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A mãe de todas as decepções é a alta expectativa – e infelizmente American Horror Story caiu nessa quase verdade absoluta com o retorno de sua oitava temporada na semana passada. Apocalypse não apenas abriu com um episódio morno, como representou a pior estreia da série de todos os tempos, tangenciando os três milhões de espectadores que, na verdade, esperavam uma iteração que superasse até mesmo as glórias de Asylum e Roanoke. Logo, não é nenhuma surpresa que o hype tenha caído consideravelmente para o capítulo seguinte. Entretanto, Ryan Murphy e Brad Falchuk parecem ter acertado o tom de sua antologia, entregando algo além do que poderíamos esperar – ainda que não tenha usado e abuso de seu incrível potencial pós-apocalíptico.

Como bem sabemos, Michael Langdon (Cody Fern), literalmente o próprio Satã em Terra, chegou ao Posto 3 e decidiu que estava na hora de selecionar os sobreviventes merecedores e levá-los para o Santuário – um local desconhecido que só podemos imaginar ser o clã bruxo controlado pela saudosa Cordelia Foxx (interpretada por Sarah Paulson no terceiro ano do show). Sua chegada é misteriosa, carregada com um misticismo aterrador que já precede toda sua significação dentro do escopo de AHS; afinal, estamos lidando com um ser sobrenatural cujo poder é imensurável. É possível até mesmo traçar paralelos entre sua presença e o prólogo que precede o episódio, envolvendo os primeiros traços de magia da temporada.

Langdon tem como plano interrogar cada um dos sobreviventes e decidir quem deve seguir para o novo abrigo. E ele inicia com o voluntarismo compulsório de Gallant (Evan Peters), que deseja sair de lá e provar-se tanto para os outros quanto para sua avó Evie (Joan Collins), da qual conserva ressentimento e um crescente ódio que tem influência em diversos momentos do episódio. Gallant é apenas um dos poucos dotados de uma personalidade conturbada e de uma hipocrisia generalizada que toma conta de todos os seus companheiros, principalmente da insuportável dupla formada por Mallory (Billie Lourd) e Coco (Leslie Grossman). É repugnante vê-los nos holofotes, enquanto personagens como Timothy (Kyle Allen) e Emily (Ash Santos) perdem seu protagonismo em detrimento de uma canalização excessiva àqueles que, por falta de outras palavras, realmente não merecem.

De qualquer forma, tais deslizes são ofuscados por outras presenças igualmente ilustres. O personagem encarnado por Peters e sua devassidão completa acabam invocando uma figura há muito esquecida – o fantasma de látex de Murder House – que retorna para trazer o pior das pessoas e colocá-los em submissão psicológica e sexual. Isso também dá margens para o primeiro enlace entre Timothy e Emily, quebrando os tabus impostos pela rigorosa Srta. Venable (Paulson). A diretora Jennifer Lynch conduz com exímia técnica o desenrolar dos eventos, construindo uma atmosfera tensa que chega em seu inimaginável ápice, não poupando de impactantes viradas e de sacrifícios necessários.

De fato, os pontos altos residem com Paulson e Kathy Bates encarnando Miriam Mead, braço direito de Venable que realiza todo o trabalho sujo, incluindo torturas e execuções sumárias. As duas compartilham de uma química incrível que se estende para outros companheiros de cenas – e ambas as personagens parecem guardar segredos macabros. Langdon eventualmente obriga Venable a despir-se e a colocar em cheque seu pudor excessivo e autoritário, mostrando uma profunda distorção em sua coluna. Momentos depois, Miriam leva um tiro durante um homicídio duplo fracassado e revela que na verdade não é um ser humano, e sim uma espécie de criação híbrida entre mulher e máquina. É claro que isso levanta inúmeras questões e nos faz pensar que as conexões podem existir para muito além de Coven e Murder House.

Lynch mantém a identidade artística ao brincar com uma tentativa de fluidez cênica dentro do claustrofóbico espaço do abrigo. Diferente do capítulo anterior, The Morning After se recusa a visitar os espaços de fora e mantém-se preso dentro de um ciclo angustiante. Não posso negar que as distorções imagéticas características das outras temporadas – incluindo a presença dos planos holandeses e das grande-angulares para efeitos mais floreados – faz falta em diversos momentos e transforma a série em algo mais quadrado do que deveria ser. Mas o aspectos intimista e opressor do cenário em questão deve ser levado em consideração para nos conectarmos aos personagens, até que a tão aguardada mudança possa finalmente acontecer.

O desperdício de seu potencial vem na manutenção de certos personagens. Apocalypse, ao menos em tese, deveria ser o ano mais tenso e mais perturbador da antologia – e certas figuras continuam quebrando o ritmo dos diálogos e das sequências com piadas ácidas e diálogos irreverentes que até funcionaram, porém em outro momento. Grossman e Lourd são as principais responsáveis por nos tirar da ambiência de inquietação, até mesmo forçando-se em um papel que cai na canastrice. De fato, eliminá-las seria ótimo para a série, a não ser que elas sofram uma mudança necessária e urgente.

American Horror Story recuperou o brilho em diversos aspectos e tem tudo para continuar em ascensão. De fato, apesar da melhora, eu e mais inúmeros fãs estamos doidos para a fusão final do famigerado clã e do retorno das bruxas mais poderosas de todos os tempos para enfrentarem (ou corroborarem) as forças diabólicas que agora dominam o nosso mundo.

American Horror Story – 08×02: The Morning After (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Jennifer Lynch
Roteiro: James Wong
Elenco: Sarah Paulson, Kathy Bates, Evan Peters, Joan Collins, Billie Lourd, Adina Porter, Cheyenne Jackson, Billy Eichner, Leslie Grossman, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Lily Rabe, Frances Conroy, Taissa Farmiga
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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