nota-2,5

A compaixão em sentido amplo pregada por Jesus na parábola do Bom Samaritano é algo belo para se refletir. Fazer o bem ao próximo, mesmo que não o conheça, sem esperar nada em troca é o que difere os ensinamentos de Cristo para o Diabo. Este último, sempre aparece com suas propostas traiçoeiras, e, ao contrário, sempre requisita um retorno de seus “bons feitos” .

Porém, uma coisa de cada vez.

A princípio, voltamos para o laboratório Momentum Energy. Lucy e Joseph, através do Darkhold, possuem progressos em suas pesquisas, tendo agora descoberto como criar matéria. Eli Morrow, inteligente, questiona como eles obtiveram êxito no experimento. Quando Lucy começa a responder, seu marido a interrompe, revelando sua louca obsessão pelo livro. E assim, o episódio prossegue com flashbacks e cenas no presente. 

O desenvolvimento de Eli Morrow é desapontante, pífio e incoerente. Nesta cena inicial o personagem demonstra sua preocupação sobre o feito do casal, voltando aos dias atuais, também faz o mesmo com a fantasma de Lucy, ao alegar que caso tentasse trazê-la de volta a vida, milhões morreriam em uma explosão.  No entanto, o engraçado, o personagem utiliza a máquina da usina no final, após toda sua vilania ser revelada em um horrendo plot twist. Não há problema em ele ser um vilão, mas sim em seus motivos não ficarem claros. O roteiro simplesmente joga na tela que os planos de Morrow era sempre possuir o Darkhold, possuir poderes sobre a matéria.

Enquanto isso, Jeffrey Mace envia a inútil Simmons para uma missão secreta. O segredo é contido, não abrindo margem para especulações. Ao menos, a personagem não fica jogada pelos cantos. Quanto ao diretor, após a ameaça da senadora Nadeer em revelar as atividades secretas da S.H.I.E.LD, especialmente a respeito do Motorista Fantasma, ele vai de encontro a Coulson exigindo que o mecânico seja entregue e pague por seus crimes. No fim, acaba rendendo apenas uma decente luta entre Mace e o Motorista.

A direção deste episódio não é acertada, mas demonstra o potencial criativo da série neste quesito – assim como “Lockup”.

O uso de steadicams aqui em alguns momentos é bem feito, outros nem tanto. Enquanto os personagens caminham pelos corredores dialogando, a câmera os segue estavelmente deslizando pelo espaço. Por outro lado, o diretor por muitas vezes exagera na câmera tremida. Exemplo, enquanto Fitz está simplesmente sentado conversando com May por um monitor, as lentes passeiam irregularmente por seus ombros. E em outras cenas, as giradas bruscas em cenas mais dinâmicas que buscam um tom maior de tensão, causam tontura no expectador. É sujo. Feio. Desnecessário.

Contudo, o maior destaque do episódio, o (re)nascimento de Robbie como Motorista esbanja de boa técnica. Esta parte, é intercalada entre a confissão do mecânico ao seu irmão mais novo, com o passado quando os jovens são atacados pela gangue Locos. Em suas falas, há um bom uso de closes, gerando mais atenção a quem assiste. Já no outro lado, a surpreendente origem do Robbie, inicia-se com o personagem “emprestando” o carro de seu tio para uma corrida de rua. No caminho, são surpreendidos com garrafas de coquetel molotov. Uma coisa na qual esqueci de comentar nos episódios anteriores, é como as cenas de perseguição são bem conduzidas. Aqui não é diferente, apesar de ser curta. No que se prossegue, a cena do capotamento, onde o corpo de Robbie é jogado para fora, é de encher os olhos o bom capricho da equipe de efeitos especiais. Em primeiro plano há um bom uso de CGI, seguido para seguinte com um belo slow motion onde vemos Reyes caindo enquanto o mesmo reflete sobre como implorou pela vida de seu irmão a alguém. E então, na queda, a câmera roda criativamente junto com o corpo do personagem. Há também um bom trabalho da fotografia aqui, ressaltando o que parece ser brumas negras infernais em meio ao asfalto.

Antes disso, repare que há uma outra versão do capotamento. Isso mesmo. E alguns podem questionar se há um furo no primeira, já que não vemos o corpo de Robbie sendo jogado para fora do carro. Eu repeti a cena diversas vezes, e garanto que não há furo. Eu suspeitei a princípio também. O que acontece que os acontecimentos são narradas e mostrados sobre pontos de vista diferentes. Gabe não percebeu o que ocorrera com irmão, seu olhar é sempre coberto, enquanto sobre o ponto de Robbie ocorre sua saída. Uma boa sacada.

Mas devo dizer que seria preferível apenas o som das vozes dos personagens ao fundo. Como venho falando, a série parece uma folha de papel que passa por um triturador, e então temos um emaranhado de seus pedaços. As cenas que poderiam ser mais longas, tornam-se curtas. Ocorre o mesmo com o núcleo de Morrow e Lucy, a intromissão de seus flashbacks ao longo dos 42 minutos são cansativas e deslocadas. Aqui extrapolaram um pouco dos limites, demonstrando como não entendem o significado de linearidade.

O porão do prólogo de “Lockup” despertou curiosidade de todos, inclusive a minha. As referências no local soltou indícios que, mais cedo ou mais tarde, outro Rider daria as caras no universo Marvel, ou até mesmo no programa. E eis que sou surpreendido por ninguém menos que: Johnny Blaze!!! O Bom Samaritano. As preces de Robbie ao universo foram ouvidas, e a parte mais maligna dele o respondeu. Já no início da temporada, estava claro que a origem e história de Reyes seriam alterados para encaixar-se na sinopse da série. No material fonte, vale lembrar, que Robbie não é um Espírito de Vingança, portanto seus poderes não são proporcionados pelo demônio Mephisto, mas sim por seu tio antepassado Eli Morrow que ocupa seu corpo. Já aqui, Johnny intercede os poderes da entidade superior, e transfere a Robbie os “dons”. É uma alteração que funciona, não tenho o que reclamar – só vejo problemas no péssimo trabalho do roteiro com Morrow, como já apontei.

Em poucos segundos, “The Good Samaritan” faz a alegria dos fãs com um cameo inesperado, o qual confesso foi um pouco difícil processar para escrever este texto. No entanto, após uma boa observação, é impossível não notar as falhas do episódio. A direção chega a ser criativa ao apresentar a origem de Robbie Reyes como Motorista Fantasma, no entanto, fora isso, comete erros grotescos em sua maior parte. A edição novamente fragmentada continua a comprometer a sua qualidade, mas dessa vez… foram longe demais. 

No mais, com a chegada de Doutor Estranho, o episódio termina em aberto a respeito do paradeiro de Coulson e Cia, em cima do que parece uma viagem interdimensional.

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