» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Para aqueles que acharam os capítulos anteriores de Cult confusos e irritantes: Ryan Murphy acabou de provar mais uma vez que sabe como cozinhar o suficiente para entregar uma obra-prima televisiva.

As coisas não parecem favorecer Sarah Paulson na sétima temporada de American Horror Story. Considerando seu histórico sofrível dentro da antologia, dando vida a diversas personagens cujos arcos são pautados em sacrifícios físicos e psicológicos para a transcendência cósmica, já era de se esperar que o criador da série colocasse em círculos ainda mais dramáticos e angustiantes. Entretanto, nenhuma performance se mostrou tão visceral quanto a de Ally Mayfair, sócia de um restaurante que sofre com o retorno de inúmeras fobias e traumas após o resultado das eleições presidenciais de 2016 nos Estados Unidos. No terceiro capítulo, intitulado Neighbors from the Hell, a personagem parece começar a ter uma clareza maior dos perigos incomuns que a cercam, assim como o espectador.

Primeiramente, a nova iteração começa com um prólogo fabuloso, arquitetado para expandir as noções de medo sobre as quais Cult fala. Somos apresentados para um casal que sofre com os distúrbios psicológicos da mulher – tafofobia, ou seja, o medo de ser enterrado vivo e acordar dentro de um caixão. Entretanto, diferentemente da protagonista, ela parece ter superado esse constante desespero que nunca chegou a se concretizar, mas que foi desencadeado pela relação abusiva com seu falecido pai, o qual costuma trancá-la em um pequeno gabinete. Em sessão com o psiquiatra Rudy (Cheyenne Jackson), o qual mostra a primeira conexão entre personagens aparentemente separados por tramas opostas, os dois se mostram prontos para seguir em frente e parecem ter encontrado uma branda e merecida paz.

E é aí que tudo fica ainda mais tenebroso, obscuro e paradoxalmente mais compreensível por parte da audiência. Assim que chegam em casa, os dois são abordados pelo mesmo grupo de palhaços responsável pela morte dos Chang em Election Night e são presos em dois caixões de madeira, obrigados a permanecer ali até a morte. É interessante analisar que, assim como o casal do primeiro episódio, este também abandonou seus medos e encontrou uma ruína tão drástica quando os traumas que os perseguiam no passado. Ao que tudo indica, há duas previsões a serem feitas pela série: os “marcados” pelo culto sanguinário e circense ou são aniquilados pelos próprios medos, ou então são absorvidos como uma força extra pelos seguidores de algo que não está muito explícito, mas que se inclina para a perversa e dúbia mentalidade anarquista de Kai (Evan Peters).

Neste terceiro capítulo, a diretora Gwyneth Horder-Payton mantém o mesmo ritmo dos episódios anteriores, mas consegue dosar os momentos de pura tensão e alguns alívios dramáticos e cômicos para balancear a catarse a ser sentida pelo espectador. Aqui, opta-se muito mais pelos planos sequências que seguem as consequências da morte de Pedro (Jorge-Luis Pallo), cozinheiro do restaurante de Ivy (Alison Pill) que é acidentalmente morto pelas mãos de Ally. É insuportável o sentimento de impotência que se apossa de nós, meros voyeurs do que pode ser considerado uma roupagem totalmente nova para a série: afinal, ela é constantemente atacada por aqueles que a acusam de racista, sendo que, levando em conta a situação permeada por gatilhos na qual se encontrava, agiu em um impulso de autoproteção.

A arquitetura da temporada mergulha fundo em uma concepção distorcida dos thriller psicológicos, e não restringe em buscar referências em filmes dos anos 1980 e 1990 para fornecer mais embasamento estético para a narrativa. As idealizações claustrofóbicas são próprias de obras como O Iluminado ou Enterrado Vivo, seja na transformação de um cenário grandioso em uma prisão psicológica – não, não estamos falando dos visuais do Hotel Overlook, como vistos em Hotel – ou nos enquadramentos em big close e blur que, por mais que tenham freado aqui, ainda são constantes para mostrar a fragilidade da protagonista. Porém, não espere uma trama unidirecional que vise ao foco apenas de uma das novas criações de Murphy: cada personagem tem o seu arco cada vez mais delineado e indo ao encontro dos objetivos simbólicos e metafóricos da temporada.

A sutileza do roteiro assinado por James Wong também é algo a ser aplaudido neste terceiro episódios: além das profundas mudanças na trama geral, que seguiam uma linearidade necessária nos capítulos anteriores, o personagem interpretado por Cooper Dodson, Oz, filho de Ally e Ivy, é protagonista de uma narrativa coming-of-age às avessas. Diferentemente de outros heróis e heroínas que passam por esse processo de amadurecimento, o garoto parece ser atraído para momentos de puro terror, forçando-o a internalizar suas frustrações em meio à queda de suas mães em seus mundos interiores. Oz não apenas observa seu animal de estimação ser brutalmente morto dentro de um forno de micro-ondas, mas é o primeiro a perceber os sinais de que sua família está em perigo. Ao que tudo indica, a criança será obrigada a abandonar seu papel como criança e elevar-se a um patamar ao qual não está preparado.

Apesar das claras referências buscadas nos primeiros anos de Darren Aronofosky no cinema – incluindo a estética hiper-realista e explícita de Réquiem para um Sonho no tocante ao terror dando lugar gradativo ao drama intimista -, os momentos de alegria também existem. Pontualmente, mas existem. Em determinada sequência, presenciamos um diálogo contraditório sobre o conceito de paz: em um momento, temos um jantar em família banhado a risadas, promessas de um futuro melhor e até mesmo uma leve centelha de esperança para o futuro dos protagonistas; em outro, Kai e Ally, com personalidades totalmente distintas, dialogam sobre a mesma coisa e parecem chegar em um sinistro acordo de trégua, fornecendo uma perspectiva nada convencional para a pacificidade social.

Neighbors from the Hell é o melhor episódio da temporada até agora. Parece meio cedo para dizer isso, mas é impossível negar que Cult vem seguindo num crescente ritmo alegórico que esperamos, do fundo do coração, que permaneça até a season finale. Com exceção da última cena, que tornou-se previsível após acontecer algumas vezes, o brilho deste novo capítulo é quase intangível, seja pelo equilíbrio estético, pelo roupagem psicológica ou pela mistura de jump scares com o melhor do thriller narrativo. Murphy parece ter recuperado a mão – e isso é uma ótima notícia para todos nós.

American Horror Story – 07×03: Neighbors From Hell (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: James Wong
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada!

Comente!