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É fascinante a trajetória que o Alien teve pelos cinemas. Em uma franquia que só pode ser definida como antologia, cada filme trouxe uma visão e abordagem diferente, praticamente reinventando-se a cada novo capítulo graças às visões distintas de seus respectivos diretores, que incluíram o seleto grupo de Ridley Scott, James Cameron, David Fincher e Jean-Pierre Jeunet. Bem, er… Paul W.S. Anderson e os Irmãos Strause com seus AVP, mas vamos deixar esses quietinhos ali no canto.

Scott foi o único do grupo a revisitar seu precioso xenomorfo, iniciando uma nova fase da franquia ao explorar o passado desta com Prometheus. Era um filme diferente, que contava sua própria história dentro do universo apresentado em 1979 e expandia a mitologia da criatura ao trazer fortes discussões sobre deuses, o mito da criação e mortalidade, ao mesmo tempo em que procurava uma história de origem para o Alien. Com a recepção morna e divisiva para o projeto, Scott tentou fazer em Alien: Covenant um longa híbrido, com as questões filosóficas de seu antecessor e também o espetáculo de terror espacial que transformaram o original em um clássico absoluto. Infelizmente, o experimento erra nas dosagens e transforma este Covenant naquele que é um dos piores exemplares da franquia até então.

Iniciando-se cerca de 10 anos após David (Michael Fassbender) e a Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) terem partido para encontrar o planeta dos Engenheiros, somos apresentados à nave Covenant, que carrega uma missão de colonização com mais de 2 mil tripulantes, que seguem para um planeta potencialmente habitável. Ao captarem uma misteriosa transmissão vinda de um planeta nebuloso, a tripulação muda os planos para explorá-lo e encontrar ali algo que talvez possibilite uma nova colônia. Como podem imaginar, o que os membros da Covenant encontram ali é um horror alienígena na forma dos xenomorfos, além de outras revelações curiosas.

Um viajante de uma terra antiga

É um planejamento muito estranho o de Ridley Scott. Além deste Covenant, ele já planeja mais 4 exemplares da franquia, com um suposto Alien: Awakening prometendo cobrir os eventos anteriores a este novo filme. Bem… Não teria sido mais fácil fazer Awakening antes de Covenant, então? A impressão que fica aqui é que Scott fez um filme por obrigação, para tirar do caminho. Todo o instante está tentando nos lembrar de como o primeiro filme foi bom, afinal a grande parte de seu primeiro ato é uma tediosa e sem vida repetição de praticamente todos os incidentes incitantes de Alien e Prometheus, desde o despertar da tripulação, passando pela obrigatória transmissão de uma mensagem, o pouso dramático no planeta e as primeiras infecções. Isso revela como a fórmula de Alien é perigosamente limitada, já que novamente estamos diante de uma repetição que não empolga mais como antes.

Tudo bem que o roteiro de John Logan e Dante Harper acerta ao apostar em um núcleo distinto – formado inteiramente por casais -, mas não vai muito além disso, contando também com o problema extra de ter personagens demais para tentar desenvolver. Todo o apego entre os casais até funciona graças ao trabalho correto do elenco, com um destaque especial para o formidável Danny McBride, mas em sua maioria acabam reduzidos a clichês e piadinhas que talvez tenham sido engraçadas nos anos 90. Mas a verdade é que estamos mesmo diante de meras figuras humanas sem graça e que aguardam para serem trucidadas pelo Alien, e estou particularmente decepcionado com o desperdício de Katherine Waterston, presa a uma personagem fraquíssima e sem o carisma ou arco da fabulosa Ellen Ripley de Sigourney Weaver. Daniels passa metade do filme em um estado de luto, e sua mudança repentina para “grande heroína de ação” é simplesmente risível, já que não houve a menor construção de caráter ou superação, ainda que o filme nos force a aceitá-la como tal, seja através da regata típica de Ripley em Aliens, o Resgate ou por suas ridículas frases do tipo “vamos matar esse puto”.

Quando a equipe explora este novo mundo recém-descoberto, eis que temos alguns elementos inéditos na estrutura da franquia, mas que tristemente acabam revelando-se como um dos pontos mais fracos da projeção. O personagem de David é extremamente importante aqui, assim como sua relação com o outro androide, Walter, e confesso que algumas das ideias de Logan e Harper realmente enriquecem o personagem e o transformam em uma figura enigmática e fascinante, beneficiada também pela ótima performance dupla de Michael Fassbender. Porém, o texto acaba indo longe demais em suas ideias e o conceito do personagem começa a transformar-se em uma caricatura, com frases prontas e citações de óperas, poesias e outras obras que parecem querer demonstrar um nível de superioridade intelectual completamente artificial – mesmo para uma máquina – e aqui até o ator revela-se acima da nota em diversos momentos, sendo impossível controlar o riso quando o personagem solta uma fala do tipo “I’ll do the fingering”.

De forma resumida, daria pra dizer que temos aqui um conteúdo ótimo para Blade Runner. Mas péssimo para Alien.

