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Andrei Tarkovsky é um poeta. Se a poesia pode ser definida como a arte de compor ou escrever versos com associações harmoniosas de palavras, ritmos ou imagens, então Tarkovsky pode ser classificado como um dos poucos na História do Cinema que melhor fez jus a sua definição enquanto linguagem de representação para fins estéticos ou críticos.

Como um verdadeiro esteta e experimentador, compete a Tarkovsky o difícil terreno de elaborar uma obra que compreenda com sua poesia aspectos metafísicos – mesmo que tematicamente o diretor só iria adentrar nesse campo mais adiante em sua carreira – que possibilitem a transcendência do mundo fático. Apesar de imperfeita, Tarkovsky deixa essa sua mensagem no mundo do Cinema com A Infância de Ivan, um filme onde a não linearidade de sua narrativa e uma atenciosa concepção imagética dão o almejado sentido estético na hora de definir o texto como poético.

Na hora de estruturar sua arte, Tarkovsky, o artífice, partindo do princípio da cruel realidade advinda da Segunda Guerra, segue um garoto de doze anos trabalhando como espião para o front soviético ao passo que constantemente cruza as linhas inimigas nazistas. Por parte do texto e da montagem, Tarkovsky divide em etapas personagens e pontos de vista, brincando com a temporalidade, o onirismo e com o poder de um dos fios substanciais e temáticos – utilizado à excelência em algumas de suas produções seguintes – mais visados por grandes artistas, a memória.

Mesmo com diálogos duros contextualizados com a realidade fria que se apresenta pelos eventos oriundos da ocasião, eles mais servem como mero complemento ao grande atrativo do filme: a possibilidade de se contar o que o artista quer que o público veja – ou interprete – através das imagens, do domínio absoluto dos elementos que compõem a mise-en-scène. O artífice cinematográfico compreende que a câmera não somente deve situar o espectador no contar de uma história mas sim contá-la por conta própria e oferecer significância em seus movimentos, ângulos e planos. Talvez a decisão de criar essa chave para desvendar a poesia afaste o público do personagem principal e dos coadjuvantes menos trabalhados, não obstante, um equívoco. Desprender a obra dessas intenções seria exauri-la de sua alma.

crítica a infancia de ivan

Os estudiosos de Tarkovsky sabem que o diretor iria se aprofundar em elementos oníricos e espirituais doravante em sua carreira, entretanto o flerte na obra analisada é evidente e se comporta de forma mais estrutural do que explícita em momentos específicos ou verbalizadas pelo texto. A realidade é tão cruel que o símbolo da fé personificado em uma cruz inclinada é enquadrado sob névoas, fumaças e escombros quase que a consumindo completamente, não fosse a contra-luz e o canto dos pássaros atrás.

O onirismo também se faz presente durante as cenas na floresta com a personagem Masha em um amor belo, quase idealizado, mesmo em face da tragédia. Talvez por isso Tarkovsky faça questão de um contra-plongée do casal se abraçando sobre uma divisa. Entretanto, a floresta igualmente define um momento de intranquilidade e incertezas durante o final do filme. Não há glamour ou idealismos, apenas as consequências da guerra que veríamos adiante. Artifícios do cenário como árvores, postes, escombros e espelhos e elementos naturais como a água constantemente trabalham em favor de uma beleza que raramente atingiriam seus objetivos sem parecerem fabricados ou encenados propositalmente não fosse o talento do diretor para captar o genuíno em qualquer circunstância.

Há uma sequência estarrecedora no bunker e incômoda por uma sonoridade gritante, ecoando um pesadelo, onde Tarkovsky quebra a barreira de seu onirismo esbranquiçado, para dar lugar somente às reações dos personagens ao escuro absoluto em uma transição inquietante que não mais é repetida em nenhum outro momento. Os nazistas em questão sempre são retratados como figuras ameaçadoras e enervantes, herança direta do realismo soviético. O som se transforma num contraponto total, aspecto que nos filmes de Tarkovsky nunca reafirma o que já está sendo visto, mas o reconhece como um fator presente do acontecimento/ambiente – gravado naturalmente ou não. O bunker, central em grande parte da obra, antes acolhedor e geograficamente estabelecido nos cantos mais necessários, é a fonte de pavor onde escritos na parede servem como aviso de que a beleza nessa realidade nunca será plena.

