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Fazer arte em países sob regimes autoritários é sempre algo extremamente burocrático e arriscado. Muito do cinema feito no lado oriental da Cortina de Ferro sofreu com a intensa censura e da obrigação propagandista positiva de seus regimes alinhados à União Soviética. Entretanto, nesse cenário dificultoso, diversas pérolas acidamente críticas acabaram surgindo, como no caso do cinema polonês de Andrzej Wajda.

Mesmo que o Bloco Soviético fosse bastante rigoroso contra a livre expressão artística, não é possível comparar com a tremenda força da censura chinesa pós-Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Depois de anos sob o regime maoísta, era esperado que a censura ficasse mais branda, mas apesar do cenário desanimador Kaige Chen, um dos principais cineastas chineses nos anos 1990, conseguiu driblar a censura prévia para adaptar o livro de Pik Wah Lee: o épico melodramático Adeus Minha Concubina.

O Custo da Arte

Kaige Chen deixou a cargo de Wei Lu a adaptação deste intenso livro que atravessa quase cinquenta anos da História da China em um dos momentos mais instáveis de todo o país. Iniciando a jornada no começo do século XX, com o abandono do jovem Cheng Dieyi em uma escola que treina os novos artistas da Ópera de Pequim – basicamente, todos os atores são constituídos de órfãos. Abandonado pela mãe prostituta, Cheng não encontra paz na escola, pois seus mestres rígidos o torturam diariamente com exercícios pesados e outras punições físicas intensas para constituir disciplina.

O único alento que o menino recebe é o carinho de outro jovem fadado a triste vida na escola, Duan Xiaolou, que logo se tornam grandes amigos. Superando anos de tortura física e psicológica, ambos conseguem virar os dois maiores intérpretes na Ópera de Pequim, especial na encenação da peça ‘Adeus Minha Concubina’. Porém, conforme experimentam o sucesso e partem em novos conflitos envolvendo a vida amorosa conturbada de ambos, a China se transforma por guerras e revoluções que só os levam para um trágico destino.

O melodrama chinês nada tem a ver com as aspirações clássicas elegantes de Hollywood – isso inclui a técnica maravilhosa de Douglas Sirk, mas sim com um brutal retrato realista. Chen é um diretor frio ao exibir muitos elementos pesados já na apresentação dos desafortunados personagens que sofrem pesadas torturas na escola. Como a perspectiva deles é única: se tornarem grandes artistas, o cerne do roteirista não é martelar esse desenvolvimento via diálogos, afinal não seria condizente com a proposta realista do diretor.

O sonho amargurado das crianças é exposto apenas em monólogos sofridos enquanto assistem à ópera escondidos. De resto, temos um vasto panorama do sofrimento deles para se tornarem artistas e conseguirem sobreviver em um país totalmente indiferente para seus miseráveis. Nessa jornada, Chen até mesmo aponta problemáticas envolvendo pedofilia e também da completa ausência de artistas mulheres em papeis principais, forçando a necessidade da polêmica figura do travesti para interpretar papeis femininos.

Anos de Fogo

Na abordagem estética, além da recriação impecável da época e adereços pelo design de produção, é curioso como o cineasta distingue a identidade visual do longa nessa divisão clara do primeiro ato concentrado no flashback longo para o segundo ato já com os protagonistas crescidos.

Durante a infância, o diretor comporta sua câmera de modo extremamente leve, como se ela flutuasse pelos cenários de modo orgânico, criando planos-sequências simples como se fosse um recurso visual facílimo – o qual não é. Predomina essa movimentação intensa com poucos cortes, refletindo um espírito livre e resiliente das crianças que desejam a liberdade impossível. A câmera também não deixa nunca de exibir a perversidade dos adultos contra os meninos, mas ao menos poupa a dor de um estupro precoce.

É o momento mais raro de delicadeza da câmera sádica do cineasta, apesar de sempre valorizar o desempenho assustador dos atores mirins que choram aos montes durante as pesadas surras. O contraste da leveza técnica com as imagens chocantes provoca um efeito realmente devastador. Por conta disso, quando o cineasta muda seu tipo de linguagem cinematográfica, o estranhamento é imediato, mas compreensível.

Essa segunda parte imensa do épico é mais próxima a um modelo melodramático americano, já que há um foco gigantesco em situações do que no próprio desenvolvimento dos personagens que fica restrito às imagens inteligentes e sutilezas das interpretações de seus atores. O primeiro ponto lançado é a homossexualidade de Dieyi que agora interpreta o papel da Concubina adotando o estigma do travesti da Ópera de Pequim. Porém, como o personagem é apaixonado por Xiaolou que agora interpreta o Rei, vemos como Dieyi vê a realidade de modo distorcido, acreditando que a história de amor da ópera é refletida em seu cotidiano fora dos palcos.

