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Ryan Murphy sempre soube como criar um buzz acerca de suas criações. Desde as primeiras investidas televisivas com Glee até suas obras mais recentes como American Crime Story e Pose, a estruturação dos shows que trazia a um público fascinado pelo novo e pela ousadia seguia um padrão de choque e impacto muito interessante e que o colocou, na maioria das vezes, no patamar de um dos showrunners mais experimentais de todos. De fato, Murphy ganha ainda mais glória quando pensamos em sua primeira antologia seriada, American Horror Story, na qual mistura drama, sexo, horror e arquiteta uma atmosfera sobrenatural digna de emulação de clássicos do gênero – em quase todas as temporadas.

Com o fracasso iminente de Cult, que afastou-se bruscamente da proposta da obra e deixou claro um possível desgasta por parte do time criativo em inovar quanto aos temas narrativos, Murphy, ao lado de Brad Falchuk, teria um trabalho a mais: recuperar uma glória perdida que já dava as caras desde Freakshow – que, conforme escrito na crítica, foi uma das iterações mais desperdiçadas do universo. Logo, o anúncio de que o oitavo ano da franquia traria um tema aguardado por boa parte dos fãs e fundiria duas das temporadas mais aclamadas pelo público e pela crítica insurgiu como uma inteligente jogada que felizmente funcionou muito melhor que explorações anteriores.

Apocalypse se passa em um futuro próximo, no qual a ameaça de um ataque nuclear se concretiza nas maiores metrópoles do mundo, incluindo Los Angeles. Bradley Buecker aposta em uma trama antes-e-depois, nos levando para um dia comum em um salão de cabeleireiro que confronta um anúncio inesperado de que Hong Kong foi atacado. A explosão da bomba nunca nos é mostrado, exceto por uma breve sequência que reflete nos olhos da socialite Coco (Leslie Grossman), cuja família abastada permitiu que ela e outras pessoas conseguissem se salvar. Poucos momentos depois, somos transportados para um passado não tão distante em que dois jovens desconhecidos são “resgatados” por agentes da Corporação, grupo secreto de recrutamento das maiores mentes remanescentes do mundo, e são levados ao Posto Três, supervisionado pela macabra matriarca Wilhemina Venable (Sarah Paulson em uma performance brilhante).

O episódio inicial, intitulado jocosamente como The End, faz bom uso de homenagens a outras investidas audiovisuais pós-apocalípticas e até mesmo se inclina para o subgênero da distopia para criar o cenário – que, no final das contas, é a melhor coisa do capítulo. A Corporação tem como mote a sobrevivência e a manutenção da espécie humana em um planeta devastado pela radiação, mas na verdade distorce essa premissa para retornar bruscamente a um paradoxo que podemos intitular de “tempos medievais modernos”. O abrigo é construído de modo opressor, e até mesmo os enquadramentos e ângulos da cama refletem isso pelas composições essencialmente intimistas e fechadas e pelo teto baixo que reafirma a superioridade hierárquica da Srta. Venable e de seu braço-direito, a assassina Miriam Mead (Kathy Bates).

As estruturas cênicas optam por uma luz difusa, proveniente da pouca iluminação que vai ao encontro de uma constante e proposital névoa, dialogando diretamente com o ideal místico restaurado pela série. A ambiência agonizante é um elemento essencial para nos manter presos em um ciclo vicioso de tormento – não que isso necessariamente seja ruim: o público se mantém preso entre as fortificadas paredes do Posto Três esperando que algo aconteça, mas tanto Murphy quanto Buecker se recusam a sair da proteção e nos fazem imaginar o que existe lá fora. Eventualmente, as passagens externas ocorrem, mas não revelam muito pela cobertura leitosa do “inverno atômico” e nos deixam nas mesmas conjecturas.

Mesmo sendo o primeiro contato com a real definição de American Horror Story desde Roanoke, não há muito acontecendo aqui. Estamos diante de um grupo de pessoas assustadas, cujas emoções são quebradas pelas presenças cômicas de Grossman e de Joan Collins, aguardando um possível resgate. Eles permanecem dezoito meses escondidos no subsolo, maltratados e passíveis de punição pelas dirigentes do local. A explicitação de certas sequências, o racionamento compulsório de comida e a falta de liberdade individual e de expressão são alguns temas que brotam vez ou outra, mas não têm seu potencial totalmente explorado. É claro que os quase quarente e cinco minutos de duração passam em um piscar de olhos, mas o ritmo frenético nos deixa com uma sensação de que o desenrolar dos eventos foi rápido demais para uma degustação completa e satisfatória.

A oitava temporada talvez peque no que realmente deveria mostrar: o encontro de dois mundos que buscam pela vingança – representados pelo limbo de Murder House e pela traição de Coven. O público está sedento para que o sobrenatural retorne de forma incisiva, quase sanguinária, e que nos apresente e um novo patamar de horror, suspense e drama. Afinal, alguns dos personagens mais queridos de todos os tempos irão retornar às telinhas; entretanto, não posso tirar mérito desse episódio em trazer a primeira aparição de Cody Fern como Michael Langdon que, como todos sabemos, é o filho de Satã concebido na iteração de 2011 em uma das cenas mais chocantes de todo o show.

Apocalypse tem um pontapé inicial relativamente morno, cujo principal objetivo é definir o tom do que está por vir. Ao que tudo indica, o próximo capítulo irá nos levar a uma das instituições que ainda permanecem erguidas em meio ao fim do mundo – a provável mansão das bruxas comandada por Cordelia -, e o que podemos fazer por enquanto é que Murphy honre o nome de sua própria criação e supere todas as nossas expectativas.  

American Horror Story – 08×01: The End (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Elenco: Sarah Paulson, Kathy Bates, Evan Peters, Joan Collins, Billie Lourd, Adina Porter, Cheyenne Jackson, Billy Eichner, Leslie Grossman, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Lily Rabe, Frances Conroy, Taissa Farmiga
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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