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Se há um gênero que vem cada vez mais perdendo espaço no cinema de estúdio, é a comédia. Talvez só tenha perdido para a comédia romântica, hoje um tipo de filme praticamente extinto em produções de majors; foi-se o tempo em que víamos astros como Matthew McConaughey ou Anne Hathaway em tramas deliberadamente açucaradas e escapistas. Por isso, quando a Warner Bros anuncia A Noite do Jogo entre seu lineup de 2018, uma comédia cheia de nomes grandes e não baseada em nenhuma propriedade já existente, é de se fornecer alguma atenção. E, no fim, felizmente posso constatar que ainda é possível ir ao cinema apenas para dar umas boas risadas – e até se impressionar com algo além.

A trama começa da forma mais boba possível: Max e Annie (Jason Bateman e Rachel McAdams) são um casal extremamente apaixonado por jogos. Seja de competição, tabuleiro ou adivinhação, os dois se conheceram e mantém um casamento baseado nesse hobbie, promovendo uma série de noites de jogos com seus amigos, que incluem o casal Kevin e Michelle (Lamorne Morris e Kylie Bunbury) e o mulherengo Ryan (Billy Magnussem), que conhecemos enquanto sai com a britânica Sarah (Sharon Horgan). Quando Brooks (Kyle Chandler), o irmão mais velho e bem sucedido de Max, chega na cidade para uma temporada, ele propõe um jogo diferente: uma experiência imersiva onde um deles será sequestrado, formando uma competição para encontrar o alvo. Porém, as coisas ficam nebulosas quando todos se questionam sobre o que é real ou não nessa experiência bizarra.

Basta olhar para o material promocional de A Noite do Jogo, e imediatamente remetemos a outras comédias “grandes” apadrinhadas pela Warner: os dois filmes de Quero Matar Meu Chefe e a trilogia Se Beber, Não Case!, ambos com um elenco formidável e um orçamento alto para um filme do gênero. Com roteiro de Mark Perez, em seu primeiro trabalho na área em quase 10 anos (após o telefilme Back Nine), Noite do Jogo se revela uma experiência divertida e imprevisível, justamente pela ambiguidade que é capaz de provocar com a perspectiva de o que faz parte do jogo ou não, quase como um Vidas em Jogo escrachado. Claramente, é um efeito que dura pouco tempo sem soar muito evidente, e Perez sabe o momento de entregar o jogo, mas sem nunca deixar de nos surpreender com reviravoltas divertidas, sempre na linha entre o aceitável e o banal.

As piadas também funcionam, ainda que nem sempre atinjam em cheio, apostando principalmente em referências de cultura pop e citações. É particularmente incômodo ver algum personagem parodiar um filme famoso, apenas para que logo em seguida outro tenha que explicar a referência, como quando Annie parafraseia um dos diálogos mais icônicos de Pulp Fiction. Os rumos da história também acabam exagerando no terceiro ato, onde o longa trilha pela ação de forma inexplicável, mesmo que sempre mantendo a veia humorística; o que de certa forma justifica alguns dos absurdos, como trazer à tona Liam Neeson e o desastroso Busca Implacável 3 durante uma perseguição de carro.

Mas mesmo que todas as piadas não tenham o efeito desejado, o elenco sempre entrega em cheio. Bateman está fazendo seu tipo habitual, praticamente o mesmo personagem de Quero Matar Meu Chefe, enquanto McAdams surge adorável em um papel com doses de excentricidade. Porém, quem rouba a cena são os coadjuvantes, especialmente Billy Magnussem e Sarah Rogan, que juntos criam uma química muito divertida com o primeiro sendo o bonitão estúpido, e ela a britânica espirituosa e sagaz; a cena em que ele tenta oferecer um suborno, com a reação impagável de Rogan, é um ponto alto. Morris e Burbunry também garantem excelentes momentos, principalmente pela piada recorrente envolvendo Denzel Washington, que garante uma das surpresas mais hilárias da projeção. E, claro, não poderia deixar de mencionar Jesse Plemmons, absolutamente hilário como Gary, um policial solitário que sempre é deixado de lado nas noites de jogos – e levemente assustador com seu discurso pesado e sombrio.

Mas talvez a grande surpresa da produção esteja no setor onde raramente vemos inovação neste gênero: a direção. Responsáveis pelo fraco reboot de Férias Frustradas, John Francis Daley e Jonathan Goldstein apresentam um domínio notável de linguagem cinematográfica, e a traduzem muito bem visualmente para gerar humor e storytelling. A rima dos planos que marcam duas situações chave para Max e Annie em momentos distintos da história é admirável e, sem medir exageros, puro cinema, assim como o match cut inteligente que os coloca caindo dentro de um tabuleiro. De forma a emular a experiência de diferentes jogos, a dupla constantemente posiciona a câmera na parte de trás de veículos, simulando a perspectiva do game em terceira pessoa, e também aposta em um plano sequência impressionante que traz os personagens correndo pelos cômodos de uma mansão enquanto tentam escapar com um objeto, uma cena que – mesmo com os cortes bem evidentes – ainda impressiona pela execução dinâmica e bem ensaiada. Saindo um pouco da direção, outro elemento incomum é a trilha sonora de Cliff Martinez, inteiramente composta com sintetizadores a la Stranger Things, conferindo não só uma vibe distinta, mas também remetendo a antigos jogos de filperama.

A Noite do Jogo é um exemplar de um gênero em ameaça de extinção: a boa comédia de grandes estúdios. Através de um roteiro que entende de reviravoltas, um elenco carismático e uma direção surpreendentemente estilizada, temos aqui uma das experiências mais divertidas do ano, e eu torço para que não seja a última.

A Noite do Jogo (Game Night, EUA – 2018)

Direção: John Francis Daley, Jonathan Goldstein
Roteiro: Mark Perez
Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemmons, Bruce Magnussem, Sarah Rogan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Kyle Chandler, Jeffrey Wright, Michael C. Scott, Danny Huston
Gênero: Comédia
Duração: 100 min

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