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American Horror Story não é uma antologia de terror conhecida apenas pelo fantástico e pelo macabro, mas sim pela capacidade inenarrável de misturar harmonicamente ficção e realidade seguindo moldes criados por si mesma. Isso vem acontecendo desde a primeira iteração e, desde então, ganhando grande espaço dentro da mitologia arquitetada por Ryan Murphy e seu time criativo. Em Asylum, por exemplo, tivemos a presença da icônica Anne Frank, um dos nomes mais memoráveis dos horrores do holocausto no período da II Guerra Mundial, enquanto em Roanoke, a colônia perdida que empresta o nome para o subtítulo teve destaque nas tramas principais.

Em Cult, como foi nomeada a nova iteração, já era de esperar que alguns elementos verossímeis se chocassem com a atmosfera sombria e dilacerante mais uma vez criada por Murphy – temos, por exemplo, as eleições presidenciais dos Estados Unidos como pano de fundo e incidente incitante de inúmeros personagens, incluindo Kai (Evan Peters) e Ally (Sarah Paulson, que inexplicavelmente perdeu seu brilho nos episódios anteriores); e para tentar aumentar a complexidade dos fatos apresentados, nada mais tentador que pensar numa subnarrativa em flashback.

O grande problema deste novo episódio, entretanto, é sua relevância para a temporada: nenhuma. É claro, a condução narrativa ainda segue os mesmos moldes crus e superexpositivos dos capítulos anteriores, mas isso não significa exatamente que os eventos acerca dos personagens impactem profundamente nas suas escolhas. Em Valerie Solanas Died for Your Sins: Scumbag, a narrativa nos leva a mais uma das múltipla segregações do culto liderado por Kai – que agora venceu as eleições para se tornar conselheiro municipal após uma tentativa de assassinato sofrida por Meadow (Leslie Grossman) no episódio anterior: a traição.

É interessante analisarmos como o personagem de Peters é extremamente manipulador a ponto de juntar um número de pessoas movida pelo ódio para espalhar um novo conceito de medo até a página número dois. Entretanto, foi provado neste mais novo capítulo que seus objetivos são essencialmente individualistas e não incluem mais ninguém além de uma pequena parcela de membros do culto que criou – no caso, os homens. Mesmo com a variedade de tipos sociais que integra essa nova “comunidade”, Kai é retrógrado e acredita que apenas os homens têm o que é necessário para governar um mundo mergulhado no caos.

E é a partir daí que mais uma adição é feita no elenco: Frances Conroy, retornando para seu sexto ano consecutivo na série no papel de Bebe Babbitt, uma espécie de reveladora, por assim dizer. Nos anos 1960, Bebe fazia parte de um dos primeiros cultos que se baseavam no ódio para disseminar uma ideologia de destruição – chamado S.C.U.M., que visava a exterminação do sexo masculino da face da terra e a prosperidade de uma sociedade essencialmente matriarcal. Os ideais pregados por este grupo verídico foram escritos pela autora feminista-radical Valerie Solanas (interpretada aqui por Lena Dunham) e conhecida pela tentativa de assassinato do artista plástico Andy Warhol (também interpretado por Peters em AHS).

A ideia aqui é mostrar como Bebe conseguiu reunir as mulheres pertencentes ao culto de Kai para lhes mostrar exatamente o que elas estão enfrentando: um avanço ainda mais forte do patriarcado, que tem como principal objetivo moldá-las para objetivos únicos. Dessa forma, é de esperar que as fortes e diferentes personalidades de Beverly (Adina Porter), Ivy (Alison Pill) e Winter (Billie Lourd) emerjam como um subculto a ser temido pelo seu líder, principalmente quando as três, após conhecerem a história de Valerie, arquitetam um assassinato que tem como objetivo mostrar com quem os membros masculinos do grupo estão lidando.

O ápice do episódio é, sem sombra de dúvida, seu cliffhanger: o gancho que nos prepara para o próximo episódio – um dos últimos, além disso – traz um pacto inesperado entre Kai e Bebe, mostrando que as mortes, as ideologias e até mesmo o confronto de poder entre as mulheres e os homens fazem parte de acontecimentos forjados e previstos por mentes sociopatas. O personagem de Peters é um extremista radical que visa a destruição de um sistema opressor e da instauração do medo como principal forma de selecionar quem merece viver e quem merece morrer – uma teoria darwiniana totalmente distorcida; a personagem de Conroy, por sua vez, parece ter visto o que a liderança de um culto levou sua ex-amante a fazer – enlouquecer e trancar-se em seu quarto imaginando uma utopia que jamais se concretizaria. Mas ainda não é certo como a mentalidade de Bebe mudou: talvez ela sentisse falta de participar de algo grande e, visto o sucesso de Kai, pode ter reencontrado um lugar há muito perdido.

De qualquer forma, esse pequeno espasmo de brilho para o capítulo é deixado de lado quando analisamos a conjuntura completa: uma saturação irrisória e que em nada acrescenta para o entendimento da história. Nas iterações anteriores, os arcos de personagens secundários eram fundamentais para a compreensão e para o envolvimento dos protagonistas, até mesmo no tiro às cegas de Freakshow. Mas aqui, até mesmo a atuação de Dunham incomoda, sem falar dos maneirismos incabíveis de Peters como Warhol. Parece que essa adição foi uma tentativa de temperar a premissa da série com um fundo de verdade – entretanto, o resultado foi bem abaixo do esperado.

Em suma, esperamos que AHS: Cult retome o ritmo visceral dos episódios anteriores. E considerando o que já aconteceu, podemos entender que um deslize é normal – desde que essa exceção não se torne regra.

American Horror Story – 07×07: Valerie Solanas Died for Your Sins: Scumbag (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Rachel Goldberg
Roteiro: Crystal Liu
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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