Rod Serling, um dos maiores sonhadores de todos os tempos. Sozinho, revolucionou a tv revolucionária dos anos 1950 que atentava com força a colocar a indústria cinematográfica de joelhos e, com isso, provocando o surgimento de melhorias audiovisuais e tecnológicas. Tendo ganhado alto prestígio durante sua transmissão original que foi de 1959 até 1964, Serling conseguiu cravar The Twilight Zone – traduzida, Além da Imaginação — como um dos seriados mais importantes de todos os tempos.

Não apenas por elevar o padrão do seu pioneirismo em explorar gêneros tão mal vistos na época como o terror e a ficção científica, mas também ao apostar no dificílimo formato da antologia episódica. Ou seja, cada episódio possui atores, cenários, diretores e técnicos completamente distintos entre si. Por sorte, Serling já vinha no embalo do sucesso da série de antologias criada por Alfred Hitchcock em Alfred Hitchcock Presents, já mantendo, de certa forma, o mesmo formato que o mestre do suspense havia apresentado.

A dificuldade de realização nem se comparava com a complexidade criativa para tornar cada episódio verdadeiramente único e importante. Nesse primeiro trecho que selecionamos aqui, Serling consegue fazer isso e muito mais. Descobrir The Twilight Zone é de uma grande felicidade para qualquer espectador que leve muito em conta a qualidade de excelentes histórias. Dada essa breve introdução, vamos às análises dos episódios.

1 – “Where is Everybody?”

além da imaginação

nota-5

Como começar sua fantástica série com um murro atômico. Esse poderia ser o título deste episódio brilhante que pavimenta e comunica em perfeição qual será o feeling de The Twilight Zone em cada episódio. Logo de início, acompanhamos um cidadão sem nome vagando por uma estrada. Ele segue para uma cafeteria ordinária perto de uma cidade ordinária. Chegando lá, clama para ser servido, mas ninguém o atende. Ninguém responde em lugar algum. Não demora muito até que ele se dê conta que está completamente sozinho no mundo, mas com a estranhíssima sensação de que alguém o observa de perto.

Assim como grande maioria dos episódios, temos aqui o roteiro de Rod Serling dirigido por Robert Stevens – nome que faz toda a diferença para conferir todas as sutilezas simbológicas através das imagens. Por exemplo, o jogo do diálogo enquanto o personagem conversa com si mesmo defronte um espelho. As proezas técnicas já enchem os olhos rapidamente. Toda a produção artística aqui é impecável, aplicando elementos cotidianos funcionando normalmente como se tivesse sido manipulados há pouco. Todo o cuidado com os cenários diversos para conferir a dimensão necessária a fim de causar a ilusão de solidão necessária.

O texto também contribui com diversas reviravoltas que surgem a partir de descobertas intrigantes do personagem a cada cinco minutos para manter seu interesse aceso. A atuação de Earl Holliman é agradável ao não apostar tanto no caricato, mantendo o personagem no limite da loucura e desespero, além das ironias sarcásticas recorrentes de seus diálogos que quebram corretamente seu solilóquio. A música de Bernard Hermann completa a obra de mestre que é esse primeiro episódio.

É através dele que conhecemos o elemento mais marcante da série: as reviravoltas imprevisíveis carregadas de moral. Aqui, se reflete muito o medo atômico – isso é uma constante na série, além de possuir mensagens sobre o limite da psique humana em situações estressantes. A viagem espacial também está relacionada no contexto. Serling sempre buscava inserir diversos elementos contemporâneos à época nas histórias dos episódios. A maestria fica em realizar isso tão bem em tão poucos minutos de desenvolvimento.

2 – “One for the Angels”

além da imaginação

nota-4,5

Certamente inspirado pela escrita de Dickens em Um Conto de Natal, Serling busca trazer um elemento do universo paralelo: a índole de seu protagonista. Ao contrário de Scrooge, Lou Bookman não é o capeta em pessoa. Adorado por todos, o idoso senhor leva a vida simples como vendedor ambulante vendendo cacarecos sem grande valor. Sem muita perspectiva, além de alegrar a vida de umas crianças no prédio, acaba visitado pela Morte em pessoa. Ela avisa que a hora de Bookman chegou, porém, o audacioso senhor acaba firmando um contrato com o ceifador para não bater as botas. Pensando ter enganado a morte, Bookman se surpreende ao ter que negociar com ela novamente para salvar a vida de outra pessoa querida.