Esse conflito silencioso é muito interessante, principalmente pela rispidez que Dieyi trata Juxian, a esposa de Xiaolou. Seu desdém não é somente por ciúmes por conta de roubar seu amado, mas também por conta dela ter vivido como prostituta até então. Logo, uma associação com sua própria mãe que o abandonou na escola de teatro é imediata e sua motivação, justificada.

O foco nessa segunda parte é mais ambicioso, deixando esses temores internos dos personagens em contraste com as mudanças intensas que a China passa, incluindo a invasão japonesa, a Segunda Guerra Mundial e, por fim, o início da Revolução Cultural. Chen e Wei Lu são eficientes em equilibrar essas transformações em conjunto com a progressão dos personagens na relação entre os dois e com o teatro.

Os artistas sofrem dentro e fora dos palcos, mas continuam trabalhando ao máximo para entreter os visitantes que sempre lotam a ópera. Nessas sequências, é interessante como a dupla de atores se torna próxima de um aristocrata chamado Yuan, fanático pelas peças, além de desempenhar um interesse mais peculiar sobre Dieyi quando maquiado como Concubina. Ele se torna um personagem importante que também se transforma ao longo de toda a narrativa, com relações sempre mais complexas até uma culminação cruel de seu destino irônico.

O núcleo mais interessante, porém, certamente é o Dieyi, pois todo o melodrama é concentrado em sua alma perturbada que lida ao mesmo tempo com a fama e a solidão, a riqueza e a pobreza, a arte e a desgraça, etc. O personagem sempre está na beira do precipício, mas nunca caindo no abismo pelo seu amor ao teatro, sabendo que é a única coisa que lhe resta. Entrar em mais detalhes sacrificaria algumas das surpresas do filme que é realmente ótimo, mas atente para a decupagem muito interessante de uma cena que o mostra em profunda decadência enquanto delira no quarto. Chen mostra o protagonista sempre por trás de um véu que o confina enquanto corta para imagens mostrando um aquário muito sujo, fazendo a associação simbólica óbvia ao mostrar esse aprisionamento psicológico do personagem.

É apenas uma pena que Xiaolou e Juxian acabem mais apagados da experiência, mesmo possuindo reviravoltas interessantes em seu relacionamento. O ápice disso tudo ocorre no terceiro ato no qual Chen aplica as pesadas críticas à Revolução Cultural que simplesmente perseguiu diversas pessoas “cotrarrevolucionárias”, além de eliminar toda a arte que fosse fora dos padrões do maoísmo. A guinada é tremenda com críticas pertinentes ao retratar um período muito sangrento e repleto de paranoia e insegurança na China culminando em cernes políticos que são negados até hoje em documentos oficiais – como as falsas delações para eliminar pessoas indesejadas, suicídios, a destruição de artes milenares e a ruptura de amizades de longa data.

Como havia dito, a estética de Chen se altera. Se antes a câmera flutuava viajando através dos cenários, agora é totalmente fixa, adotando o elegante estilo hollywoodiano dos 1950. A decupagem se torna clássica e menos ousada, mas muito criativa em termos de composição com forte potencia poética. Uma das mais poderosas mostra Dieyi observando as sombras de Xiaolou e Juxian projetadas em uma porta, denotando a divisão entre eles e o sentimento de substituição. É um trabalho realmente magistral. Somente durante as cenas de ópera que o espectador ocidental pode estranhar consideravelmente já que os atores cantam em acordes agudos desconfortáveis.

Dentre um dos poucos aspectos negativos da obra, também é preciso destacar a confusão que a montagem causa ao trocar subitamente de núcleos ou até mesmo de temporalidade através de elipses mal elaboradas ou simplesmente inexistentes. A confusão é uma constante durante o filme todo, infelizmente, mas é possível captar muito bem sua mensagem.

Arte feita de Sangue e Lágrimas

Adeus Minha Concubina marcou a primeira vez que a China ganharia a Palma de Ouro na História. Porém, ao mesmo tempo que o filme bastante crítico traria glórias ao país, também revelaria que a tirania cultural estava tão presente quanto nos anos anteriores. Depois de duas semanas em cartaz, o filme foi censurado e removido até ser totalmente banido meses depois. Porém, como boa parte da política mundial ficou incrédula pela intolerância do regime, o governo recuou temendo perder as Olímpiadas durante a votação de 2000 e relançou uma versão totalmente vergonhosa da obra original totalmente esburacada por conta da remoção de muitas cenas.

Kaige Chen também sofreu depois de conquistar tantas glórias devido ao sucesso do filme. Depois de tanto suor, sangue e lágrimas para perpetuar o sofrimento silencioso dos artistas, do desprezo completo pela vida humana e da decadência completa do cenário político chinês, Chen nunca mais experimentaria a oportunidade de fazer um filme tão impactante como este.

Adeus Minha Concubina (Ba wang bie ji, China, Hong Kong – 1993)

Direção: Kaige Chen
Roteiro: Pik Wah Lee, Wei Lu
Elenco: Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Li Gong, Qi Lú, Da Ying, You Ge
Gênero: Drama, Musical, Romance
Duração: 171 minutos

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