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A Trilogia das Cores de Krzysztof Kieslowski já conquistou a atenção do cinema mundial desde a primeira parte interessantíssima em A Liberdade é Azul. Tratada como uma trilogia temática e antológica, trazendo diferentes personagens e histórias para trazer experimentos cinematográficos que acabariam por resultar na obra-prima máxima da vida do diretor.

Esses “experimentos” trabalhariam em cima dos princípios iluministas: liberdade, igualdade e fraternidade, em histórias inspiradas pelas cores da bandeira francesa: azul, brando e vermelho, respectivamente. A primeira parte trouxe as características básicas que serviriam como pilares conceituais para os próximos novos filmes: intenso trabalho com a cor do título e a subversão pela da estrutura convencional de um gênero cinematográfico.

Impotência como Potência

Se em A Liberdade é Azul tínhamos uma espécie de “anti-drama”, com A Igualdade é Branca temos uma “anti-comédia”. Em muitos níveis, Kieslowski e seu amigo roteirista Piesiewicz realizam uma antítese do que haviam feito no filme anterior. Nessa história, acompanhamos a desafortunada jornada de Karol, um polonês cabeleireiro que enfrenta um triste divórcio após poucos meses casado com Dominique (Julie Delpy).

A bela mulher requisita a separação por conta da impotência sexual que não permite a consumação do casamento. Perdendo o processo, mesmo ainda apaixonado pela ex-esposa, Karol se vê completamente abandonado em Paris e quase foragido da polícia por conta de algumas armações criminosas que Dominique orquestra contra ele. Desolado, encontra refúgio nos metrôs parisienses até conhecer um compatriota, Mikolaj, que o ajuda a retornar para a Polônia e iniciar um plano de vingança contra sua ex-mulher.

Kieslowski aposta no tom absurdista conceitual aqui. Se antes tínhamos uma atmosfera densa repleta de simbolismos e silêncios, o diretor aposta no texto ácido bastante verborrágico com um tratamento de direção bem mais simples, interessado apenas em traduzir o texto enquanto emprega realismo visual. O absurdo e o realista então se tornam contrastados de modo sutil, já indicando que o tema da Igualdade também será desconstruído entre ideias opostas, mas muito próximas entre si.

Apesar de ser uma história de vingança bastante simples que aposta em clichês eficientes para garantir a empatia do espectador para Karol, demonizando rapidamente Dominique, ele requisita mesmo desse tom ridículo e estereotipado para funcionar, afinal é comédia repleta de tons sombrios e polêmicos.

Mesmo sendo bem mais narrativo e interessante que A Liberdade é Azul, a história deste se vale de muitas conveniências narrativas, principalmente quando o protagonista retorna para a Polônia e passa a trabalhar no plano contra sua ex-mulher. É sim algo muito divertido de ver e revelador para um personagem que foi apresentado como um perdedor completo, garantindo uma jornada de superação e inteligência sádica que poucas comédias oferecem com tanta energia.

O problema, talvez, fique registrado nas elipses concentradas no terceiro ato para manter o filme modestamente curto. Isso resulta em um avanço quase inacreditável de comportamento e riqueza para Karol, além de deixar a narrativa um pouco mais fragmentada. Mas a ideia geral do longa é tão inteligente que isso não chega a incomodar, principalmente pelo plano muito excêntrico do protagonista.

Como há sim uma evolução do personagem e até mesmo uma questão genuína sobre o drama doloroso que é viver, o espectador é recompensado com essa atmosfera predecessora de Fargo dos irmãos Coen muito presente em A Igualdade é Branca, mesmo não havendo a engenhosidade de planos criminosos aqui. O fato é que Kieslowski quer descontruir a comédia e o conceito de igualdade.

