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Quando pensamos em surrealismo, logo somos transportados à vanguarda homônima cujo principal nome é Salvador Dalí e cuja estética tomou conhecimento mundial a partir da década de 1920, ao lado de inúmeros outros estilos artísticos que povoaram o imaginário popular e erudito da Europa do início do século XX. Entretanto, o que poucos sabem é que essas investidas transgressoras tiveram início várias décadas antes, tendo como um dos principais nomes o famoso e contraditório Lewis Carroll. É muito difícil, levando em consideração a constante disseminação da cultura clássica via meios de comunicação, não conhecer o trabalho do autor ainda que o público nunca tenha tocado em uma de suas obras: o romancista inglês é responsável por dar um dos pontapés iniciais ao gênero literário conhecido como nonsense e cujo título já inspirou inúmeras adaptações e releituras cinematográficas e televisivas: Alice no País das Maravilhas.

E é claro que uma narrativa tão rica quanto esta jamais passaria despercebido pelos olhos de Walt Disney, cujo império reconstruía-se passo a passo no período pós-II Guerra Mundial. À época, um ano depois do tremendo sucesso de Cinderela, o produtor abraçou com todas as forças as aventuras da pequena heroína em uma terra de fantasia completamente maluca e arquitetou o que podemos considerar um de seus melhores filmes de todos os tempos – não apenas por restituir de modo fiel os escritos de Carroll, mas também por permanecer leal à sua estética única de animação, fornecer perspectivas novas às técnicas da rotoscopia e abandonar diversos maneirismos de longas predecessores.

Levando em conta a atemporalidade dessa narrativa, é lugar-comum dizer que a trama gira em torno de Alice, uma jovem e curiosa garota que acaba caindo num buraco de coelho e se vê no místico mundo de Maravilha – marcada principalmente pela quantidade de habitantes surreais e antropomorfizados, desde os extintos dodôs até lebres saltitantes e completamente viciadas em chá. A princípio, a jornada da heroína em nada se assemelha às aventuras dos heróis de tantas epopeias similares, visto que ela estava apenas seguindo o Coelho Branco em sua total histeria e logo depois percebe que não deveria ter sido tão impulsiva, desistindo dessa corrida insana e procurando desesperadamente um meio de voltar para casa.

Desde o primeiro ato, o roteiro magnificamente adaptado para um singelo musical traz inúmeros motes claros e aproveita as inúmeras brechas para explorar um pouco mais a psique de seus personagens. É claro que animações predecessoras, incluindo Pinóquio, Dumbo e Bambi já traziam algumas explanações mais cuidadas, mas definitivamente não chegam aos pés das análises que Disney e o trio de diretores Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske – retornando mais uma vez como colaboração – realizam em Alice. Talvez a premissa mais clara busque inspiração no ditado “a curiosidade matou o gato”, a partir do qual podemos ver nitidamente que a garota passa por vários obstáculos (alguns deles mortais) apenas por não ter conseguido controlar sua necessidade de fugir da realidade em que vivia.

Outra premissa bastante utilizada para delinear os arcos dos personagens – mais da protagonista em si – é o perigoso “cuidado com o que deseja”. No início do primeiro ato, Alice se vê entediada perante a rotina e às regras sociais e educacionais que deve seguir, supervisionadas pela irmã mais velha e tendo como única companhia real a sua gata Dinah. Momentos depois, ela começa a divagar sobre um mundo próprio, um lugar diferente no qual o comum seria extraordinário e o extraordinário seria comum. Esse intrínseco desejo de fugir à bolha na qual estava enclausurada premeditou o brusco encontro entre ela e o Coelho, ocasionando sua chegada a uma terra que é movida pelo impossível, ainda que este impossível seja real.

A animação obtém grande sucesso quando pensamos na definição de seu público-alvo; é claro que, levando em consideração sua roupagem mais infantilizada, a maior audiência seria sem dúvida alguma as crianças, mas os respaldos que resolve trazer para as telonas também conversam com inúmeros questionamentos e angústias humanas, servindo como um espelho provocativo e reflexivo para os mais adultos. Em dado momento, Alice se vê tomando do próprio veneno e da própria ambição desmedida, seguindo por um caminho onde a lógica não existe e o senso de direção também não. “Qualquer lugar é válido para aquele que está perdido”, é a frase que parece pairar cada vez que a jovem se embrenha nas densas matas de Maravilha e conhece os personagens mais bizarros do panteão Disney.

