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Dentre tantas adaptações cinematográficas tiradas de livros, A Insustentável Leveza do Ser, clássico romance filosófico de Milan Kundera, seja um dos mais polarizadores com a audiência. Porém, como sempre lembramos, há diferenças substanciais entre as mídias que sempre acabam por desagradar os admiradores mais inveterados da obra original.

Marcado como um projeto importante desde o início, havia certa pressão na produção do longa, afinal adaptar um épico da literatura moderna seria algo muito complexo e complicado. Saindo de sua grande obra-prima com Os Eleitos, Philip Kaufman segurou as pontas em investir no projeto conseguindo de modo infame estender a duração do filme até a marca expressiva das três horas de projeção para dar conta de trazer questões centrais do livro.

O fato é que A Insustentável Leveza do Ser passa longe de ser uma história banal. Ele traz um profundo teor filosófico de existência, além de trazer um retrato poderoso sobre a Primavera de Praga e das miseráveis consequências da ocupação soviética na Checoslováquia em 1968 que durou até a Revolução de Veludo em 1989 para a libertação do país. De uma boa forma, o filme consegue capturar isso e muito mais.

Amor e Sexo

Milan Kundera esteve bastante envolvido no processo de adaptação feito pelo também diretor Philip Kaufman e de Jean-Claude Carrière. Em parte, é possível sentir a presença do autor nas escolhas corretas em focar a narrativa apenas nos três personagens principais: Tomas, Tereza e Sabina. Em primeiro momento, acompanhamos a vida de Tomas, um neurocirurgião bem sucedido em Praga. Sem apego a nada e ninguém, o médico aproveita sua juventude entre diversas aventuras sexuais. De suas muitas amantes, há uma predileção pela artista plástica Sabine, uma pessoa tão “leve” quanto ele.

Porém, sua vida acaba mudando completamente ao conhecer Tereza, uma jovem ingênua que necessita de uma grande aventura para poder viver e crescer. Os dois se apaixonam à primeira vista e acabam juntos. O único problema é que Tereza é a única comprometida pela monogamia, já que Tomas preserva seu estilo de vida mulherengo. Entretanto, esse jogo de amor e traição é interrompido pela invasão soviética em Praga, os obrigando a fugir para Genebra.

De uma grande história, se faz um grande roteiro. Com Kaufman totalmente envolvido na adaptação, nota-se como a direção do filme trabalha para complementar os vícios do roteiro ao longo das três horas de exibição. Ao contrário de um roteiro convencional e muito quadrado, os roteiristas deixam os personagens livres para se revelarem ao público, pouco a pouco, sem a necessidade da exposição para encurtar o tempo da obra.

Obviamente, isso acaba tornando a experiência de consumir a obra bastante arrastada, apesar de se tratar de um ótimo filme. O primeiro ato é o que mais sofre, já que dura um pouco mais da primeira hora do filme. Tomas, trazido como um intelectual e também muito competente no ofício médico, é um personagem menos complexo que as duas mulheres que ele convive. O personagem é justamente a metáfora filosófica principal que dá o título ao longa, da leveza do ser.

É através dele que temos a exploração cruel da diferença do conceito de amor e sexo, do espírito “pesado” e do “leve”, do amar e do ficar, do prazer e da obrigação, da moral e da ética de sua filosofia. Esse é o primeiro papel que Daniel Day-Lewis assume como protagonista. É conhecido que o ator interferiu ativamente no roteiro para que seu personagem ficasse imperfeito até o final do filme. De fato, não temos uma jornada entre o certo e o errado em suas atitudes, mas claramente Tomas é alguém imperfeito, egoísta, orgulhoso e mentiroso. Ele finge não se importar enquanto temos diversas atitudes que indicam a hipocrisia do personagem que até mesmo se recusa negar palavras ditas no passado para conseguir manter seu emprego.