A comédia é desfeita pelo tom repleto de estranheza e constrangimento que são tão presentes em diversos filmes dos Coen como Arizona Nunca Mais, Um Homem Sério, Ave César, entre outros. O exemplo é apenas para que você entenda melhor o feeling do longa, pois o Cinema é a arte do indizível – funciona perfeitamente no audiovisual (óbvio). Já a Igualdade é desfeita em níveis superficiais e profundos. A comédia do longa, por si, já é desigual pelo tom ora popular, ora sombrio e intelectual.

Os personagens sofrem transformações que desiguais que fogem da igualdade estacionária em narrativas clássicas – personagens de uma nota só. E, por fim, há a desigualdade da relação extremamente absurda entre Karol e Dominique. O amor entre eles é sempre desigual com um amando e outro sentido completo desprezo pelo cônjuge. O sexo é desigual entre a excitação e impotência. A concretização da vingança aumenta completamente a desigualdade de situações e proporção das ações que um inflige ao outro, mas que, de modo absurdo, consegue equiparar as paixões e reviver o amor – isso por si, é simplesmente genial.

Aliás, o próprio casamento, em primeiro instante, é desigual pela nacionalidade distinta entre o casal. E isso dialoga diretamente com o tema da Unificação da Europa que está presente em toda a trilogia – além de outras conexões muito precisas entre um filme e outro. Kieslowski apresenta uma visão não muito otimista da unificação que certamente norteará desigualdades entre as futuras relações dos países em prol do coletivo.

Com um texto tão bom e uma atmosfera propícia para o absurdo constrangedor e também melancólico, é uma pena ver Kieslowski trazendo um nível imagético inferior ao de A Liberdade é Azul para A Igualdade é Branca. Embora o trabalho com a cor seja propositalmente genérico e impotente com o branco, a unificação de todas as cores primárias e ainda assim, tão sem graça, toda essa abordagem serve para complementar nosso protagonista, um homem realmente sem graça.

Ele é uma pessoa tão vazia que só encontra sentido no viver quando trabalha para prejudicar um terceiro, finalmente descobrindo um fervor na existência. O personagem sempre está envolvido com o branco espalhado em diversos cantos das locações e cenários, além de outros tons gelo e bege simbolizando o espectro de opacidade e simplicidade de Karol. Mesmo “transformado”, o branco é presente, ainda indicando que, internamente, Karol se trata do mesmo homem medíocre e sem amor próprio do começo do longa.

O seu momento “mais colorido” se dá justamente em uma cama, no clímax do longa, totalmente envolvido pelos lençóis de vermelhos vibrantes que evocam paixão selvagem e potência sexual. Aqui, em uma sacada cômica bem sacana, Kieslowski encerra a sequência durante o orgasmo ao inserir uma tela inteiramente branca indicando o uso artístico mais prazeroso dessa cor.

De fato, o uso da cor é muito inteligente, mas em termos de linguagem, além da boa surpresa de uma montagem não-linear em certo momento, Kieslowski não ousa tanto com o trabalho de câmera fugindo a todo custo do visual poético de outrora para inserir um realismo decadente mesmo enquanto flerta com temas mais sombrios como a depressão, o crime e a morte. A função da linguagem como extensão plena do personagem sem-graça é proposital, mas às vezes o conceito acaba por prejudicar sua imaginação cênica.

A Farsa da Igualdade

Muito mais narrativo e interessante, é fácil gostar de A Igualdade é Branca. Sua história de vingança com personagens excêntricos, além da atmosfera que prenunciaria um estilo inteiro marcado pelo “autorismo” dos irmãos Coen, temos uma peça absurda muito inteligente nesse miolo de trilogia que mantém todo o conceito intelectual intacto enquanto traz uma pequena tragédia de amor, ciúmes, vingança e muita, mas muita desigualdade.

Inegável, a esse ponto, não concordar com o óbvio: Kieslowski é gênio.

A Igualdade é Branca (Trois coueuors: blanc, Polônia, França, Suíça – 1994)

Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajus, Jerzy Stuhr, Aleksander Bardini
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Duração: 91 minutos

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