» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter e fique por dentro de todas as notícias! «

O culto está completo.

Tudo bem, completo não é a palavra certa. Afinal, desde o lançamento dos múltiplos teasers para a sétima temporada de American Horror Story, sabemos que o tema-base é a expansão de um grupo de indivíduos movido pelo medo – e também temos ciência, na prática, de que quanto maior o rebanho, mais poderoso e imparável ele se torna (vide, por exemplo, a “raça ariana” que emergiu em meados de 1940 na Alemanha como o ápice da evolução humana). No capítulo anterior, conhecemos os motivos por trás dos seguidores recrutados por Kai (Evan Peters); em Holes, quinto capítulo do ano da antologia, passamos a conhecer a fundo seus integrantes – com uma grande surpresa que se revela logo no prólogo.

O personagem interpretado por Peters poderia ser encarado como a personificação do lado reacionário, que tanto contribuiu para a disseminação dos ideais retrógrados durante as eleições presidenciais de 2016. Entretanto, é justamente nessa dupla de episódios, que se iniciou semana passada e encontrou sua resolução nessa, que a mente perturbada com a qual estamos lidando vai muito além do que podemos medir. Ele deseja o controle. Em várias sequências, seja com seus semelhantes ou com seus “inimigos”, Kai aparece pedindo-os para lhe contar seus maiores medos – o que nos leva acreditar que sua força de vontade para mudar o mundo vem desse âmbito do psicológico humano.

O conceito de medo é insondável e nos acompanha desde sua existência – e também foi o que garantiu nossa sobrevivência por tanto tempo e nossa constante evolução. É engraçado analisar que tal gatilho está usando com um propósito totalmente paradoxal, visto que aquele que entrega seus receios para uma causa maior é digno da vida que lhe foi concedida; entretanto, aquele que vive em reclusão total e deixa que suas fobias emerjam como um “modo de vida”, por assim dizer, não deve ter a honra de permanecer entre os fortes e deve ser eliminado. Isso aconteceu em diversos momentos, com a morte de personagens secundários que, vivendo enclausurados, tiveram suas vidas tiradas pelo culto assassino.

“Todos devem se submeter”. A ideia de Kai para o renascimento da nação vem até mesmo da teoria do caos, a partir da qual a sociedade deve estar completamente embebida em situações desequilibradas para encontrar uma salvação, que emergirá em uma figura específica – no caso, ele mesmo. E seu poder, a priori inofensivo, acabou por recrutar uma das figuras que acreditávamos estar do lado certo: Ivy (Alison Pill). Em 11/9, descobrimos que ela e Winter (Billie Lourd) já se conheciam antes desta ser contratada como babá da família. Isso nos coloca em mais uma teoria, de que tudo o que aconteceu na casa dos Mayfair-Richard na verdade foi combinado para ativar e impactar no subconsciente da vítima da história – Ally (Sarah Paulson, que foi deixada de lado para os fillers da temporada).

Ally descobre, assim como o telespectador, que não existe ninguém em quem possa confiar. Durante uma tentativa de entender o que se passa na casa de seus vizinhos, numa sequência clássica de voyeurismo dentro de obras de suspense, a personagem se vê assistindo a uma cena íntima entre Harrison (Billy Eichner) e o oficial Jack Samuels (Colton Haynes), que parecia estar ajudando-a com os ataques, mas se mostrou um duas-caras. As coisas alcançam um novo nível quando Ally sorrateiramente invade a casa ao lado e encontra Meadow (Leslie Grossman), a qual pensava estar morta, dentro de uma cova, lutando para sobreviver. Não é nenhuma surpresa que inúmeras outras possibilidade narrativas tenham se aberto aqui, visto que a relação amigo-inimigo definitivamente não se mantém em seu conceito mais superficial.

Entretanto, Ally não deve lidar apenas com as ameaças externas e constantes mentiras – sim, ela acaba descobrindo o segredo de Ivy; seus medos também entram em uma profundidade incontestável: sua tripofobia (pavor de pequenos buracos) agora atingiu um nível subconsciente, fazendo-a sonhar que sua pele derretia nos mesmos padrões de uma colmeia, por exemplo. Ao consultar o Dr. Rudy (Cheyenne Jackson), ela descobre que está adentrando em um território muito mais perigoso ao deixar tudo aquilo se apoderar dela – o que nos leva a pensar que o retorno e a pressão desses traumas pode indicar que a personagem de Paulson se torne a fonte-mor de poder do culto.

As duas grandes surpresas do episódio são, sem sombra de dúvida, a impetuosidade da jornalista Beverly Hope (Adina Porter) e o passado revelado de Kai – ambas correlacionadas. Beverly, desde que fora recrutada por seu “mestre”, mostrou-se extremamente digna de agir por conta própria e arquitetar as situações mais macabras e sádicas para suas vítimas (a sequência dos caixões no quarto capítulo foi toda delineada por ela). Ela chega a entrar na trama clássica do “aprendiz superando seu mentor” ao sentar-se com Kai na situação que já conhecemos (“me diga qual o seu maior medo”) e virar o jogo, obrigando-o, ainda que indiretamente, a revelar seu passado.

E surpresa, surpresa: o personagem de Kai é, dentro do panteão dessa nova temporada, o que passou por mais traumas. Ele presenciou o homicídio do pai pela mãe, e logo depois seu suicídio inesperado, deixando-o à mercê de dois corpos sem vida e que outrora faziam parte de sua rotina. E é aí que a epifania do episódio alcança seu ápice, ou seja, quando o fluxo de consciência do jovem nos revela uma parte de sua família que estava escondida: o próprio Dr. Rudy. Ou seja, o responsável por tirar o medo das pessoas e livrá-las de fantasmas é a maior nêmeses de Kai – e provavelmente o que mais lhe causa pavor por representar uma fraqueza mais que explícita.

Holes é um incrível avanço dentro da narrativa de AHS: Cult, por sanar algumas dúvidas essenciais para a compreensão do contexto geral e abrir portas para mais investidas do gênero. E não, não espere que a temporada mantenha seu ritmo: tudo é possível, e, considerando que a mente por trás de tudo isso é Ryan Murphy, o previsível é, na verdade, inimaginável.

American Horror Story – 07×05: Holes (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Maggie Kiley
Roteiro: Crystal Liu
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada!

Comente!