E é aqui que as coisas começam a tomar um novo rumo.

Desde o episódio piloto, American Gods se mostrou completamente dissonante em relação à sua narrativa. Afinal, o tema da série é justamente examinar como o panteão de culturas que migrou – forçosamente ou não – para os Estados Unidos anda em constante contraste e embate quando pensamos em identidade. Desde os primeiros segundos em cena, os personagens buscam por alguma coisa que traga segurança em se tratando de fé e crença – e até agora a luta entre deuses antigos e novos está apenas aumentando a carga deste imensurável barril de pólvora.

Em A Murder of Gods, sexto capítulo desta primeira temporada, finalmente somos apresentados à ruína dos nossos protagonistas. Após saírem relativamente ilesos do massacre na delegacia, Shadow (Ricky Whittle) e Wednesday (Ian McShane) retornam para o hotel no qual estavam hospedados e finalmente compreendem as forças que estão enfrentando: a ascensão das novas divindades, provindas da cultura capitalista que permite aos mortais idolatrarem a própria tecnologia e seus avanços pretensiosos, é inevitável; resta-lhes batalhar, mas ao que tudo indica o recrutamento de soldados para o lado “clássico” está indo de mal a pior.

Deste modo, Wednesday decide mais uma vez pegar a estrada ao lado de Shadow, levando-o para a cidade de Vulcan, no estado da Virgínia. Já aqui, podemos traçar mais uma vez o paralelo entre o personagem encarnado por Whittle e tantos outros heróis de diversas narrativas épicas e que fazem parte do arco relatado na jornada do herói: a passagem por obstáculos segue uma linha crescente, mas, até agora, Shadow ainda não parece ter absorvido seu real papel dentro do contexto geral; muito pelo contrário, ele continua negando sua existência e reafirma a passividade contra a qual sempre lutou, absorto dos acontecimentos que o colocaram nos holofotes principais. A própria atuação do ator mantém-se numa linha reta com alguns ápices de incredulidade, mas que logo o colocam de volta nos eixos. Confesso que, em American Gods, seu arco é um dos menos desenvolvidos, apesar de não perder o brilho da ingenuidade, atrelado ao que pode vir como uma grande virada nos próximos capítulos.

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Talvez seja inclusive neste episódio que Shadow finalmente creia no que está bem diante de seus olhos: afinal, os dois vão visitar um velho amigo de Wednesday, cujo nome é emprestado para a cidadela: o deus romano do fogo e da metalurgia, que é mais conhecido por seu equivalente no círculo grego (Hefesto). Aqui, seu ar modernizado e completamente remodelado para o que podemos chamar de “industrialização da cultura” é muito bem relido por Corbin Bernsen dentro de um espectro visceral. Primeiramente, é necessário dizer que Vulcano é uma adição inesperada para a mitologia da obra homônima de Neil Gaiman: em outras palavras, tal aparição ocorre apenas dentro da releitura televisiva, adicionando ainda mais camadas a uma história já complexa nas páginas.

Segundo, sabemos que sua própria existência é denotada da crença férrea da sociedade grega em um panteão politeísta de divindades milenares e que desde sempre povoaram o imaginário das pessoas. Para aqueles que não o conhecem, o deus em questão é filho de Júpiter e Juno e marido de Vênus, constantemente rechaçado por seus defeitos físicos e, por isso, condenado a passar a eternidade forjando as armas mais incríveis para seus conterrâneos. Conhecer a história deste personagem contribui para o entendimento da trama, mas não o torna dependente dessa carga cultural; mas seu semblante impetuoso e por vezes arrogante provém das frustrações supracitadas e permitem ao espectador compreender o porquê de sua constante busca pela adoração e louvação.

Desde o primeiro texto, digo e repito que os deuses antigos ainda buscam por alguma centelha de fé dentro dos corações dos mortais, que sucumbem cada vez mais às seduções da mídia, da tecnologia, das drogas e do puro hedonismo. Vulcan não poderia ser diferente, mas seu endossamento como “líder” emerge na forma de uma peculiar cidade que carrega seu título e que, resgatando elementos da própria cultura estadunidense, traduz o poder impetuoso do fogo na forma de revólver, espingardas e rifles. E a justificativa dessa mudança vem com uma explicação bárbara que se relaciona inclusive com a sociedade de consumo em que vivemos: Vulcan precisava franquear a fé que outrora possuía e, por isso, transferiu todas as suas habilidades para o manejo e a arquitetura de balas. Cada tiro disparado, cada repuxar de gatilho é uma reza em seu nome, e é justamente isso que o mantém vivo e vigoroso até hoje.

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Enquanto isso, Laura (Emily Browning) e Mad Sweeney (Pablo Schreiber) voltam a roubar a cena em mais de uma de suas sequências hilariantes que coloca em cheque as crenças de ambos os lados. Enquanto o cinismo religioso e quase sádico dela mostra sua incessante e mesquinha necessidade de se provar valiosa para seu ex-marido – o qual parece ser arrastado cada vez mais para longe pelas claras intenções de Wednesday -, a bruta força inutilizada do leprechaun encontra mais uma barreira com os poderes físicos inexplicáveis adquiridos por sua nêmeses. E os dois são obrigados a trabalhar juntos para que consigam alcançar seus objetivos e possam encontrar uma “paz interior”. Os diálogos entre os dois personagens trazem uma dinamicidade inigualável para as telinhas e sempre são desprovidos de filtro social – e a química entre os atores é definitivamente algo para ser ovacionado.

Normalmente, reservo o início da crítica para discorrer sobre os prólogos que precedem a narrativa principal em American Gods. Mas neste texto, resolvi dissertar sobre uma das melhores releituras dos últimos tempos nos parágrafos finais: a mitologia católica. É necessário dizer que, após uma sequência de mini-narrativas que despertavam uma curiosidade quanto ao que seria retratado no episódio, esta iteração resolveu mergulhar de cabeça na concepção eurocêntrica-ariana de Jesus Cristo para trazê-lo a uma contemporaneidade mais representativa e palpável. Aqui, os protagonistas da sequência fazem parte de um grupo de imigrantes mexicanos que tentam cruzar os limites entre seu país de origem e os Estados Unidos.

A convergência de múltiplas culturas ocorreu dos modos mais inusitados quando pensamos em adjetivos que caracterizem a sociedade norte-americana: já tivemos, por exemplo, a chegada de uma fragata viking com seus louvores ao deus da guerra; a passagem do homem pelo estreito de Bering, e sua mentalidade permeada pelo sacrifício humano; escravos africanos abandonando sua sanidade em nome da liberdade; e até mesmo a permanência da mitologia egípcia nas religiões muçulmanas que encontraram um espaço limitado de disseminação em meio a tanto preconceito. Agora, nossa atenção se volta para um grupo de refugiados que estão munidos apenas com a palavra da fé para sobreviverem a um dos obstáculos mais complexos enfrentados pelo ser humano: a necessidade de sobreviver.

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A condição de Cristo é reafirmada de forma rápida, mas emocionante e convincente. Ao serem perseguidos pelos guardas de patrulha – e serem abatidos um a um – a figura humanizada do “Salvador” se coloca à frente deles para tentá-los proteger, nostalgicamente nos remetendo à Bíblia Sagrada, mais precisamente no momento em que ele é tido como aquele que deu sua vida para a continuação da humanidade. O desfecho não poderia ser mais claro: ele é morto com um tiro direto no coração e é levado ao chão, repetindo a própria cena da crucificação em meio a um cenário caótico e quase bélico.

A Murder of Gods é definitivamente um dos episódios mais surpreendentes de toda a série, endossando os papéis de cada um dos personagens e mostrando que ainda há muito a ser explorado dentro da extensa mitologia resgatada por Gaiman, Michael GreenBryan Fuller. Sua importância para a sociedade contemporânea se reafirma cada vez mais, principalmente num momento em que todos buscam por um lugar com o qual se identifiquem – e se sintam seguros.

American Gods – 01×06: A Murder of Gods (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: Adam Kane
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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