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O clã está completo de novo – e American Horror Story conseguiu mais uma vez se superar com um incrível e divertidíssimo episódio.

É comum repetir algumas considerações em críticas, principalmente quando o terreno das expectativas é preparado com tanto esmero. Foi isso que aconteceu com a oitava temporada da antologia de terror da FX; Apocalypse, desde seu anúncio do ano passado como um cross-over entre Coven e Murder House, tornou-se pauta dentro da comunidade dos fãs sobre ter a habilidade de se transformar em uma das melhores de toda a franquia. Afinal, as duas representam alguns dos ápices dentro de televisão contemporânea e ainda teriam muitos caminhos a serem explorados, bem como deixando uma definitiva marca no universo compartilhado criado por Ryan Murphy.

O showrunner parece ter perdido um pouco a mão ao focar em outros trabalhos igualmente fabulosos – como American Crime Story e Feud. Os últimos anos, com raríssimas exceções, passaram um tanto despercebidos pela crítica e representaram um possível cansaço desse microcosmos do terror. Entretanto, a mais nova iteração prometeu mudar esse cenário – e, até agora, faz um belo trabalho, alcançando um ápice nostálgico e muito bem-vindo com o novo capítulo, intitulado Could It Be… Satan?. Aqui, as poderosas forças das bruxas e dos feiticeiros encontram margens para oporem-se umas às outras, além de prever o cenário pós-apocalíptico no qual o próprio público se encontra.

Entretanto, diferente do que poderíamos imaginar, o episódio não dá uma progressividade cronológica aos eventos, optando transformar-se em um filler explicativo e interessante do que aconteceu nos últimos anos antes do ataque bioquímico. O roteirista Tim Minear escolhe focar em Michael Langdon (Cody Fern) e em como ele chegou ao ápice de seus poderes: após permanecer como filho adotivo de Constance (Jessica Lange) na primeira temporada, Michael foi resgatado por uma cruel e estranhamente materna satanista chamada Miriam Mead (Kathy Bates), sendo doutrinado a louvar Satã e a cultivar seus poderes de modo inconsciente. Os laços de afeto entre os dois eram tamanhos que ele resolveu até mesmo construir uma máquina aos moldes de seu ídolo para ajudá-lo a controlar os Postos de salvação.

Eventualmente, um grupo de feiticeiros liderado pelo Reitor Ariel (Jon Jon Briones) toma conhecimento da extensa capacidade mágica de Michael e o leva para seu coven, acreditando que a profecia da chegada do warlock Alfa irá se cumprir. É aqui que as coisas ficam mais interessantes: em 2013, quando fomos apresentadas à seita das bruxas, não imaginávamos que elas teriam quaisquer rivais no mundo sobrenatural. Porém, essa comunidade opositora existe e sempre foi subjugado ao poderio feminino. A chegada do Alfa representaria uma ameaça para a atual Suprema, encarnada por Cordelia Foxx (Sarah Paulson), a qual nunca acreditou na possibilidade de um homem equiparar-se à majestuosidade de suas habilidades.

Talvez o mais interessante seja o modo como o episódio é conduzido: nós, como espectadores, sabemos que Michael vai muito além de um mero feiticeiro, visto que é a representação material do próprio Anticristo, cuja chegada foi prevista ao mundo desde Murder House. Ao mesmo tempo em que tal força malevolente alcança maturidade, uma esperança contraditória fomenta-se na mansão das bruxas: Mallory (Billie Lourd), conhecida apenas como uma mera assessora, é dotada de poderes incríveis e assustadores, razão pela qual Langdon começa a se preocupar. Cordelia lançou um feitiço para bloquear suas memórias e protegê-la de qualquer mal, mas agora chegou o momento de enfrentar os obstáculos que as impedem de reconstruir o mundo. Além disso, a teoria de que Mallory poderia ser a reencarnação de Misty Day (Lily Rabe) ou Zoe Benson (Taissa Farmiga) caem por terra quase que de imediato.

De qualquer forma, o capítulo é um avanço considerável em termos estruturais e estéticos quando comparado às investidas anteriores. Percebe-se que a atmosfera de constante perigo e agonia retorna, mesclada com a ironia clássica de algumas personagens icônicas da franquia – incluindo Emma Roberts como a femme fatale Madison Montgomery, presa em seu inferno particular até ser resgatada pelo próprio Anticristo. A segurança diretorial busca as excêntricas referências de Murphy nos primeiros anos da antologia, incluindo os planos angulosos e os enquadramentos não-horizontais; ainda assim, o escopo puramente fantasioso e distorcido ainda faz falta, mantendo a temporada em uma frágil caixa de vidro ávida por ser quebrada.

As conexões com temporadas anteriores também voltam com toda a força. Cordelia descobre o paradeiro de Queenie (Gabourey Sidibe), assassinada e consequentemente prisioneira do receptáculo do mal conhecido como Hotel Cortez. Apesar de suas melhores tentativas, a Suprema não consegue resgatá-la de seu eterno destino como alma penada, sendo destituída pelo próprio Michael. A crescente rixa indireta entre esses dois personagens é um dos pontos com maior potencial dentro da trama – e tenho certeza de que eu, assim como os milhares de espectadores da série, estamos ansiosos para ver o que Murphy, Brad Falchuk e o time criativo nos têm a oferecer.

Apocalypse trilha um caminho de puro sucesso. Felizmente, o morno início da temporada deu apenas um gostinho do que iríamos enfrentar, mergulhando em um crescente arco dramático cujas possibilidades narrativas são infinitas e que pode ter uma das resoluções mais catárticas de toda a franquia televisiva.

American Horror Story – 08×04: Could It Be… Satan? (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Sheree Folkson
Roteiro: Tim Minear
Elenco: Sarah Paulson, Kathy Bates, Evan Peters, Billie Lourd, Adina Porter, Cheyenne Jackson, Leslie Grossman, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Lily Rabe, Frances Conroy, Taissa Farmiga
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos