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Os novos deuses estão vindo. E a batalha vai começar.

A mitologia sempre foi alvo de grande exploração por parte de artistas e criadores do meio audiovisual. Apenas nos últimos anos, contos de fada, histórias de terror e bela parte do arsenal narrativo grego e romano foram adaptados para diversas obras – já podendo citar aqui, como as mais recentes, Once Upon a Time e Penny Dreadful. Entretanto, todo este leque de possibilidades deve ser tratado com extrema cautela para não cair nos perigosos clichês ou para não saturar demais a delicadeza de uma criação como essas.

E mesmo com este peso, Neil Gaiman parece ter-se utilizado de todo seu repertório para fazer o exato oposto: começar uma mitologia do zero. Criar um novo universo, partícula por partícula, e juntá-lo com o mundo e a história como já conhecemos. São poucos os escritores que conseguem fazer isso com a destreza suficiente e com a competência necessária para manter os fãs vidrados da primeira página até o fim – e agora, esta mesma história chega às mãos do canal estadunidense Starz.

Adaptar uma obra de Gaiman é, na maioria das vezes, motivo de expectativas inenarráveis – tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Michael Green e Bryan Fuller, cuja afinidade com dramas fantasiosos os deixa mais que aptos para transmitir com fidelidade a narrativa de Deuses Americanos através das telinhas, mergulharam profundamente neste conceito identitário criado pelo autor supracitado e nos entregaram uma das séries mais promissoras de 2017. E, auxiliados por David Slade (Hannibal), o episódio piloto de American Gods é definitivamente uma obra-prima.

A história gira em torno do ex-presidiário Shadow Moon (Ricky Whittle), cujo tempo de prisão é reduzido em alguns dias devido à morte inesperada de sua mulher, Laura (Emily Browning) e de seu melhor amigo, Robbie (Dane Cook). Como se estivesse predestinado a seguir outro caminho após trilhar o “arco da redenção”, o protagonista passa a se encontrar com diversas figuras misteriosas, chegando inclusive a ser contratado por um homem de meia-idade chamado Sr. Wednesday (Ian McShane), cuja política de contratação vai além do mundano.

Primeiramente, é necessário dizer que esta série não é como suas semelhantes e não se preocupa em criar uma contextualização para dar decorrência aos fatos no tempo presente. O roteiro assinado por Fuller e Green arquiteta, na verdade, um prólogo épico que a priori foge da identidade do livro e destoa do restante do capítulo: uma caravana de colonizadores chega a uma terra desconhecida e, percebendo a hostilidade com a qual são recebidos, rezam para que seus deuses os guiem de volta para casa. E esta não seria uma obra de Gaiman se não fosse banhado a sangue – sim, uma das primeiras sequências é uma construção em câmera lenta de uma batalha fruto da oferenda destes mesmos homens para seu deus da guerra.

Logo depois, somos transportados para o tempo presente. E, como já citado, American Gods se distancia de outras obras-primas de fantasia como O Senhor dos Anéis ou As Crônicas de Nárnia; em outras palavras, a introdução está ali como referência estética, mas não necessariamente interfere na situação dos personagens protagonistas. Shadow segue sim os padrões da jornada do herói, porém de forma bem mais sutil e acobertada por elementos imagéticos com presença marcante: e, como anunciado durante a pré-produção, os dez primeiros episódios irão cobrir um terço da história criada por Gaiman e repaginada pelo time da Starz. Deste modo, espera-se que Shadow entenda o seu papel neste jogo bélico perto da season finale.

A premissa principal é a luta entre os antigos deuses e os novos: a ideia de criar uma mitologia própria dos Estados Unidos vai de encontro aos conceitos medievais de outras – como por exemplo a céltica, a romana e a cretense -, e brincar com esta “rixa”, por assim dizer, entre elementos tão arquetípicos e que povoam o imaginário das pessoas configurou-se como um dos pontos altos. Apenas no primeiro capítulo, já fomos apresentados a representações materialistas da ganância, da soberba e da avareza, todas perscrutadas por interpretações extremamente envolventes.

E já aqui, faço uma constatação especial para McShane: sua presença de cena, ainda que não se equipare a dos outros, é emocionante desde a primeira vista. Conduzindo com maestria uma das poucas cenas cômicas de The Bone Orchard, como foi intitulado o piloto, sua encarnação de Wednesday beira a perfeição. Suas nuances são realizadas sutilmente pelos meneios de sobrancelha ou pela voz mais rouca, que lhe confere experiência e peso; até mesmo alguns diálogos um pouco forçados são proferidos com naturalidade – e já é um fato dizer que este personagem será um dos mais adorados da série.

A composição de American Gods também já é carregada de identidade: a paleta de cores oscila de forma harmônica entre vermelho e azul, e nenhum dos dois tons é sobreposto ou ofuscado pela escolha dos planos e angulações, os quais são muito bem definidos: quando próprio de um personagem, a câmera opta por enquadramentos em detalhe que valorizam de forma quase claustrofóbica as mínimas ações; quando em conjunto, temos uma simetria exacerbada perscrutada por diálogos e ações caóticas, criando elementos contraditórios que apenas adicionam complexidade à narrativa.

O capítulo segue uma cronologia bem demarcada, mas isso não quer dizer que não se valha de algumas cenas fillers; no início do segundo ato, somos apresentados a uma sequência explícita de veneração e dominação, protagonizada por Yetide Badaki como a deusa Bilquis. Seu papel na história ainda não foi explicado – e não precisa, ao menos por enquanto. Mas sua marcante presença indica que ela será ou de grande valia ou como um obstáculo a ser transpassado por Shadow, Wednesday e os outros.

The Bone Orchard é uma experiência sensorial e narrativa praticamente inédita em comparação às inúmeras outras séries de ficção fantástica que são produzidas ano após ano. Com sutilezas inesperadas e interpretações de tirar o fôlego, o episódio marca um ótimo início para o que pode vir a série uma das melhores séries do ano.

American Gods –01×01: The Bone Orchard (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: David Slade
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

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