» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Desde meados do século V, a disseminação e propagação da religião católica como única e soberana ocorreu de forma profusa, alastrando-se para a Europa e praticamente engolindo fés menores e consideradas pagãs. É um fato dizer que, apesar deste distanciamento e da crença em um único deus (onipotente, onipresente e onisciente), a convergência de diferentes culturas foi um dos fatores principais para que a hegemonia cristã emergisse como uma das mais fortes de toda a história da humanidade, ocasionando embates históricos como as Cruzadas, os quais reafirmavam a superioridade católica e subestimava os ídolos e divindades de outrem.

E é exatamente isso que o último capítulo de American Gods deseja analisar: como a soberania de uma única religião na verdade é fruto de uma fluidez contínua de diferentes simbologias que harmonicamente cria um produto terciário. A analogia aos métodos industriais surgidos a partir do século XVIII parece ser a grande base para que a narrativa encontre sua plasticidade e transforme-se em uma grande dissecação das mentiras e falácias que ocuparam as mentes dos líderes religiosos contemporâneos: ainda que não seja tão direto, o episódio intitulado Come to Jesus já premedita diversas ramificações e subtramas que terão enfoque, incluindo a aglutinação de culturas célticas e bretanhas para os canais censuráveis do catolicismo da Idade Média.

Os primeiros minutos são destinados para a história não tão explorada de Bilquis (Yetide Badaki), a deusa africana do desejo, dispondo-se de sua ascensão ao controle dos mortais até sua queda nas mãos daqueles que outrora a louvavam. Diferentemente das iterações anteriores, a season finale de American Gods preza pela explanação da rixa bélica entre as antigas e as novas divindades, discorrendo sobre como os ídolos são passíveis de transposição conforme o progresso atinge a cultura de uma comunidade. Por exemplo, a personagem em questão detinha o poder de usar, através do sexo, qualquer pessoa que mantivesse com ela um ínfimo laço de fé e sugar sua energia física, literalmente fazendo-a desaparecer. Com o passar do tempo, essa crença transformou-se em um receio, e logo depois deixou de existir, abrindo espaço para que Bilquis caísse na tentação dos mortais e perdesse seu poder.

O choque entre gerações funciona de forma tão orgânica na série que é quase redundante descrever o incrível trabalho de direção através de todos os episódios. Entretanto, neste capítulo, Floria Sigismondi resgata suas concepções ítalo-americanas e as coloca de modo funcional nas telinhas, emprestando elementos da estética vanguardista em plena década de 2000, principalmente na sequência em que Bilquis é seduzida pelos aparatos tecnológicos de Technical Boy (Bruce Langley), um dos principais asseclas de Mr. World (Crispin Glover) e refuta o que pensávamos no começo da temporada: os deuses antigos não estão morrendo, e sim abandonando seus valores em detrimento da evolução.

E de que modo mais poético essa mudança sociológica seria tratada em American Gods senão com aplicativos de relacionamento? Como podemos lembrar, a deusa do desejo se encontra com diversas pessoas através deste meio, satisfazendo-se e deixando no ar uma possível metáfora-crítica sobre a efemeridade de encontros e a constante falta da sensibilidade e do toque entre as pessoas. Claro, isso não abrange toda a população da terra, mas claramente se restringe a um nicho específico e causa desconforto. Entretanto, o foco não é esse: lutando pela supremacia plena e incontestável, os deuses antigos e novos estão recrutando soldados para renegar a ordem imposta há milênios sobre os humanos ou mantê-la. Bilquis já foi seduzida pelo lado mais cru e racional do jogo, comandando por World, deixando Wednesday (Ian McShane) um pouco mais enfraquecido e ainda em busca de sua Rainha.

Sabemos que os métodos de Wednesday não são os mais puros e justos. Como visto em A Murder of Gods, o personagem percebeu que seus antigos seguidores já haviam se curvado ao progresso e não poderia salvá-los, mas ainda assim conseguiu convencer Vulcano (Corbin Bernsen) a forjar uma espada para permitir que ele tivesse as armas necessárias para a futura e iminente guerra. E logo depois de matá-lo, ele e Shadow (Ricky Whittle) partiram em direção à próxima tentativa de recrutamento.