Lewis mexeu tanto nessa psique do personagem que acabou por prejudicar sua atuação. Apesar de lançar olhares penetrantes que conseguem transpor toda o seu apetite sexual, além da pose de galã muito bem elaborada sem forçar nenhum clichê do gênero, é um fato que a atuação acaba se tornando muito passiva ao não ter muita variedade de reações e expressões. Tomas simplesmente vive em um universo próprio até mesmo quando é confrontado por Tereza sobre suas constantes traições.

É justamente nesse ponto que o filme brilha, na problemática e do sofrimento de Tereza em amar um homem que não lhe é fiel. Ela é a perfeita antítese de Tomas, necessita de contato constante – tanto que acaba conseguindo uma cadela no dia do seu casamento para lhe fazer companhia, precisa trabalhar, ser funcional e viver em apego ao real, ao amor palpável visto por ela como o sacrifício da monogamia. Em questão de pouco tempo, a vemos se tornar uma grande fotojornalista. Um fato que impulsiona cenas incríveis que colocam a personagem no limite.

Tereza é uma personagem muito bem escrita e ainda melhorada pela atuação estupenda de Juliette Binoche que traz, ironicamente, uma leveza para a personagem insegura, extremamente ingênua e apaixonada. Mesmo crescida, há um espírito inocente e inofensivo em Tereza que é encantador, causando profunda empatia do espectador pelo seu sofrimento e tolerância. O que mais surpreende é o fato do quão disposta a personagem é para seguir contra a sua natureza “pesada”. Ela tenta ser leve até as últimas consequências, mas falha em todas. Apesar disso, vemos o amor dela como genuíno e real. O que faz então nós percebemos um amor entre os dois sendo que Tomas é tão desprendido da moça?

Basicamente, pelo contraste entre sua relação com Tereza e Sabina. A amante é a mulher que veio antes, mas mesmo assim continuou sendo a outra mulher da vida de Tomas. Apesar dela ser desprendida dos lugares e das coisas, nitidamente há uma forte paixão que deseja que Tomas seja somente dela. Sabina ganha mais relevância para a história até mesmo a ganhar uma sequência inteira mostrando o encontro de um novo amor na figura de Franz.

A situação entre Sabina e Tomas é e não é distinta da sua relação com Franz. A mulher desprendida novamente é alvo de uma forte paixão, mas também continua sendo a “outra mulher” já que Franz é casado. O desenlace disso tudo é bastante forte, apesar de previsível. Sabina mostra sua brutal diferença da leveza do seu ser que é totalmente distinta da de Tomas. Ela nunca ficará com um “peso” na vida, mesmo que ele lhe traga felicidade e sacrifique tudo por ela.

Enquanto as relações dos homens com Sabine sejam pouco memoráveis em si, limitando sempre a inevitável tensão sexual que a mulher emana, há uma fortaleza narrativa quando a vemos interagir com Tereza. Na melhor cena do longa, vemos as duas interagindo em um ensaio fotográfico nu que Tereza pretende realizar. O contraste das atuações de Juliette com Lena Olin é poderosíssimo a ponto de estruturar toda essa sequência sem a necessidade de diálogos. É erótico, é perturbador e muito denso, mas iremos explorar isso com mais tranquilidade em um parágrafo apropriado sobre a direção de Kaufman.

A narrativa em si, apesar de jogar os personagens no meio da Primavera de Praga, é bastante simples. O foco inteiro está nas relações entre eles, sem apostar em pirotecnias de reviravoltas impossíveis. São vidas humanas enlaçadas entre amor e sofrimento retratado de modo realista. As coisas demoram a acontecer pela dinâmica do filme em repetir situações para descascar mais a complexidade do trio. Isso é levemente irritante em tantas saidinhas de Tomas, quando já fica mais do que claro sobre a infidelidade do personagem agindo em círculos, um prisioneiro completo de seus vícios. Há a repetição ingênua de situações ou simplesmente de profundo marasmo narrativo onde nada parece avançar.