O grande destaque aqui é o roteiro de Rod Serling sempre muitíssimo elegante repleto de diálogos divertidos. O estabelecimento dos dois personagens principais é absolutamente fantástico fornecendo vasta mitologia para os termos do contrato da morte de um indivíduo. O mais legal é a caracterização da Morte vivida por Murray Hamilton. É austero, sério, educado e de boa aparência com tiques quase mecânicos para mimetizar a forma pragmática da negociação.

Como a ação inteira transcorre rapidamente em poucos cenários, Serling aposta nas características únicas desta negociação muito bizarra. Porém, como a direção frisa muito o estado de saúde da outra personagem, além de Serling explorar os desejos de Bookman anteriormente, a reviravolta é bastante previsível – a sequência dela é muito longa também. Porém nada disso diminui o caráter belíssimo da moral da história.

3 – “Mr. Denton on Doomsday”

além da imaginação

nota-4

Esse episódio é um dos primeiros que se passam em uma diegese inspirada no velho oeste. Aqui, trabalhando com clichés já muito bem construídos, Serling toca em temas pertinentes como a dignidade humana e o alcoolismo. O protagonista é um mendigo alcoólatra que faria de tudo por mais um gole de álcool, porém, no passado, já foi um dos melhores pistoleiros da região. Mudando seu destino por acidente, o ex-cowboy se mete em um duelo mortal. Para ajudá-lo, o sr. Fate oferece uma de suas infalíveis poções.

De costume, Serling também estende as ações do episódio baseado em poucos temas. Os diálogos são bastante melodramáticos – tendência que seguirá no próximo episódio. Novamente, trata-se de uma narrativa bem agradável de ser assistida, principalmente por conta da acuidade estética dos tons de cinza criadas pela fotografia. Até mesmo há diversos enquadramentos já ousados para a época.

Um detalhe que não havia comentado antes é o manejo de encenação exemplar que os diretores fazem em cada episódio. A câmera se movimenta bastante – algo impressionante para a época e para um seriado televisivo. Serling sempre quis que houvesse essa pegada cinematográfica em cada episódio e ele certamente conseguiu em diversos deles.

A twist final é encantadora voltando aos rumos imprevisíveis vistos no primeiro episódio. Traz consigo uma bela mensagem anti-guerra refletindo diretamente a paranoia gerada com a Guerra Fria.

4 – “The Sixteen-Millimeter Shrine”

além da imaginação

nota-3,5

Claramente inspirado em Crepúsculo dos Deuses, o episódio traz uma narrativa muito similar à de Norma Desmond. Aqui, acompanhamos uma estrela de cinema em decadência, Barbara Jean. Tendo alcançado o sucesso na juventude, vê-se velha e mal quista. Sem conseguir qualquer papel para filmes novos, passa seu tempo vendo e revendo todos os romances melodramáticos dos quais participou quando jovem, sonhando em reencontrar atores que viveram seus pares nos filmes. Seu agente e amigo pessoal, preocupado com o isolamento de Barbara, tenta resolver a situação, porém o desfecho disso tudo é inesperado.

Novamente, temos a situação definindo o ritmo do episódio. A história, apesar de boa, é bastante repetitiva. Temos 4 conflitos diretos sendo que três deles são cópias dos anteriores. Além da motivação de Barbara ser bem definida, mas nunca bem explorada. É perfeitamente compreensível para um episódio de pouco mais de 22 minutos, mas deixa a impressão que Serling possa ter dado um passo maior que as pernas.

Ou até mesmo que sua intenção era trazer o Crepúsculo dos Deuses somente para a reviravolta final muito audaciosa para a época. Foge completamente de lugares comuns servindo de inspiração para Woody Allen em A Rosa Púrpura do Cairo. Vale a pena pela twist, mas no geral é um episódio mediano se comparado aos outros. Até mesmo em questões técnicas deixa a desejar, principalmente na direção excessivamente quadrada de novelas mexicanas.