A jornada agora segue o simbolismo por trás desta guerra etérea e sem precedentes. Os deuses são praticamente humanos, visto que dependem da boa vontade de suas próprias criações para continuarem existindo e serem louvados, ainda que indiretamente e à mercê de uma sólida barreira cultural. É exatamente isso o que ocorre com Easter (Kristin Chenoweth), uma das últimas novas aparições dentro de American Gods que fornecem um endossamento da própria identidade criativa da série e fornecem uma perspectiva mais clara do que estamos prestes a enfrentar na segunda temporada.

Easter (ou Páscoa, na tradução para o português) é o nome dado à época cristã da ressurreição de Jesus Cristo, o Salvador do povo hebreu das mãos da tirania romana, após sua crucificação. Entretanto, sabe-se que a data comemorativa da comunidade católica é na verdade uma readaptação do festival da primavera celta, no qual louvava-se a Ostara, deusa da fertilidade que pertence à mitologia nórdica e tem vínculos com a figura que Wednesday – a qual descobrimos ser, durante um solilóquio autorreflexivo, uma representação mais velha de Odin, chefe supremo das divindades anglo-saxônicas. Desde o primeiro momento em que aparece em cena, Easter demonstra ser alguém que não é; mesmo com todo seu poder e a possibilidade de obrigar os mortais a louvá-la como antes, ela se curva ao domínio da Igreja e do louvor excessivo por parte dos ortodoxos.

Chenoweth sem dúvida rouba todos os minutos da season finale com seu charme natural e toda sua composição estética digna de análise: seu vestido tomara-que-caia é florido e adornado com cores “da estação”, por assim dizer, como roxo, azul-claro e branco, resgatando a fauna proveniente dos meandros dos Estados Unidos e simbolizando a ternura e a pacificidade vinda com o equinócio de primavera. Suas feições são perscrutadas por uma expressividade ímpar e que constantemente causa comicidade, principalmente se colocarmos lado a lado sua figura e seus diálogos ácidos. Ela definitivamente não gosta de Wednesday, e utiliza jargões católicos para exprimir seu descontentamento.

Seu grande momento de redenção vem em meados do terceiro ato, quando ela recebe a visita de Media (a sempre incrível Gillian Anderson, agora dando vida a uma mistura entre The Real Housewives Hairspray) e Technical Boy para tentar descobrir se ela continuou com sua “imparcialidade” ou se ela decidiu finalmente se entregar ao progresso e ao darwinismo religioso, um conceito tão bem elaborado dentro do microcosmos da série que fica difícil separar os estudos antropológicos da ficção criada por Neil Gaiman. “O mais forte sobrevive”. Adaptação ou extinção. É isso o que os novos deuses prometem, além de premeditarem uma sangrenta guerra na qual, querendo ou não, eles irão vencer. Media, Technical, World, Bilquis e a horda das divindades contemporâneas estão atados ao atendimento das fúteis e individualistas necessidades do homem moderno e distorceram completamente o significado de fé.

Entretanto, Ostara sabe muito bem as cartas com as quais está jogando, e demonstra todo o seu poder de forma incrível e assustadora ao reverter a vida que advém com a chegada da primavera, forçando seus falsos adoradores a sucumbirem à seca e ao medo da morte.

Come to Jesus é um título tão irônico quanto brilhante, expressando a massa amorfa que os cegos seguidores de uma determinada religião se tornaram ao negarem suas raízes multiculturais. O último episódio da primeira temporada de American Gods pode ser considerado um dos suprassumos da narrativa televisiva contemporânea e definitivamente encontra lugar como um dos melhores produtos audiovisuais da década, alcançando uma inefável legião de fãs e nos deixando prontos para os próximos capítulos.

American Gods – 01×08: Come to Jesus (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: Floria Sigismondi
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

Comente!