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Armando Iannucci consegue fazer comédia através da política como poucos. Tendo escrito e dirigido inúmeros episódios de The Thick of It, além de ter comandado o filme baseado na série, Conversa Truncada, e roteirizado alguns dos capítulos de Veep, Iannucci consegue acertar as doses necessárias de drama e humor, de verossímil e surreal ao ponto de criar distorcidos retratos do poder em nossa sociedade capazes de sugar plenamente o espectador para suas tramas, ao mesmo tempo que tece, na base da ironia e do sarcasmo, as mais deliciosas críticas.

A Morte de Stalin, seu mais novo filme, não é diferente, por incrível que possa parecer, já que esse é, sem dúvidas, seu projeto mais ousado, visto o peso dos eventos e da própria atmosfera do período que ele busca parodiar. Estamos falando dos instantes finais do governo de Stalin na falecida União Soviética, um período de terror para alguns e cegueira para muitos, com milhares enviados para campos na Sibéria, ou simplesmente assassinados por irem de encontro com alguma política do soberano da nação. Logo, é fácil entender a dificuldade em transformar justamente isso em comédia – Iannucci, juntamente de David Schneider, Ian Martin e Peter Fellows, também veteranos de The Thick of It, não poderiam mostrar muito, ou criará imagens e clima pesados demais. Também não poderiam mostrar pouco, ou parte da força de seu filme será dissolvida. Felizmente, o realizador consegue encontrar o equilíbrio, algo que testemunhamos já nas sequências iniciais.

critica a morte de stalin

O longa abre já mostrando o clima de instabilidade do regime, com uma espécie de prólogo ambientado majoritariamente em um teatro, no qual uma orquestra se apresenta. Próximo ao término da apresentação, Stalin liga para a direção do local e ordena que liguem de volta em alguns minutos. Quando o tempo se passa (e o espetáculo acaba de terminar), ele pede que gravem a orquestra para que ele possa escutar. Temendo sua própria vida, o responsável manda a orquestra se apresentar de novo.

Desde já vemos como uma situação, que poderia ser o auge da tensão nas mãos de outro diretor, com outra intenção, é transformada em pura comédia. Não se trata de algo pastelão ou similar, simplesmente uma mera extrapolação, um ‘o que aconteceria se’, que faz uso da própria personalidade humana para desenvolver esse delicado humor, que nos faz rir, enquanto entendemos o que está em jogo ali. O roteiro, para tal, faz uso de pequenos detalhes, que poderiam ocorrer no dia a dia de cada um, colocando-os em um momento no qual certamente não esperaríamos vê-los. Como o simples fato do responsável pelo teatro perguntar se era para ligar determinados minutos após desligar o telefone ou a partir do momento que Stalin fez o seu ‘pedido’.

Com essa premissa, Iannucci constrói todo o restante de seu filme, que mostra os outros integrantes do partido (todas figuras históricas) tendo de lidar com a morte de Stalin e o que isso significaria para a URSS – mais importante, porém: o que isso significaria para cada um deles individualmente. Desde cedo fica a questão aberta, quem irá ser o sucessor? Que funciona como o fio condutor de todo o enredo, permitindo não somente alto teor de competição entre eles, especialmente entre Beria (Simon Russell Beale) e Khrushchev (Steve Buscemi), como a velha necessidade de manter as aparências em tempos de puro desespero e correria.

Por falar em correria, aqui vemos uma das mais notáveis marcas do diretor, que define tão bem o tempo de Conversa Truncada: tudo parece estar ocorrendo ao mesmo tempo, sem pausas, de forma extremamente ágil. Dito isso, o que poderia se tornar altamente confuso para o espectador (especialmente para quem faltou as aulas de História contemporânea do ensino médio), é mantido dentro de nossa zona de conforto, através de um texto que jamais procura ser mais do que ele é: um bom divertimento, repleto de sarcasmo. Claro que as críticas à extrema burocracia, às mentiras, à corrupção da União Soviética (que acaba se estendendo para qualquer outro governo) estão presentes, mas elas jamais são colocadas no palco central, sempre sendo desenvolvidas através das ações que poderíamos esperar dos personagens apresentados.

