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A atemporalidade é um conceito muito complexo de ser aplicado em obras audiovisuais. A utilização de elementos contraditórios pode tanto criar uma nova estética identitária quando causar estranhamento no público – e aqui posso citar Maria Antonieta como o ápice deste diálogo não-cronológico e extradiegético, ao misturar elementos da época vitoriana com objetos da contemporaneidade.

Em American Gods, nova série da Starz que estreou semana passada com um belíssimo episódio piloto, esta conversa entre linhas do tempo completamente diferentes também acontece, e mais de uma vez. Enquanto o roteiro assinado por Michael Green e Bryan Fuller optou por apresentar sutilmente a mitologia da obra de Neil Gaiman no capítulo anterior, este aqui, intitulado The Secret of Spoons, brinca com seus próprios elementos narrativos e dá margem para outras vertentes criativas de um multiverso em construção.

A primeira cena já nos introduz a um aprofundamento muito maior do prólogo apresentado anteriormente. Mas agora, somos transportados para o calabouço de um navio negreiro, cujo espaço se assemelha muito à claustrofobia dos primeiros clubes de jazz da década de 1920 – e é essa a trilha sonora que perscruta uma sequência verborrágica e avassaladora: tons de piano e saxofone adornam solilóquios em africâner que rogam por uma salvação provinda de Ananse (outro personagem criado por Gaiman). Isso é um leve indício de que veremos mais das criações sombrias do autor conversando em diversas obras – talvez até um crossover entre Sr. Wednesday e Coraline Jones, por que não?

De qualquer modo, a melodia instigante parece quase saltar da tela, mas gradativamente dá espaço para uma construção modal perturbadora que busca uma animalização em instrumentos da cultura rudimentar humana. E à medida em que a música encontra seu crescendo, Ananse se materializa, descendo as escadas em um terno verde-escuro e trajando sapatos de bico fino para discorrer sobre o futuro dos negros na América, utilizando-se inclusive de jargões e gírias próprias da contemporaneidade. O choque de épocas é claro, mas não poderia funcionar de jeito melhor: tudo é muito bem pensado e muito bem construído, ainda que destoe do restante da narrativa.

The Secret of Spoons, assim como seu predecessor, é pautado em um crescente ápice narrativo que praticamente nos deixa letárgicos. A direção certeira de David Spade permanece fincada nos planos-detalhe e numa composição mais intimista, focando individualmente em cada um dos protagonistas. Obviamente a grande parte das cenas é desenvolvida entre Wednesday (Ian McShane) e Shadow Moon (Ricky Whittle), mas aqui os dois arcos parecem estar se desenvolvendo de forma mais independente, ainda que compondo o mesmo plano.

Como bem nos recordamos, os segundos finais de The Bone Orchard trouxeram Shadow sendo enforcado por mercenários sem rosto a mando de Technical Boy (Bruce Langley). Logo depois, somos transportados a uma discussão entre a vítima e Wednesday sobre o que cada um esconde de seu passado e sobre como isso irá influenciar em eventos futuros. É certo afirmar que Shadow não acredita ainda em tudo o que está acontecendo, e crê que trabalha para um agiota qualquer que tem uma grande influência sobre várias pessoas importantes – e que criou inimigos únicos durante a sua vida.

Esse apego e essa devoção logo dão margem para uma loucura intrínseca à sua própria personalidade quando, durante uma sequência dentro de um supermercado, conversa com uma televisão. Não exatamente o objeto em si, mas sim uma representação materialista de um dos primeiros deuses americanos aos quais somos apresentados: Media (Gillian Anderson). De forma quase mágica, o público passa a entender a premissa da série um pouco melhor, principalmente no tocante à necessidade do ser humano de se atrelar a uma cultura. Entretanto, o grande ponto é: o que acontece quando essa cultura e estes hábitos milenares estão morrendo e dando espaço para que uma nova gama de ídolos surgirem?

O discurso proferido por Media é um dos vários momentos emocionantes de American Gods. Ela discorre sobre a queda dos deuses antigos e a ascensão dos novos – reafirmando mais de uma vez que o destino é certeiro e de que, apesar da pouca existência entre humanos, já estão conquistando o espaço. Estes novos ídolos foram criados por mãos mortais e agora estão invertendo os papéis, prenunciando uma guerra sobrenatural que pode destruir o mundo como conhecemos.

As metáforas produzidas pela série são encantadoras, e até mesmo sua superfície pode ser aproveitada ao máximo. As análises sobre antropologia, valores e moral são mascaradas pela presença de personagens multidimensionais e subtramas de tirar o fôlego – incluindo o ainda não tão claro arco de Bilquis (Yetide Badaki), cuja ligação com a sexualidade e a luxúria permanecem colocando-a num patamar tão misterioso quanto as sequências das quais participa.

Uma das cenas mais bem arquitetadas é a que justamente foge da proposta da série: um jogo de damas. O arquétipo de tal “brincadeira” foge dos parâmetros aos quais estamos acostumados e traça uma linha narrativa muito bem arquitetada que atinge as discussões sociais de raça e de “privilégios de cor”, além de se espalhar para um relato, ainda que não muito bem explorado, de controle absoluto. Aqui, Wednesday está nos bastidores, observando enquanto seu pupilo enfrenta os diálogos carregados de duplo sentido de Czernobog (Peter Stormare), sendo constantemente ameaçado por um abatedor cuja principal força provém do sangue.

O segundo capítulo de American Gods é uma obra de arte que se equipara ao episódio piloto. A narrativa segue de forma mais lenta, mas a composição de cenas e as relações entre seus personagens são satisfatórias o suficiente para ultrapassar o conceito de tempo que conhecemos – e fornecer uma visão completamente nova àquilo que pensamos conhecer.

American Gods –01×02: The Secret of Spoons (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: David Slade
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

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