia por ele e rapidamente condenar as ações da protagonista. Apesar de não haver um moralismo por parte do cineasta, as ações tão injustas e egoístas que Rose toma tornam o espectador seu grande inimigo.

O choque disto tudo ocorre no terceiro ato muito interessante que subverte os estereótipos do romance tradicional, além de apresentar consideráveis flertes sobre o tema do suicídio. O clímax compensa com situações violentas bastante surpreendentes que elevam a barra, enfim, realista da obra. O personagem do Major tem sua jornada concluída de modo satisfatório trazendo um drama resumido sobre os efeitos traumáticos da guerra e do estresse do confronto.

Entretanto, se há maior poder de síntese em A Filha de Ryan, certamente está durante a revelação do caráter do pai de Rose que em vez de assumir uma honestidade digna, prefere entregar a filha à própria sorte em um cenário desesperador. Mesmo assim, com um ótimo final repleto de emoções fortes comprovando a eficiência da construção dos personagens principais, o sabor amargo dos excessos narrativos é muito presente. É fácil ficar vencido pelo cansaço em A Filha de Ryan.

O Luxo do Excesso

Marcado pelo sucesso absurdo de Lawrence da Arábia e Doutor Jivago, é compreensível que a MGM tenha dado diversas liberdades para David Lean com esta produção que tinha tudo para ser mais sucinta, mas que acabou se tornando o segundo filme mais longo de sua carreira. Ao contrário dos épicos anteriores repletos de onipotência pelo design de produção e uma infinidade de figurantes, há uma ênfase gigantesca nas belezas naturais da ilha irlandesa com montanhas e vales verdes, além das praias de mar azul cintilante.

É evidente que o cineasta estava completamente apaixonado pela locação ao explorar por tanto tempo essas belezas naturais. Nessa oportunidade, até consegue criar sequências de verdadeiro requinte artístico que dizem muito sem apelar a qualquer diálogo. Nas mais bonitas, vemos Rose caminhando na praia, pisando nas pegadas deixadas por Charles, já sonhando romances futuros com o professor. Até que uma onda surge e apaga todos aqueles vestígios funcionando muito bem como um foreshadowing da chegada do Major.

Já na outra sequência na praia envolvendo pegadas, vemos como Lean subverte o significado outrora romântico, trazendo Charles seguindo os vestígios das andanças de sua mulher com o militar, descobrindo o local onde transaram momentos antes. A frustração é forte a ponto de conseguir manter um conflito que se resolve quando o personagem descobre uma evidência física escondida nas camisolas de Rose.

Outro momento contrastante excepcional se dá quando Rose escapa durante a noite para se encontrar com o Major, deixando Charles na cama. Seguindo o seu ponto de escuta, Lean potencializa a cena romântica com a bela música tema que explode, mas logo a encerra em um corte seco revelando o silêncio desolador que Charles experimenta ao testemunhar sua esposa o traindo a olhos vistos.

Esses momentos estupendos conseguem injetar vida a diversas sequências longas que obviamente não são ruins, mas excessivamente frias com uma atmosfera incômoda ou simplesmente esquisita que removem boa parte do prazer da experiência cinematográfica. Nelas, Lean aposta em enquadramentos sempre muito bem equilibrados, mas que simplesmente não se destacam o suficiente conferindo esse ar de extremos entre genialidade pura e elementos mundanos.

Provavelmente isso seja muito forte durante a sequência do primeiro encontro entre o Major e Rose no bar de Ryan. Através do uso criativo e ritmado de efeitos sonoros e da trilha musical, além de um olhar exagerado sobre um dos elementos cênicos, o cineasta consegue encaixar organicamente um súbito ataque de pânico no militar que somente é resgatado de seu inferno pessoal quando Rose oferece seu toque terno e gentil em sua mão. Enquanto isso é belo, rapidamente Lean usa um desfecho apressado e pouco poético para a cena memorável.

Já em termos de encenação, além de uma inacreditável sequência enorme e complexa envolvendo o resgate de armamentos durante uma tempestade fortíssima que rende imagens estonteantes, temos aquele velho vício do diretor centrado no puritanismo da decupagem clássica, além de manter por boa parte do tempo aquela característica bidimensional de encenação teatral mesmo que, enfim, passe a explorar mais vividamente a profundidade de campo e travellings in no cenário.

O Pecado da Expectativa

Em suma, é perceptível o esforço exaustivo que Lean dedicou para esta obra tentando dar o seu melhor para oferecer imagens interessantes que colaborem efusivamente para colaborar com o texto estranho de Robert Bolt. A Filha de Ryan certamente não é seu melhor filme, mas tampouco é seu pior. Apenas é uma obra repleta de excesso que comete o ledo engano de acreditar que um romance mais intimista necessitava de um escopo tão magnânimo.

Com um cineasta tão apaixonante como Lean, é bem provável que na época muita gente tenha caído no pecado da expectativa. E, ao encontrar algo tão isolado no estilo do cineasta, recorreram a uma reação extremada. Em um filme tão centrado nas paixões mais bestiais da humanidade, ironicamente David Lean se tornou sua maior vítima encontrando tristeza durante e depois das filmagens.

A Filha de Ryan (Ryan’s Daughter, Reino Unido – 1970)

Direção: David Lean
Roteiro: Robert Bolt
Elenco: Robert Mitchum, Trevor Howard, Christopher Jones, John Mills, Leo McKern, Sarah Miles, Barry Foster
Gênero: Drama, Romance
Duração: 195 minutos.

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