O ato mais, digamos, “cinematográfico” com certeza é o final, focado no retorno dos personagens à Praga já sob a ocupação soviética. O roteiro claramente assume tons políticos que Kundera traz de modo mais abrandado no romance, fazendo o longa ser totalmente contra o regime de opressão que havia se instalado na Checoslováquia, causando a miséria de uma nação. Temos problemáticas maiores com paranoia sobre segurança, do rígido controle do governo, do estado mais selvagem e violento da população que interage ativamente com os dois protagonistas.

Há uma beleza nessa situação que os dois se encontram, situada no fim do segundo ato, com Tomas abdicando de sua própria liberdade para viver com a mulher que, de fato, ama. Situações rimam e tornam os dois ainda mais complexos e vivos diante da ficção. É um ato realmente muito bom que traz novidades a respeito de Tereza, ao destruir toda sua felicidade e inocência. O final do longa, envolvendo um belíssimo monólogo de Binoche sobre o amor verdadeiro, puro e eterno, somente se perde ao alternar a ordem dos eventos que desenlaçam toda essa belíssima história.

O Leve e o Pesado

A direção de Philip Kaufman é o cerne em realizar A Insustentável Leveza do Ser um grande filme. Kaufman, já muito bem calejado após a conquista artística que foi Os Eleitos, estava muitíssimo inspirado para realizar um dos seus melhores trabalhos. Tanto que a apresentação dos personagens é sempre muito certeira. Até mesmo na de Tomas, há uma inusitada mudança de ponto de vista para inserir talvez a única piada do filme.

O que mais chama a atenção imediatamente é o uso de espelhos na residência de Sabina – isso é uma constante em todo o filme, mesmo que tenhamos locações diferentes ao longo do filme. Os espelhos trazem uma nova complexidade a personagem de Sabina. A metáfora é bastante óbvia de certo modo. A mulher vive de assumir papéis de “reflexo”, sem nunca conseguir encarar um compromisso real. Sabina é sempre um reflexo das esposas que Tomas e Franz desejam, mas nada é realmente sólido nesses relacionamentos. É apenas desejo e sexo.

Apesar disso, Kaufman é muito inteligente em montar contastes delicados para as sequências cheias de química e muito erotismo. Apesar de acompanharmos mais Tomas em suas aventuras sexuais, Franz trata Sabine com a mesma delicadeza erótica e apaixona que víamos com Tomas. Mesmo sendo um protagonista vidrado em sexo, o médico trata as mulheres como delicadas rosas, do mesmo modo que trata Tereza, sua esposa, sendo apenas um pouco mais pervertido.

Isso acaba tornando Tomas mais ambíguo sobre suas declarações sobre a diferença do amor e do sexo. Apenas vemos essa distinção com um contraste tenebroso da cena quando Tereza decide se tornar tão “leve” quanto Tomar. Não há erotismo, paixão ou carinho. Há apenas o “foder”. Obviamente, isso fere o emocional desequilibrado de Tereza.

Um dos maiores acertos de Kaufman é a apresentação de Tereza ao público. Ela surge misteriosamente em uma piscina dentro de um spa de hidroterapia enquanto outros senhores jogam xadrez – Tomas observa tudo de perto. Quando ela mergulha, as ondas da água desequilibram as peças do jogo, derrubando uma delas, e imediatamente chamando a atenção do protagonista.

Nessa metáfora visual que também é um foreshadowing, o diretor infere que a moça simplesmente mudará as regras do jogo, mudará a vida de Tomas. Apesar dele continuar infiel, sua chegada realmente muda a vida do médico de modo substancial. Kaufman investe continuamente nesses jogos de simbologias, mas o mais poderoso deles envolve as cores da bela cinematografia de Sven Nykvist.

Isso envolve a recriação de Praga nos anos 1960, tanto pré quanto pós-invasão soviética. O contraste das cores mais vivas e da luz potente nas cenas do primeiro ato transformam o otimismo que cercava a população a respeito da liberação do país e da reconquista da autonomia da pátria. Tudo muda quando os personagens retornam à cidade, agora deserta, amedrontada, cinzenta e sempre nublada, abrandando a iluminação. A direção de arte também transforma os cenários de modo ferrenho, empobrecendo e sujando tudo. O clima inóspito é depressivo.

