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A vingança é um prato que se come deliciosamente quente.

Já tornou-se costumeiro em American Horror Story as inúmeras investidas narrativas que trazem como tema-base a vingança. Desde Murder House, personagens icônicos que serão definitivamente relembrados por bastante tempo dentro de um dos maiores panteões do terror da televisão contemporânea, são movidos por um desejo que ultrapassa as necessidades e vontades mundanas, por terem sido arrancados de suas linhas vitais de uma forma brusca e estarem presos entre a plano material e o espiritual, buscando incessantemente por uma forma de libertarem de suas carcaças físicas e encontrarem a tão sonhada paz.

Em Cult, sétimo ano da antologia criada pela distorcida mente de Ryan Murphy, essa concepção rudimentar é trazida para outro nível, algo que é explicado como a própria salvação. “Os fins justificam os meios”, clássica máxima atribuída ao pensador Maquiavel, é na verdade uma redundância para os protagonistas desse novo círculo do inferno, principalmente em se tratando do revolucionário radicalista Kai (Peter Evans), cujos objetivos tornam-se cada vez mais encobertos pelas nuvens da dualidade e da ambivalência. Desde o primeiro episódio, conhecemos cada vez mais camadas diferenciadas que compõe sua personalidade marcada por traumas e pelo anseio de transformar a sociedade em que vive em uma tirania disfarçada de utopia – e neste último capítulo, intitulado Drink the Kool-Aid, parece termos chegado ao ápice de sua loucura política.

Conforme descobrimos no episódio anterior, Ally (Sarah Paulson) emergiu como uma personagem completamente diferente da qual se apresentou para o público, oscilando bruscamente de uma “donzela em perigo”, perscrutada pelas mais variadas fobias que a impediam de analisar um contexto geral e mantinham-na presa numa bolha individual e insuportável, por falta de adjetivo melhor, para a real anti-heroína do culto ao qual decidiu se render. É claro que, conhecendo seus princípios incorruptíveis – muito mais fortes que os ideais de sua ex-mulher Ivy (Alison Pill) ou da babá Winter (Billie Lourd) – ela tem alguma carta na manga que está salvando para o tão aguardado season finale.

Desde o começo da temporada, muitos fãs reclamaram insistentemente que AHS havia perdido sua identidade sobrenatural para entregar uma rendição inexplicável e incompreensível da dualidade de poderes que se apossa da sociedade atual, inclusive no tocante à luta de “poderes políticos”, palco para os mais diversos embates (ideológicos e físicos). Entretanto, esses conceitos que transcendem o entendimento humano ainda estão nas múltiplas tramas expostas até agora – é só levarmos em consideração a premissa todo homem tem os seus demônios; diferentemente de Freakshow ou Roanoke, as ameaças e as forças superiores não estão explícitas, mas são internalizadas e intrínsecas à própria autoaceitação de determinado indivíduo. Kai lida com o fantasma da morte dos pais, enquanto Winter é carregada pela sombra dos irmãos mais velhos; enquanto isso, Ivy se sente obsoleta frente ao instinto maternal de Ally, a qual luta contra algo que considera infantilmente psíquico.

Tudo se resume àquilo que nos deixa tremendo nas bases: o conceito de medo. Cada um dos protagonistas tem uma fobia própria e diferenciada – mas o que acontece quando esse medo se transforma em ódio? Ora, a essência básica da reafirmação do culto é cultivar em si um sentimento que possibilite a revolução, a dissolução de uma ordem para instituição do caos (se bem que, a cada sequência coreografada, percebemos que o reinado de Kai dialoga de modo assustador com o totalitarismo: instituição de policiamento excessivo, distinção de gênero e raça e, eventualmente, censura e monitoramento digital).

O começo do episódio já entrega uma grande carga verossímil ao trazer Peters em um looping de incríveis e diferenciadas performances. O ator já deu vida a uma icônica versão de Andy Warhol, e agora encarna os famosos líderes de cultos que entraram para a história, como Marshall Applewhite, David Koresh, Jim Jones e até mesmo uma controversa aparição de Jesus Cristo que, querendo ou não, foi uma das figuras mais representativas em relação a mudar a ordem imposta. Todos eles conversam entre si dentro de um solilóquio pré-sacrificial narrado por Kai, culminando para uma entrega máxima para aquilo em que acreditam: a morte. Não como forma de chocar o mundo, mas sim de se livrarem, assim como as almas presas no purgatório, das carcaças físicas para alcançar a transcendência. Logo, já é de se esperar que ele se utilize da mesma saída para os membros de sua organização: para provar sua fidelidade e seu completo comprometimento com os ideais do grupo, os terríveis participantes devem beber de um líquido misterioso, podendo encontrar sua redenção (e isso inclui as personagens femininas, em uma obrigatoriedade tensa e angustiante).

Esta não é a única virada interessante do episódio, que sem sombra de dúvida entra como um dos melhores da temporada: Ally é o centro de um arco de vingança muito bem delineado, levando-a a resgatar elementos de serial killers e homicidas psicóticos para compor seu ultimato para com Ivy: ela tem um plano para investir contra o emergente ditador, e ele começa com a exclusão de quem lhe causou mais asco e quem lhe levou a uma insanidade inexplicável, deixando-a passível de acreditar que estava realmente louca.

Em termos narrativos, Drink the Kool-Aid é um dos ápices de uma temporada completamente insana e que renega ao mesmo tempo que fornece uma nova roupagem para o conceito de slasher e de terror, trazendo um hibridismo metalinguístico para as telinhas que ultrapassa até mesmo as investidas da temporada anterior. Estamos muito próximos do final – e as expectativas estão lá em cima.

American Horror Story – 07×09: Drink the Kool-Aid (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Angela Bassett
Roteiro: Adam Penn
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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