5 – “Walking Distance”

além da imaginação

nota-4

Até então, o episódio mais carregado de drama, investido muito pelo personagem protagonista. Une as duas situações marco: a atmosfera bizarra e o conflito genuíno do protagonista. Martin Sloan dirige a esmo pelas rodovias americanas. Apesar de ser um homem bem-sucedido, sente apenas o vazio em sua existência. Por acaso, para em um posto de gasolina. Lá, a distância, percebe uma placa que direciona justamente a sua cidade natal: Hometown. Contagiado pela curiosidade, parte para a cidadezinha.

Chegando lá, descobre que de alguma forma voltou ao ano de 1934 tendo a oportunidade de revisitar os entes queridos que já foram e deixar uma mensagem importante para o pequeno Martin Sloan. Novamente, um episódio bastante complexo devido a alto custo graças as diversas locações e cenários oriundos de Hometown. Sloan, apesar de ser um protagonista apagado pelas circunstâncias extraordinárias, consegue sua identificação forte com o espectador graças à mensagem do episódio que, para hoje, apesar de clichê, é uma potência emocional.

Serling moe o tempo com crueldades para Sloan no reencontro com os pais que agem de forma nada romântica. É isso que talvez defina a autoria de Serling: brincar com situações extraordinárias enquanto pauta os acontecimentos de modo realista e, por vezes, cruel. Novamente, temos Robert Stevens na direção de outro episódio baseado no desespero do protagonista isolado em uma cidade.

Enquanto no primeiro episódio tínhamos um personagem de fato isolado, aqui temos uma situação similar, mas com o protagonista rodeado de gente, mas igualmente isolado por não pertencer àquele tempo. O clímax culmina dentro de um carrossel, servindo como metáfora visual para a representação do tempo. Dessa vez, Serling não explica em voz over a moral da história. É um excelente episódio de drama refinado.

6 – “Escape Clause”

além da imaginação

nota-4,5

Eis que a comédia finalmente surge em The Twilight Zone. Aqui temos o hipocondríaco Walter Bedeker reclamando da vida, de seu médico e da sua esposa temendo a sua morte, apesar de ser um homem saudável. Entre tantas ladainhas, o demônio em pessoa aparece e oferece um contrato para dar imortalidade para Bedeker em troca de sua alma. Sem pestanejar, Bedeker aceita, porém ele descobre que viver para sempre pode não ser tão emocionante.

O episódio mais divertido do seriado por enquanto. Serling utiliza uma situação parecida com a que vimos em One for the Angels, porém mudando totalmente a essência dos personagens. Novamente, os diálogos são impecáveis marcando o ponto do episódio toda a negociação do diabo com Bedeker, um cidadão extremamente cético. Pautado pelo realistmo, Serling traz uma negociação onde o demônio não encontre quaisquer furos no contrato para trapacear Bedeker.

Aqui o discurso é plenamente construído durante as duas partes do programa, apesar do descontentamento de Bedeker com sua imortalidade vir cedo demais graças à algumas elipses. Rapidamente vemos os métodos que ele usa para tirar vantagem sobre os outros e até mesmo da relação com sua esposa. Embora o desfecho seja muito previsível e forçado para um protagonista que tinha tanto apego pela vida, se trata de uma das melhores reviravoltas do seriado até então. Repleta de ironia e humor negro.

7 – “The Lonely”

além da imaginação

nota-3,5

Esse esbanja potencial, porém sua trama é intrincada demais para ser enxugada tão rapidamente em 23 minutos. O pior é que a força motriz do episódio só surge exatamente no meio da exibição. Aqui acompanhamos um condenado chamado Corry. Em 2046, as cadeias da Terra estão lotadas, então os governos se uniram para criar complexos simples em asteroides que vagam pelo espaço. Lá, Corry vive sozinho cumprindo sua pena, tentando não enlouquecer por conta do isolamento. A cada três meses, provisões são lançadas para ele. Em uma das remessas, ele encontra uma robô humanoide feita para fazer companhia a ele. Porém, na cabeça afetada de Corry, ele crê que ela seja humana.

