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E a história de Laura Moon finalmente nos foi revelada!

Confesso que, com o anúncio do quarto episódio de American Gods, fiquei um pouco receoso do ritmo que a série estava tomando. Afinal, apresentar o passado de um personagem com a importância de Laura (interpretada por Emily Browning em seu melhor) deveria, em tese, se restringir a capítulos futuros para que a ambientação da mitologia idealizada por Neil Gaiman pudesse ganhar um pouco mais de maturidade e palpabilidade dentro de uma narrativa épica e contemporânea ao mesmo tempo. E essa pressa talvez tenha sido o principal deslize dentro de Git Gone, como foi intitulada essa iteração – mas isso não signifique que Bryan FullerMichael  Green nos tenham entregado algo ruim. Apenas destoante.

Diferente de seus predecessores, este capítulo se inicia em um cassino. A cultura egípcia ainda permanece intrincada no design de produção e até mesmo na trilha sonora que perscruta o ambiente – nos levando a acreditar, a priori, que estamos em um palácio faraônico. Entretanto, conforme a sequência se desenrola, temos nossa atenção dirigida a uma jovem atendente de blackjack – a personagem em questão. Já de cara podemos identificar sua personalidade contraditória que pende tanto pela afinidade aos riscos quanto preza pelo controle absoluto (e isso apenas com os breves momentos em que a vemos embaralhando um bolo de cartas).

Laura é uma figura enigmática. Suas feições quase inexpressivas não transparecem com facilidade para o público, mas o entendimento e o nível da atmosfera é criado a partir da junção desses momentos em puro blasé com a composição sonora tétrica e um design de som que rompe a barreira das quatro paredes e consegue criar um microuniverso próprio de cada sequência arquitetada. O primeiro momento de grande tensão é construído a partir de uma tentativa de suicídio: apesar de sempre buscar o autocontrole, Laura não consegue aceitar a monotonia de sua vida e tenta tirá-la a qualquer custo – mesmo que isso signifique se dopar com desintetizador e quase morrer afogada em sua jacuzzi.

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A partir daqui, vemos a influência da mitologia americana criada por Gaiman se transpor além das telinhas: afinal, tudo acontece em torno de forças cósmicas que regem a pacificidade e o equilíbrio tanto do plano terrestre quanto do espiritual. Sabemos também, desde The Bone Orchard, que Laura sofreu um acidente de carro enquanto traía seu marido, Shadow (Ricky Whittle), e, nos minutos finais de Head Full of Snow, retornou dos mortos e apareceu sentada na cama do hotel em que ele estava hospedado. Este capítulo, portanto, visa explicar o que aconteceu neste meio-tempo e como ela sempre esteve conectada com o sobrenatural muito antes de seu ex-marido ser “contratado” pelo Sr. Wednesday (Ian McShane).

Laura e Shadow sempre foram rodeados por tragédias e mentiras. Desde seu primeiro encontro – ocorrido no cassino em que ela trabalhava -, os dois mantiveram um sigilo quase absurdo e impossível para realizar seus golpes e conseguirem o máximo de lucro para se sustentarem ao mesmo tempo em que não abandonavam seus princípios. O plano perfeito, como ela idealizara, emergiu como uma válvula de escape para um relacionamento que gradativamente caía no monótono e na rotina. É visível a diferença de postura entre os dois personagens no começo do episódio e em meados do segundo ato, no qual a inexpressividade de Laura torna-se pura letargia dramática, dessa vez externalizando sua angústia e sua falta de apetite – em todos os sentidos.

Craig Zobel foi o responsável pela direção de Git Gone, substituindo David Slade, e talvez essa mudança brusca de identidade visual tenha causado um choque nos espectadores. É inegável dizer que a ordem dos acontecimentos ocorre de modo mais arrastado e mais monótono, possibilitando que o microcosmos da narrativa televisiva transbordasse para fora da tela e causasse certo distanciamento – em alguns momentos, tal monotonia quase me fez pescar. Nem mesmo os incríveis visuais ou os cortes dinâmicos entre as cenas mais pesadas foram suficientes para esconder as complicadas falhas.

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Os deslizes infelizmente não param aqui, e parecem se concentrar no início do terceiro ato. Após sua morte, Laura é levada até o purgatório de Anúbis (Chris Obi) para que seu coração seja pesado. Entretanto, em um acesso de irreverência e ódio, ela se recusa a deixar que uma balança decida seu Destino, visto que já sabe o que lhe aguarda: a própria escuridão eterna. Entretanto, ela não aceita ser ordenada a fazer algo em que simplesmente não acredita, e recusa-se a seguir em frente. Sua condição é permanecer condenada ao nada, mas, por alguma brecha em sua linha vital, ela retorna de forma brusca ao mundo dos vivos como um zumbi – indicando que ainda possui assuntos inacabados para resolver.

Fugindo da fúria dos deuses – e colocando-se também entre a disputa entre as novas divindades e as antigas – Laura começa a seguir a única luz que lhe restou em vida: Shadow. Parece clichê, mas aqui esta saída narrativa funciona perfeitamente – o problema é como ela se desenrola. Ao que tudo indica, Laura adquiriu alguns poderes físicos, provavelmente resquícios da transição entre transcendentalidade e mortandade, que a permitem rachar criaturas sobrenaturais ao meio. É ela, inclusive, que salva seu ex-marido de ser enforcado até a morte pelos asseclas de Technical Boy (Bruce Langley) em The Bone Orchard.

Era de se esperar que a sequência de luta entre Laura e os “demônios sem rosto” fosse no mínimo épica; mas ela simplesmente não funciona. Tudo é muito artificial e se restringe ao gore em vez de buscar outras vertentes criativas para a composição da cena. Até mesmo os slow-motions são mal colocados aqui e causam um desconforto descomunal para aqueles que não estão acostumados com as narrativas de Gaiman. O único ponto que realmente salva a inconstância desta parte são os diálogos estruturalmente metafóricos adaptador por Fuller e Green para as telinhas – ofuscando brevemente esses equívocos quase imperdoáveis.

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Entre altos e baixo, Git Gone é um episódio bom, se o encararmos como um filler. Talvez o fato de ser inteiramente dedicado ao passado de uma personagem que até agora não ter mostrado uma importância digna ao embate da série tenha mostrado que seus criadores estão se antecipando muito, criando equívocos desnecessários. O elenco e os diálogos brilham como sempre, mas são as sequências metaforizadas que pecam e saturam a tela. Resta-nos esperar que o próximo capítulo recupere a grandiosidade à qual estávamos acostumados – pelo amor dos deuses.

American Gods –01×04: Git Gone (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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