O terror talvez seja o gênero mais frágil de algumas das artes, tanto na literatura quanto no cinema. Ele é fácil de replicar, construir e elaborar, assim como é ainda mais fácil de criticar, destruir e cair no esquecimento rapidamente. Qualquer proposta de argumento, por mais ruim que seja, pode transformar-se em um roteiro em potencial. Este A Forca é o melhor exemplo disto. Ele escancara como o gênero está banalizado, um efeito que se agravou muito depois da comercialização do formato found footage. As produtoras descobriram uma mina de ouro com o filme que revitalizou o subgênero, Atividade Paranormal. Algo extremamente barato de se produzir que traz um retorno gigantesco. É difícil perder dinheiro com produções como esta.

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No caso de A Forca, os diretores e também roteiristas Travis Cluff e Chris Lofing, trabalham em algo que poderia se aproximar de uma lenda urbana. O filme inicia com uma gravação cheia de rabiscos exibindo a peça The Gallows que os alunos do ensino médio da escola local preparam. Porém, no clímax da peça, algo dá terrivelmente errado. Um aluno, Charlie, morre enforcado acidentalmente na forca construída especialmente para a peça.

20 anos depois, algum professor teve a brilhante ideia de encenar novamente a peça tabu. Porém, o aluno selecionado para atuar o mesmo personagem que era de Charlie, é simplesmente um péssimo ator. Seu amigo, Ryan, forma um plano para poder livrar Reese da maior vergonha de sua vida. Na noite que antecede a estreia da peça, Reese, Ryan e sua namorada, Cassidy, invadem o auditório onde o cenário está montado com o intuito de destruir a peça e cancelar o evento. Porém, após algum vandalismo, algo dá terrivelmente errado. O fantasma de Charlie os amaldiçoa e passa a persegui-los por tentarem destruir a peça. Aquela fatídica noite se torna o pior pesadelo imaginável para os três personagens.

Com a sinopse, deve ter dado para perceber que A Forca seria uma excelente história que um adolescente bêbado contaria para seus amigos durante uma noite fria em qualquer acampamento meia boca. Porém, como filme, essa proposta se torna risível exatamente por nunca justificar sua mitologia ou tentar ser algo próximo do racional – inclusive no modo de filmar.

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De início, o espectador é obrigado a acompanhar os oitenta minutos de projeção com os personagens mais irritantes que já tive o desgosto de conhecer quando se trata de filmes de terror. Todos baseados em estereótipos que já foram explorados exaustivamente. Os personagens, histéricos, simplesmente não acrescentam nada, a empatia torna-se impossível. Apenas cumprem seu propósito para divertir o sadismo do público.

Sobre a história, ele infelizmente tropeça por jogar as coisas na tela sem alguma preocupação em estabelecer algum firmamento antes. Por exemplo, nunca é justificado porque estão encenando novamente uma peça que já trouxe muitos problemas para a escola. Já outras, beiram o ridículo. Quando os personagens resolvem destruir o cenário, eles têm a brilhante ideia de chutar algumas plantas que configuram a decoração do lugar. Essa encenação chega a ser cômica, pois as plantas apenas se espatifam no chão, mas nem chegam a quebrar os vasos.

Os dois roteiristas também precisam entender que os filmes found footage em geral exigem um bom trabalho de diálogos. Aqui os diálogos somente passem a atingir o nível do aceitável quando o terror realmente começa. Os vinte minutos introdutórios são sofríveis pelo amadorismo da escrita e também por se centrar a verborragia no ator mais fraco do filme – Ryan Shoos.

O único ponto positivo do texto da dupla é a reviravolta final – algo bem característico de contos de terror que postam na internet, mas que ainda não fora explorado apropriadamente pelo cinema.

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Já na direção, a dupla se sai melhor, porém é bom lembrar como o conceito do found footage é extremamente funcional para o terror. Com a transferência da perspectiva para a primeira pessoa, o estresse e o medo de toda a encenação proposta por esses filmes tornam-se muito mais eficientes, pois o espectador não está mais na posição privilegiada da terceira pessoa acompanhando tudo com distância. Nesse caso, o terror é palpável, algo capaz de nos atingir. Ou seja, é algo fácil criar a tensão almejada com esse formato.