A sinopse do episódio já mostra a quantia gigantesca de elementos que Serling tenta trabalhar aqui. Por conta de muitos acontecimentos serem apenas jogados em tela e melhor do episódio ser restrito a tão pouco tempo de desenvolvimento, a ideia principal acaba atropelada. Nem mesmo a mensagem carregada de moral consegue surtir efeito, além da reviravolta final ser bastante previsível, acontecendo sem cerimônia.

Mas mesmo assim, há elementos valiosos em The Lonely. O solilóquio de Corry é bem apresentado, assim como a relação com os guardas das provisões. A rejeição dele com Alicia, a androide, também funciona, apesar de se estender por demais quase tornando o discurso em uma grande ladainha. Porém, quando Corry se entende com Alicia, os elementos se tornam mais românticos e interessantes enquanto a própria personagem ganha contornos mais complexos revelando emoções e desejos. Ainda assim, infelizmente, se trata do episódio mais fraco até aqui. Para quem gosta do tema, recomendamos Ex Machina.

8 – “Time Enough at Last”

além da imaginação

nota-4

Esse episódio é antológico. Parodiado diversas vezes, provavelmente você já deve conhecer o leit motiv da narrativa. Aqui, temos Henry Bemis, um bancário viciado em livros. Tudo que ele quer na vida é ler. Ler sem parar. Porém, esse seu vício atrapalha o seu rendimento no emprego e no relacionamento com sua esposa megera. Tendo o hábito de se trancar no cofre do banco durante o horário de almoço para ninguém atrapalhar seu momento de leitura, tudo muda quando o mundo acaba graças a um ataque nuclear onde somente ele resta vivo. Vendo que ninguém irá importuná-lo novamente, decide dedicar todo o seu tempo para aproveitar os livros da biblioteca nacional. Porém, todo o sucesso do seu passatempo depende dos enormes óculos que utiliza.

Novamente, o conceito de isolamento e do medo nuclear dá as caras no seriado, porém, aqui, acompanhados da comédia, já que toda a desventura de Henry é levada com tons mais leves, principalmente pela atuação muito inusitada de Burgess Meredith – sim, o mesmo ator do treinador de Rocky Balboa.

Meredith torna Henry em um verdadeiro zé-ninguém que sofre constantes abusos, mas que mesmo assim mantém o sorriso no rosto por ser covarde demais para se manifestar. Quando enfim ocorre o cataclismo, há até mesmo uma reação genuína de pesar por todo mundo ter morrido, mas os desejos do personagem logo tomam forma quando encontra a biblioteca municipal e passa a organizar os livros que deseja ler.

Serling consome bastante tempo até entregar a impagável reviravolta, jogando a redenção do personagem no lixo. Tudo isso ocorre em apenas três minutos. A segunda parte do episódio, onde acompanhamos Henry vasculhando o mundo pós-apocalíptico pode até dar um pouco de sono por conta do ritmo lento e livre de conflitos, porém todo o design de produção caprichoso e os comentários em over de Serling deixam as coisas menos enfadonhas.

O lugar onde nada e tudo acontecem…

Os primeiros oito episódios que Serling nos traz são absolutamente encantadores. As histórias com suas particularidades e semelhanças conseguem nos cativar e envolver inteiramente. Melhor, sempre que uma história acaba, já ficamos ávidos pela próxima que teremos a certeza de que também será tão boa quanto.

Se ficou interessado nesse vasto mundo impressionante criado por Rod Serling, já aviso que é muito fácil encontrar as temporadas clássicas nas lojas por um preço razoável. Porém, fique atento, por ser um seriado muito querido por fãs, é bastante provável que ela esgote rapidamente. A restauração audiovisual no DVD está impecável com som e imagem bastante nítidos – muito por conta do trabalho exemplar de conservação dos negativos originais do seriado –, além da apresentação da embalagem ser bastante decente.

Nosso plano aqui no site é cobrir todos os 156 episódios feitos durante a exibição da série clássica. Uma empreitada exaustiva, com toda a certeza, mas que trará grande satisfação e prestígio. Um trabalho hercúleo, digno de sua existência em Além da Imaginação.

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