Nada resta, junto à decadência

Pior é ver como tudo isso se encaixa na mitologia do Alien, que tem seu conceito simples e funcional do longínquo primeiro filme extrapolado para algo muito mais grandiloquente e exagerado, que acaba eliminando toda a essência do conceito de Dan O’Bannon. Algumas coisas simplesmente não precisam de tanto invencionismo para se justificar, e acabam deturpando o próprio sentido de sua criação… Em diversos momentos me peguei lembrando de algumas das ideias “brilhantes” de  O Exterminador do Futuro: Gênesis e Jurassic World, apenas para citar o nível de problema que temos aqui, pois este filme praticamente destrói a imagem do xenomorfo ao lhe trazer as ideias mais estúpidas e pavorosas desde que Jean-Pierre Jeunet inventou de cruzar Sigourney Weaver com um Alien em Ressurreição.

O mais triste é ver como nem mesmo a direção de Ridley Scott é capaz de oferecer algum brilho a este material tão pobre. O homem que um dia chocou todas as plateias com a cena do chestburster em O Oitavo Passageiro ou até mesmo a infame cena da cesariana em Prometheus parece não estar presente, já que nenhum momento da projeção tem metade do impacto que essas duas sequências tiveram em seus respectivos filmes. A única que chega perto de reproduzir esse efeito é quando um dos tripulantes agoniza enquanto um xenomorfo começa a sair de sua coluna vertebral, onde temos uma imagem gráfica e chocante graças à crueza de Scott e sua coragem de apostar no gore. Porém, é uma cena tão rápida e sem o suspense, a antecipação ou o jogo de câmera que tornou o chestburster tão memorável, sem falar que os efeitos digitais da criatura que nasce dali são terrivelmente artificiais, e o design sonoro do bicho é tão agudo que chega ser patética sua tentativa em ser ameaçador.

E pior, Scott está mais genérico do que nunca. Mesmo quando temos sequência mais elaboradas de perseguição, vide o clímax em que dois personagens estão dentro de um espaço fechado procurando o temível Alien escondido através de corredores e portas – um prato cheio, convenhamos – o diretor decepciona com uma decupagem previsível e sem a menor criatividade, além de tomar emprestado praticamente todo o conceito da cena do emprisionamento em Alien³. Mesmo com uma fotografia mais dark de Dariusz Wolski e uma trilha acertada de Jed Kurzel (que é bem feliz ao trazer de volta o icônico tema de Jerry Goldsmith), são decisões ruins atrás de decisões ruins e, novamente, é realmente broxante ver o ameaçador xenomorfo sendo criado através de um péssimo CGI. Poxa, até o Paul W.S. Anderson trabalhou com aliens práticos em seu AVP

Contemplem minhas realizações

Porém, ao menos a produção geral do projeto merece uma enxurrada de elogios. O brilhante design de produção de Chris Seagers segue expandindo os mundos estranhos e alienígenas desse universo, já nos impressionando logo na ótima cena de abertura onde temos um prólogo com a primeira sessão teste de David, sentado em um ambiente que assusta de tão clean e branco, com os móveis palaciais e as obras de arte aleatórias dando uma forte impressão de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Seguindo essa linha, o design da espaçonave Covenant impressiona por seu tamanho e pela engenhosidade de seu sistema de energia, funcionando bem plastica e narrativamente. Por fim, aplausos para todo o visual dos domínios de David, seja pelo desolado “quintal” que traz estátuas petrificadas que imediatamente nos remetem à tragédia do Vesúvio ou à sua sinistra sala de experimentos.

O novo Alien aqui, batizado apropriadamente de Neomorph, também ganha um design muito interessante. Trocando a marcante cor preta por um branco assustador e a boca gigantesca por um tipo de mandíbula circular que muda de tamanho, é um visual ameaçador e criativo para a criatura alienígena, e confesso que até mesmo o efeito visual usado aqui funciona de forma muito mais eficiente do que no xenomorfo clássico. As novas formas de contágio também trazem certa inovação, com o patógeno alienígena sendo transmitido através de minúsculas partículas no ar, e que rendem uma criatura diferente dependendo da via de infecção – vide as formas diferentes do Neomorph ao se hospedar através de um ouvido ou de narinas.

É realmente decepcionante que o mesmo diretor que tenha feito o brilhante Alien, o Oitavo Passageiro tenha feito um desserviço tão grande a uma de suas obras-primas com um filme tão genérico, sem graça e indigno de um dos maiores monstros da História do Cinema. Alien: Covenant demonstra o desgaste da franquia, que insiste em repetir fórmulas batidas e confiar na condução de um diretor que, tal como o Ozymandias de Shelley, agora é apenas a ruína de um gigante enterrado na areia.

Só espero que Alien possa descansar em paz, ou que James Cameron largue Pandora e apareça em um power loader para salvar o xenomorfo das garras de Ridley Scott. 

Alien: Covenant (Idem, EUA – 2017)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: John Logan e Dante Harper, argumento de Michael Green e Jack Paglen
Elenco: Katherine Waterston, Michael Fassbender, Danny McBride, Carmen Ejogo, Billy Crudup, Demián Bichir, Callie Hernandez, Tess Haubrich, Amy Seimetz, Nathaniel Dean, James Franco, Noomi Rapace
Gênero: Ficção Científica, Suspense
Duração: 122 min

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