Pois é justamente isso que os dois fazem muito bem. Eles assimilam a linguagem do formato de modo competente – não há dúvidas disso. Alguns enquadramentos bem ensaiados e muitos movimentos lentos de câmera configuram a tensão crescente na cena. Mas é somente isso, a atmosfera que aterroriza. O design de produção é excelente em conseguir tornar os corredores abandonados, as salas e outras localidades da escola em cenários completamente aterrorizantes com poucos elementos. A fotografia também auxilia bem ao trabalhar com poucos pontos de iluminação de cena – o melhor exemplo é a bela modelagem, falseada obviamente, da luz vermelha que inunda uma escadaria enquanto um personagem está em prantos.

Com essa boa antecipação e criação de atmosfera, os dois diretores começam a falhar quando resolvem simplesmente destruir essas características. Isso ocorre, pois em diversos momentos, eles reiteram a cena com pontos de vista diferentes. Uma vez que os personagens se separam em breves momentos, eles decidem exibir o que aconteceu com cada um deles. Uma cena gravada com a câmera 1 acompanhando um grupo de personagens e depois outra gravada com a câmera de algum telefone celular de outro personagem. Porém, ao exibir o que aconteceu com o personagem x a partir desse ponto de vista, eles simplesmente destroem o terror que seria causado na cena seguinte.

É simples. Uma vez que o espectador tem ciência do que aconteceu, o mistério desmorona, e graças a falta de empatia com os personagens, ele também não liga para o que pode ocorrer com eles logo em seguida.

Eles também se firmam em muitas muletas de encenação que infelizmente são utilizadas em demasia pelos filmes de terror atuais. A maldita sonoplastia exagerada dos sons graves. Com o intuito de causar o incomodo na plateia, essa frequência de som é o sinal de que um susto está por vir. É chato observar isso, pois somente o silêncio já é suficiente para gerar a tensão com a encenação correta. Graças ao uso recorrente deste macete, o espectador já se prepara para o susto… Ou seja, não há o susto verdadeiro. Quando eles realmente conseguem assustar, trata-se apenas de jump scares. Sustos oportunos e gratuitos – famosos em vídeos idiotas do YouTube.

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Afundando de vez seu terceiro ato, a partir do momento que se revela o espectro, toda a sensação de medo e insegurança vai embora. Isso acontece por causa do visual do personagem Charlie, o fantasma camarada. É simplesmente tosco. Uma fantasia de segunda mão do infame inimigo do Batman, Espantalho. Além disso, a encenação que envolve o personagem também não ajuda, pois ele sempre aparece em cena empunhando uma forca ao lado de seu corpo. Pela terceira vez que isso acontece, não é possível conter o riso – acredite, o resultado final é muito brega.  

Não satisfeitos, os diretores mandam todo o trabalho pelos ares com a última cena do filme. A síntese do quão brega e ridículo este filme é.

A Forca é a síntese do que há de errado com o cinema de terror contemporâneo. Um ótimo marketing e um péssimo resultado final com o uso de diversas técnicas e formatos já dúbios do gênero que procura atalhos e fórmulas mágicas para o sucesso. O raciocínio estúpido de seus personagens, a verborragia intensa de Ryan no primeiro ato, a falta de empatia, o tosco antagonista clichê, a história que mal consegue se sustentar e a autodestruição completa de atmosfera são os responsáveis pelo fracasso que esse filme obteve tanto em crítica como em retorno de público.

Logo em seu início, há um diálogo no qual um personagem diz: – Uau, eles realmente fizeram um ótimo trabalho na Forca. Realmente, no adereço que enfeita o cenário, o trabalho é bem feito. Agora quando se trata do filme, esse elogio passou a anos-luz de distância.

De fato, uma excelente ironia.

Nota: ★ ½

P.S.: para quem não sabe, o infame joguinho Charlie, Charlie – similar com o jogo do compasso, que deixou escolas e pais em pânico e revelou o quão fácil é gerar uma histeria coletiva na sociedade, era a principal peça de divulgação do filme.

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