Entretanto, não pense que essas figuras secundárias são jogadas à toa – muito pelo contrário: cada uma tem um importante papel para o amadurecimento da nossa heroína, mesmo que beire a tênue linha entre a razão e a loucura. Eventualmente, essa irracionalidade exacerbada torna-se tão comum quanto a estranha opção de montagem feita pelo time criativo, mostrando o quão fácil é o ser humano de se adaptar às situações mais problemáticas. Mesmo assim, quanto mais o caos reina, menos nos sentimos confortáveis e percebemos que a zona de segurança na qual estávamos talvez seja a melhor saída, por ora.

Um dos melhores coadjuvantes a dar às caras nesse bizarro escopo é o Gato Cheshire, que representa uma distorção completa do arquétipo do guia espiritual. Apesar da incrível personalidade, não se sabe se sua construção imagética está ali apenas para confundir mais a garota ou para realmente ajudá-la a chegar em casa – e baseando-se no primeiro encontro entre os dois, é muito fácil render-se à segunda opção. Mas analisando por outra perspectiva, ele representa uma extensão de personalidade irreverente e rebelde de Alice, não se importando com as regras e muitas vezes desafiando a (des)ordem estabelecida como forma de “ver o circo pegar fogo”. E isso não se limita apenas a ele, alastrando-se para a presença essencialmente cômica e muito envolvente do Chapeleiro Maluco e da Lebre de Março, cujas construções definitivamente representam a lógica dentro do ilogismo.

Ela também é forçada a enfrentar a si mesma, buscando em seu interior sua real personalidade, quando se encontra com o misterioso – e um tanto quanto temperamental – Sr. Lagarta. É muito interessante ver um trejeito próprio dos estúdios em colocar figuras mais severas e com algum ensinamento, ainda que sejam vilanescas, representadas com certo tipo de fumo. Apenas aqui, temos figuras que claramente são viciadas em tabaco, ópio e, com esse novo personagem, o narguilé. É claro que não devemos levar nada a sério, mas não se pode deixar passar despercebido que a presença desta droga contribua a criação de uma atmosfera inebriante e que chama a atenção do público pela multiplicidade de elementos paradoxais – até mesmo os trajes que esse animal antropomorfizado usa causam certa confusão.

De fato, cada um dos atos tem a sua dose de loucura certa e permite a insurgência de criações muito bem exploradas e com momentos de protagonismo. O último ato traz o ápice de toda essa cuidadosa investida com a insuportavelmente hilária Rainha de Copas, uma criação pomposa e tirana que talvez represente toda a frustração de Alice com o mundo real. Afinal, ela se sente pressionada para seguir certas ordens e até mesmo cede à superioridade de suas companhias mais velhas – como a irmã -, e a governante de Maravilha segue esse caminho, porém aumentado cem vezes. Assim como qualquer outro elemento dessa encantadora e assustadora terra, ela é propositalmente exagerada, quase cedendo aos maniqueísmos de uma vilã mesquinha e impiedosa, mas logo retornando para um adorável nonsense narrativo.

Essa recriação contundente de nada valeria caso a estética não seguisse um caminho similar – e para que a animação se reafirme como obra-prima, todas as ofensivas seguem o incrível padrão da psicodelia, brincando com o uso de uma paleta de cores bem abrangente para conversar com a loucura a qual somos apresentados. Aqui, abandona-se o uso do convencionalismo para representar certos elementos – o mar, por exemplo, é adornado com tons roxos e acinzentados, enquanto as tortuosas árvores seguem um padrão róseo e alaranjado -, justamente para nos relembrar que não estamos em uma realidade palpável, mas sim numa viagem subconsciente e deturpada.

Alice no País das Maravilhas é um filme perigosamente sedutor e que marca um afastamento completo de obras anteriores do império Disney. Além de nos apresentar a uma retórica e independente protagonista, a animação procura mergulhar fundo em temas narrativos que se tornariam recorrentes e que, considerando cada uma das épocas de produção, conversariam diretamente com um público muito mais abrangente que o esperado.

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA – 1951)

Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske
Roteiro: Winston Hibler, Ted Sears, Bill Peet, Erdman Penner, Joe Rinaldi, Milt Banta, William Cottrell, Dick Kelsey, Joe Grant, Dick Huemer, Del Connell, Tom Oreb, John Walbridge, baseado no romance de Lewis Carroll
Elenco: Kathryn Beaumont, Ed Wynn, Richard Haydn, Sterling Holloway, Jerry Colonna, Verna Felton, J. Pat O’Malley, Bill Thompson, Heather Angel
Gênero: Animação
Duração: 75 min