*Este filme foi visto no 23º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2018.

Nos últimos trinta anos, um aspecto essencial da vida política no século XX parece ter se tornado cada vez mais fantasmática, inapreensível, quando não banalizada: a utopia. Em 1997, o cineasta argentino Fernando Birri, um dos principais nomes do cinema argentino tanto no campo da ficção-experimental como do documentário, realizou, de volta à Argentina após um período de exílio, um projeto que nunca havia chegado às telonas. Che, ¿muerte de una utopía? é uma investigação sobre o futuro das utopias e o legado da revolução cubana, com a participação de intelectuais amigos de Birri (como Eduardo Galeano e Ernesto Sábato) e pessoas simples do campo e suas perspectivas de sobrevivência.


Esse projeto serve de ponto de partida para Carmen Guarini em seu novo documentário, Amarra Seu Arado a Uma Estrela. Misturando o material nunca finalizado do longa com filmagens próprias que fez dos bastidores de Birri (no cinema, em casa, em família, no escritório etc.), a diretora monta um percurso de apresentação à personalidade. O cineasta transpira uma energia particularmente latino-americana, sempre muito efusivo, caloroso, mas a idade e a longa barba – mesmo nos seus arroubos mais eufóricos, à Glauber Rocha – caracteriza-o como um avô carinhoso e moleque. E essa aura familiar, paternal, no sentido de mestre para Guarini, não deixa de ser captado pela câmera e pela montagem. Na primeira metade do filme, percebe-se a construção de um tom elegíaco – quase inevitável. Birri nos deixou no final de 2017, aos 92 anos.

Guarini consegue sustentar o filme muito bem, alternando entre as ideias e a realização do projeto e um registro íntimo muito bem-humorado, que justifica a aproximação da personagem para além de sua importância histórica – até então, fora do centro das atenções. Mesmo sempre mantendo um halo no seu professor, não chega ao afeto incomunicável de O Vendedor de Orquídeas, por exemplo. Talvez por não se satisfazer com essa perspectiva em terceira pessoa, observadora e várias vezes dessacralizada pelo próprio Birri – em certa cena à mesa, ele pontua a “mania de filmar” de Guarini –, a diretora começa a contar a trajetória do seu mestre. Da formação na Argentina, a ida para o Centro Sperimentale di Cinematografia em Roma até a fundação da Escuela Internacional de Cine y Television em San Antonio de Los Baños, Cuba, ao lado de Gabriel García Marquez e Fidel Castro.


As imagens de arquivos aparecem cada vez menos, e a diretora opta pelo modelo talking heads, entrevistando pessoas que viveram com Birri em Roma, a atual diretora da Escola que ele fundou, até a entrevista final com o próprio cineasta, já bem velhinho, mas com a mesma energia de vinte anos atrás. À parte a alegria do reencontro, essa segunda metade do filme se estende como um eterno epílogo, principalmente pela transição pouco natural que estabelece com a parte anterior. As ideias permanecem essencialmente retóricas, e a própria Guarini não ousa tocá-las. Prefere até, em certo momento, dar uma GoPro na mão de Birri, para que ele mesmo filmasse seu cotidiano – o andar devagar por um corredor, passeios pelas suas estantes ou um contra-plongée sob sua imensa barba.

Termina com uma fraca mensagem de esperança, bem mais referencial que com a potência poética-pessoal que estabelece na primeira parte do filme, como se a própria diretora do filme suspeitasse de seus antigos registros e do fim que têm em si mesmos. Nada mais contraditório que usar de uma forma tão volátil para documentar e homenagear uma figura cujo cinema desprezava o unívoco e o inquestionável.

Amarra Seu Arado a Uma Estrela (Ata tu arado a una estrella, 2017 – Argentina)

Direção: Carmen Guarini
Elenco: Fernando Birri, Carmen Guarini, Ernesto Sábato, Eduardo Galeano, Osvaldo Bayer, Carmen Papio, Teresa Díaz
Gênero: Documentário
Duração: 80 min.

 

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