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Alguns textos atrás, lembro-me de fazer uma menção à provável junção das diversas vertentes artísticas de Neil Gaiman em uma mesma obra audiovisual – e parece que American Gods atendeu às preces de diversos fãs do autor e construiu um prólogo para este quinto capítulo que definitivamente emergiu como uma surpresa.

Depois de um episódio um tanto quanto monótono na semana passada, no qual fomos introduzidos ao passado da personagem Laura Moon (Emily Browning), uma das mais novas sensações da Starz recobrou o fôlego e se encaixou nos trilhos novamente, nos presenteando com uma pérola da televisão contemporânea. Nos primeiros minutos de Lemon Scented You, temos mais uma introdução incrível de uma das mitologias que compõe o cenário identitário e cronológico do show, mas dessa vez com um diferencial muito bem-vindo: mostrando a versatilidade de uma narrativa que já pode ser considerada atemporal, temos uma análise entre memória e cultura fincada nas bases da animação.

O estranhamento causado aqui é proposital, talvez para amarrar de forma mais concisa as explorações acerca de culturas diferentes ou para transpassar com mais fidedignidade os elementos de uma época tão remota. Afinal, aqui somos transportados para os primórdios da humanidade, num momento crucial para a sobrevivência da espécie humana durante o qual a fé foi reforçada como uma entidade imaterial com o propósito de servir a quem lhe acredita. Até mesmo o desfecho, ainda que não tão impactante quanto os outros, reflete a importância do sacrifício em prol da comunidade e inclusive os limites que pensamos transgredir em se tratando de “cegueira espiritual”.

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Mas são os últimos segundos deste prólogo que se mostram imprescindíveis para o entendimento do jogo metafórico neste novo capítulo: um narrador discorre sobre a existência e o desaparecimento de deuses antigos, e sua constante substituição por divindades contemporâneas que venham a traduzir o sentimento buscado pela humanidade de pertencimento e de proteção. A mutabilidade da cultura de um povo é um dos temas-base para a sucessão de eventos que gira em torno dos protagonistas de American Gods – e é neste ponto que as linhas de combate são traçadas.

O primeiro ato é dedicado ao reencontro entre Laura e Shadow (Ricky Whittle) após aquela retornar dos mortos através da magia contida na moeda de ouro do leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber, que estava meio escondido atrás das cortinas nas últimas semanas). Normalmente a construção de uma cena carregada de elementos sobrenaturais e que discorra sobre o encontro do herói com forças intangíveis é complicada, mas o roteiro assinado pelos também idealizadores da série Bryan FullerMichael Green surpreende mais uma vez pela irreverência com a qual trata assuntos delicados. Combinados com atuações emocionantes do casal principal, os diálogos prezam pela crueza de sentimentos e de expressividade que explicam claramente o que aconteceu: Laura errou, pecou, morreu e retornou para sua missão inacabada, provavelmente agindo como mais um elemento essencial para que Shadow assuma sua crença.

O personagem encarnado por Whittle talvez tenha tido seu maior arco de expressividade facial em Lemon Scented You: abandonando sua configuração blasé que o acompanha desde o episódio piloto, ele realmente se deixa levar pelo primitivismo de suas emoções mais básicas para absorver as reviravoltas de sua vida. Afinal, Shadow era apenas um golpista que teve um momento de má sorte, e agora foi recrutado por um misterioso velho chamado Sr. Wednesday (Ian McShane) que o introduziu às criaturas e personalidades mais excêntricas do mundo. Ainda não conseguimos entender seu exato papel na trama ou o porquê dele ter sido escolhido, mas a partir do terceiro ato algumas coisas são explicadas – ainda que de forma sutil.

O grande ápice vem no terceiro ato: Wednesday e Shadow são presos por assalto a banco e levados para a delegacia mais próxima, e é durante uma sequência dinamicamente dirigida por Vincenzo Natali, substituindo a negligente calmaria de Craig Zobel em Git Gone, que os diálogos entram num nível metafórico soberbo e impressionante que ultrapassa o próprio conceito de metalinguagem e persuasão. Após serem confinados em uma mesma sala – momentos depois de um breve julgamento e de mais algumas peripécias criadas pela incrível performance de McShane -, os dois recebem a visita de três figuras: Media (Gillian Anderson), Technical Boy (Bruce Langley) e Mr. World (Crispin Glover).

Todos estão ali não para ocasionar uma guerra, e sim para mostrar uma inevitabilidade das transmutações culturais e espirituais que perpassam o mundo desde o surgimento do primeiro homo sapiens. A clareza com a qual essas explanações são dadas se estendem para o próprio mito da caverna de Platão, no qual a recusa a aceitar o óbvio e a passividade com a qual um mortal se deleita é exatamente o que alimenta ou o que destrói a crença em divindades milenares. World é a representação da tecnologia, do novo, do contemporâneo, do moderno. Media e Technical Boy são arquétipos dos ídolos que veneramos nos dias de hoje e que nos tornam tão dependentes quanto nossos ancestrais – e, enquanto isso, Wednesday se finca a valores morais e éticos “conservadores” para retificar sua importância dentro da história e negar sua provável decadência.

Definitivamente o ponto de maior apreço estilístico e narrativo é encarnado pela incrível Anderson. Afinal, a deusa Media não poderia ter um papel secundário dentro de uma história assinada por Gaiman. E com seu carisma e sua incrível versatilidade em tela, a atriz dá sua própria interpretação não para apenas um, mas para dois ícones da cultura pop que serão relembrados até hoje: David BowieMarilyn Monroe.

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No segundo episódio, intitulado The Secret of Spoons, Anderson deu vida a Lucy, protagonista da série dos anos 1950 I Love Lucy, introduzindo de forma surpreendente sua personagem e declarando a principal batalha a ser enfrentada pelos protagonistas da série. Agora, ela retornou como o falecido rockstar Bowie para realizar um discurso sobre medo e sobre identidade, e logo depois mostrou-se capaz o suficiente para trazer das influências do pop art Marilyn, utilizando seus jargões e seu jeito inocente para criar metáforas dúbias o suficiente a fim de deixar no ar alguns entendimentos – inclusive, o título da quinta iteração se refere a uma das frases mais famosas de Monroe, Lemon Scented You (Uma essência de limão).

O novo capítulo de American Gods é o seu melhor até agora. Através do conserto de deslizes e de algumas lapidações no tocante a ritmo e a sucessão de eventos, a série conseguiu resgatar sua característica frenética, crua e violenta, criando assim uma atmosfera tensa que prende o espectador do início ao fim.

American Gods – 01×05: Lemon Scented You (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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