Kaufman não é conhecido pela sua encenação caprichada. Apesar do longa não ser tão envelhecido na linguagem visual, o diretor consegue criar cenas mágicas de tão magnéticas apenas apostando nos olhares trocados entre os personagens durante os diálogos. Há sempre muito romantismo nas cenas que trazem uma atmosfera real das relações amorosas dos personagens. Nessa grande sacada de decupagem com olhares, o diretor traz um retrato muito criativo quando os personagens definem se é possível sacar se alguém é um canalha apenas pelo rosto. Uma boa cena que interage diretamente com o espectador, nos removendo da passividade.

Mesmo que tenhamos boas surpresas como as mudanças estéticas para a sequência da Primavera de Praga, com a inserção de filmes históricos de oito milímetros da época, ou da cena na qual a arte das fotografias de Tereza é completamente subvertida pelos soviéticos, nada supera a genialidade que testemunhamos na melhor cena do longa: o ensaio fotográfico de nudez que Tereza tira de Sabina como modelo e vice-versa.

Basicamente funcionamento sem diálogos, Kaufman aposta muito no talento exemplar de suas atrizes conseguindo resultados sólidos. Enquanto a tímida Tereza tira as fotos de Sabina, sentimos uma tensão de leve inveja, pois sabe que a mulher é amante do marido. Em seus pensamentos, Tereza deseja aquele corpo, deseja ser “leve” e mais desinibida, de deixar seu lado selvagem fluir. Mas tudo é negado pela timidez com Binoche sempre se escondendo atrás da máquina fotográfica. Apesar disso, há uma tênue e bela tensão sexual entre as duas que nunca é consumada.

Já quando Sabina toma a câmera e passa tirar fotografias de Tereza, há um novo tipo de tensão, um ressentimento e violência assumem a atmosfera. Ela deseja tanto ser “pesada” para ficar com Tomas, como quer a vingança contra ele, em ferir o corpo de sua esposa, consumi-lo e submete-lo às suas vontades e seus prazeres. Ser dona de Tereza é ser dona de Tomas. Mas tudo é interrompido quando Franz chega e oferece uma parte do desejo que a mulher possui e que nunca será concretizado.

Talvez, sua única falha como diretor, esteja na ordem bizarra dos acontecimentos do final do terceiro ato. A montagem toma uma escolha questionável ao colocar o carro na frente dos bois, perdendo um pouco do impacto da beleza que a cena final teria.

 

A Miséria do Amor

Philip Kaufman merece muito reconhecimento por ter conseguido trazer uma história tão complexa e densa como A Insustentável Leveza do Ser para as telas, ainda mais em um ferrenho sistema de estúdio já acostumado a blockbusters milionários rentáveis. Após sua estreia, o filme foi um enorme fracasso de bilheteria e não parece ter conquistado os fãs da obra de Kundera.

Depois de tanto tempo, certamente digo que é um filme que merece ser revisitado com outros olhos. Apostando no cerne principal das relações daquele trio, Kaufman consegue envolver as mensagens filosóficas do longa, além de trazer uma boa história. Com atuações excelentes – mesmo que seja a performance mais fraca de Lewis que eu tenha visto até então, cenas marcantes e uma bela fotografia, as três horas de exibição se tornam um grande prazer em vez de um fardo.

A Insustentável Leveza do Ser consegue ser o que mais necessitava: romântico e leve.

A Insustentável Leveza do Ser (The Unbearable Lightness of Being, EUA – 1988)

Direção: Philip Kaufman
Roteiro: Philip Kaufman, Jean-Claude Carrière, Milan Kundera
Elenco: Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, Derek de Lint, Pavel Landovsky, Stellan Skarsgard
Gênero: Drama, Romance
Duração: 171 minutos.

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