O cinegrafista de Tarkovsky, Vadim Yusov – já amigo e seu colaborador em seus curtas-metragens – imprime uma roupagem visual expressionista no uso de luz e sombras que divergem imensamente nas sequências de sonho mais claras, com ausência das sombras e as realistas e sujas com a sombra tomando conta de grande parte do ambiente. Essa disputa entre retratar o onírico e o realista é dificílima de se distinguir mas Tarkovsky entende profundamente o processo e não deixa nenhum dos dois fronts se limitarem a suas formas óbvias. Diversas vezes, há iluminação no bunker influindo sobre determinado personagem ou refletindo o movimento da água. Um trato minimalista e estetizado na imensidão de um gigantesco evento histórico.

Durante os sonhos efetivos do protagonista, o onirismo assume uma formatação ainda mais visual, em particular, com uma carroça transportando maçãs e as duas crianças em uma jornada que mais aparenta se tratar de um momento angelical onde a chuva, os sorrisos, a paz reinante no cenário da caminhada auxiliados pela onipresença do brilho das árvores em um efeito curto circuito ditam o tom da concepção. Afinal, o filme abre e termina em sonho. Ou quase isso. Se na abertura, temos a certeza de se tratar do mundo onírico e de um gancho para compreendermos mais o passado de Ivan e suas motivações que viriam a definir sua personalidade, ao final, frente às circunstâncias, o que seria aquele relance de momentos de brincadeiras infantis e correria na água? Uma memória, um outro sonho entrelaçado por um desejo de um passado que nunca existiu ou Ivan, de fato, encontrou o Paraíso? A presença de uma árvore morta revela, talvez, dependendo do analista, a condição essencial da cena.

crítica a infancia de ivan

Eis que descobrimos a graça de se ler Tarkovsky. Cumprindo seu objetivo, nos tornamos co-criadores de seus filmes, onde as obras não oferecem respostas prontas e somos obrigados a montá-las conforme absorvemos o que vemos. Depois de uma segunda assistida, fica claro porque nem sempre a primeira pode prover uma perspectiva concreta: a obra só se revela no final – exigindo da capacidade de reflexão – assim como as informações que carrega consigo, de modo que para decifrarmos é necessário que já tenhamos assistido para que na repetição a memória ecoe em um crescente e consigamos entender o que Tarkovsky gostaria de transmitir. É um trato de mimetismo de um entendimento retrospectivo em uma narrativa elíptica dos mais refinados.

Sua paixão pela linguagem cinematográfica possibilita que testemunhemos uma verdadeira aula sobre como e quando se utilizar de panorâmicas ou planos fixos para nos situar dentro de um ambiente. O diretor entende que uma panorâmica horizontal pode falar mais a respeito do recinto do que um plano fixo – este usado normalmente para as representações dos simbolismos mais duradouros. Os travellings que se opõem às panorâmicas também possuem uma função narrativa clara quando a escala dos cenários é acentuada ao sairmos do bunker. As transições por close-ups que viriam a se tornar uma de suas marcas são revestidas pelo objetivo de alternar entre o mundo real e onírico na maior parte do tempo, gerando uma intencional confusão espacial e temporal no espectador, ressaltando o subjetivismo de trechos da narrativa.

Apesar de não ter sido um projeto original que Tarkovsky desenvolveu desde a concepção, A Infância de Ivan não poderia ser mais revelador. Um artista capaz de trabalhar o idílico e o realista em proporções igualmente competentes e obter êxito em cada um dos aspectos possíveis de um feito cinematográfico. Se a obra é feita com a arte e a arte é a poesia enquanto o poema, a obra, então Tarkovsky, como poeta, é o maior artífice do período de “Degelo” no cinema russo. Um cineasta que se recusava apostar em simbolismos óbvios e que, proveniente de uma educação cultural rebuscada, prezava pela organicidade do mecanismo que envolve uma produção ao transmitir sensações e interpretações com a crença de que uma vez pronta, a obra de um artista se liberta de seu criador e assume seu papel como um instrumento vivo passível a diferentes construções de diferentes criadores e como um objeto de estudo fascinante.

A Infância de Ivan (Ivanovo detstvo – União Soviética, 1962)

Direção: Andrei Tarkovski
Roteiro: Andrei Tarkovski, Mikhail Papava, Andrei Konchalovski (baseado na obra de Vladimir Bogomolov).
Elenco: Nikolay Burlyaev, Valentin Zubkov, Evgeniy Zharikov, Stepan Krylov, Nikolay Grinko, Dmitri Milyutenko, Valentina Malyavina
Gênero: Drama

Duração: 95 min.

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