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Voltamos, pois, à questão do tempo, mas aqui, mais especificamente, em relação ao timing de cada cena, a duração de cada ação que vemos se desenrolar. Iannucci entende que não basta apenas desconstruir figuras históricas através de atitudes ‘mundanas’, é preciso algo mais, algo que impeça o filme de ficar pesado demais, ou até mesmo irreal ao extremo. A solução está na própria decupagem, que não tem o direito de criar planos muito extensos ou até curtos demais.

Vejam, absolutamente cada ação no Cinema pode ser transformada pela duração de um plano ou da sequência da qual faz parte. Um simples beijo pode se tornar algo extremamente desconfortante para a audiência caso se estenda demais. Um duelo mortal de espadas, com coreografia elaborada, pode se tornar uma espécie de balé. Isso, claro, se aplica ao que vemos em A Morte de Stalin, que estende certas ações, até aceitáveis, ao ponto de torná-las simplesmente ridículas (no bom sentido). A comédia se forma e somos capazes de rir de um velhinho correndo de oficiais do governo simplesmente porque a cena mostrou eles vindo de longe (enquanto o senhor tentava apressar o passo) e o prendendo, ao invés de simplesmente mostrá-lo ele já preso, o que cortaria a dose de sarcasmo presente nesse trecho, que muito bem exemplifica o que vemos no restante do filme.

Evidente que outros aspectos cinematográficos entram em questão na construção desses pontos. O movimento de câmera e seu próprio posicionamento nos coloca sempre no papel de espectador externo, jamais permitindo que mergulhemos como um dos personagens na trama, o que cria o necessário distanciamento do peso daqueles eventos. Aliás, Iannucci muito bem se esquiva de um tom mais sombrio ao mostrar o mínimo possível de sangue ou de morte, deixando, na maior parte dos casos, que o som fora da tela dê conta do recado e nos passe a ideia sem criar um impacto indevido.

Por outro lado, existem muitos pontos, em geral detalhes de um ou outro personagem, que poderiam ter ficado de fora, pontos que, no fim, acabam não influenciando em muita coisa, gerando aquela dilatação desnecessária da trama, o que faz o filme perder um pouco de sua força. Mesmo que os esforços de todo o elenco (especialmente Buscemi, Beale e Jason Isaacs) sejam mais do que capazes de nos cativar, eles não conseguem ocultar o fato que o filme acaba sendo um pouco mais longo do que deveria – pouca coisa, mas capaz de gerar um certo cansaço em determinados pontos.

Assim sendo, A Morte de Stalin pode não alcançar a perfeição e tampouco tinha o diretor e roteiristas tamanha pretensiosa intenção. O que Iannucci e sua equipe queriam – e conseguiram – foi nos trazer uma boa comédia, repleta de ácido humor que desconstrói as figuras desse período da História da União Soviética. Sabendo se esquivar de uma atmosfera mais pesada, o realizador nos entrega uma grande ironia, que extrapola a realidade, criando um retrato no qual podemos acreditar e, com isso, critica duramente e deliciosamente os bastidores desse governo, que tão bem dialoga com o nosso.

A Morte de Stalin (The Death of Stalin – Reino Unido, França, Bélgica, Canadá, 2017)

Direção: Armando Iannucci
Roteiro: Armando Iannucci, David Schneider, Ian Martin, Peter Fellows
Elenco: Steve Buscemi, Simon Russell Beale, Jeffrey Tambor,  Olga Kurylenko, Tom Brooke, Paddy Considine, Michael Palin, Paul Ready, Jason Isaacs
Gênero: Comédia
Duração: 107 min.

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